Conversa com Economista: André Lara Resende

agosto 23, 2017

Vejam abaixo um seminário com um dos pais do Plano Real, o economista André Lara Resende, falando do seu último livro, intitulado “Juros, Moeda e Ortodoxia”. Neste livro, o autor estimula o debate sobre a teoria monetária da inflação, sugerindo que pode haver outras formas de se combater o aumento dos preços, além da elevação da taxa de juros. Pode ser que a teoria fiscal da inflação seja válida para algumas situações-limite, tais como situações de dominância fiscal e de armadilha da liquidez.

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Joias do Heterodoxismo: Mercadante Bancando o Fiscal do Sarney

agosto 14, 2017

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No vídeo abaixo, ao mesmo tempo tosco e hilário, vemos Aloísio Mercadante bancar o fiscal do Sarney durante a vigência do Plano Cruzado. Lá está o valente checando se os preços dos produtos do supermercado estão respeitando o congelamento e o tabelamento. Ao constatar que sim, ele solta a frase para a posteridade: “o problema da inflação acabou!”. Inocente…

Como economista heterodoxo desenvolvimentista gosta de controle de preços para combater a inflação! Veja o caso da “presidenta” Dilma que controlou as tarifas públicas para tentar reduzir a inflação nos anos de 2013 e 2014. Evidentemente, não funcionou.

Voltando ao Mercadante, note a camisa da CUT e a bela calça amarelada do indivíduo e o tom indignado quando ele constata que produtos estão faltando nas prateleiras. Como não poderia deixar de ser, ele joga a responsabilidade do desabastecimento para os empresários gananciosos. Só faltou dar voz de prisão ao gerente do supermercado, fechar à força o estabelecimento e cantar o hino nacional.

 

Existe Brasil em Outros Planetas?

agosto 3, 2017

gorjeta

Lendo artigo do “Valor Econômico”, fiquei sabendo da existência de uma lei (13.419/17) que regulamenta a gorjeta, aprovada neste ano pelo Congresso, aplicável a bares, restaurantes, hotéis, motéis (?!), cabeleireiros, manicures, lojas de reparos de roupas, engraxatarias (?!), postos de combustíveis etc. Cabe registrar que a concessão da gorjeta continua opcional e não pode ser imposta pelo funcionário nem pelo estabelecimento.

Isso mesmo, caro leitor, regulamentação da gorjeta, com o devido recolhimento de impostos, taxas e contribuições previdenciárias! Botaram o governo no meio da concessão facultativa de uma premiação pelo bom serviço na avaliação do cliente.

A questão tributária surge quando a gorjeta (normalmente, de 10%) é incluída na nota fiscal emitida pelo estabelecimento. Além disso, a gorjeta virou alvo de contrato coletivo de trabalho de certas categorias para incluir um acumulado médio de gorjetas no holerite do funcionário, ao lado das rubricas de salário, férias, 13º. Nesse caso, há a necessidade de se recolher impostos, taxas e contribuições previdenciárias sobre esse extra contido no contracheque.

A lei permite que os empregadores recolham 33% da gorjeta para cobrir esses encargos. Mas o problema é que essa mordida não é suficiente para cobrir totalmente os custos tributários e previdenciários da gorjeta: o custo efetivo para o empregador é de aproximadamente 157%, segundo informado no artigo do Valor.

Como entrou o governo na parada, vamos contar os mortos e feridos por mais essa intervenção. Vamos supor que o valor da gorjeta que você deseja dar é de R$10. Quem ganha e quem perde?

Perde o funcionário que recebe somente R$6,67 dos dez reais.

Perde o empregador que tem um custo de R$15,70 para cada dez reais de gorjeta, podendo ressarcir apenas R$3,33, ficando com um prejuízo de R$2,37. Talvez ele tente recuperar a diferença, majorando os seus preços.

Perde o cliente que queria premiar um bom serviço prestado pelo funcionário com dez reais, mas vê que somente dois terços disso vão realmente para o bolso do sujeito. Sem falar que ele pode pagar preços mais altos, aumentados pelo custo tributário da gorjeta.

Ganha o governo, que não fez nada para ajudar na realização dessa transação. Sempre o Governo colhendo frutos nunca plantados por ele.

Por que pôr governo nessa estória, se quase todos são prejudicados?

Por que gorjeta é alvo de contrato coletivo de trabalho? Qual é a vantagem para o empregado?

Por que os empregadores cobram a gorjeta na nota fiscal e pagam o acumulado de gorjetas no holerite do funcionário, se isso gera perdas para eles?

Fiquei estarrecido e desanimado com a leitura dessa notícia. Não faz sentido econômico a regulamentação da gorjeta. Vai gostar de governo lá longe! Que sina a nossa!

Não seria melhor fazer o que se faz em praticamente todos os países. Vem na mesa do restaurante a conta com valor do que foi consumido sem o cálculo de 10% da gorjeta. Aí você paga o valor da conta e deixa a gorjeta que você quer dar informalmente na mesa para ser recolhida pela mão visível do garçom. Assim, funciona melhor a mão invisível do mercado.

Não, no Brasil. Aqui a mão visível, peluda, suja, cheia de bactérias e micróbios do governo chega na mesa e pega para ele quase 55% da gorjeta.

Por conta própria daqui por diante, vou começar a fazer o que é feito lá fora. Pedirei gentilmente para tirar a cobrança da gorjeta da conta e vou dar por debaixo dos panos (na verdade, por debaixo da toalha da mesa) o dinheiro da gorjeta diretamente para o garçom. Vou eliminar o governo dessa estória.

Mais uma vez: por que introduzir regulamentação governamental na concessão da gorjeta?! Onde está a falha de mercado para justificar a regulamentação, Cristo Rei? Há explicação racional para isso?

A única explicação – e não é racional, evidentemente – é “Brasil”. Tem coisa que só acontece aqui neste país triste dos Trópicos. As nossas jabuticabas amargas…

Outra explicação possível repousa numa charge de Veríssimo, publicada faz muito tempo atrás: dois caras contemplam um céu estrelado, até que um pergunta, pensativo, para o outro: “será que existe Brasil em outros planetas?”

Trilha Sonora do Post

“The waitress song” na voz de Seth Sentry. Felizmente, para a garçonete que aparece no vídeo, ela trabalha num diner nos EUA. O governo americano não garfa um terço dos seus tips.

Conversa com Economista: Armínio Fraga

agosto 1, 2017

Segue a entrevista com o economista Armínio Fraga. Dependendo de quem ganhar as eleições presidenciais do próximo ano, ele pode ser o nosso futuro Ministro da Fazenda. Sem dúvida, a economia brasileira estaria em boas mãos.

Laboratório Brasil

julho 11, 2017

laboratório

Ao contrário da Biologia ou da Física, costuma-se dizer que, em Economia, é muito raro fazer experimentos controlados pois as “bactérias” ou os “átomos”, neste caso, são seres humanos.

Mas, durante muito tempo, fizeram com o povo brasileiro todo o tipo de experiência para se controlar a inflação no Brasil, desde o Plano Cruzado até finalmente o Plano Real, que conseguiu encerrar o processo de elevada inflação que começou na década de sessenta.

Com o Plano Cruzado, inaugurou-se uma espécie de “macumba econômica”, com todo tipo de feitiçaria: congelamentos, tabelamentos, tablitas (não queira saber o que isso era), fiscais do Sarney, etc. Uma loucura só!

Depois de muitas cabeçadas (Plano Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor I, Plano Collor II), finalmente a racionalidade na formulação de política econômica voltou e o Plano Real foi lançado.

O grande problema da inflação brasileira, depois de 1965, era a correção monetária instituída na lei que impedia o recuo das taxas inflacionárias e impunha um componente autônomo (a chamada inércia inflacionária). Para vocês terem ideia, a inflação num prazo de quinze anos foi 20.759.903.275.651%! É isso aí: mais de 20 trilhões % de inflação!!!

Existe um documentário (“Laboratório Brasil”) na TV Câmara que conta a epopeia da tentativa de se estabilizar os preços na economia.

Os depoimentos são surpreendentes. Por exemplo, o economista Gustavo Franco revela que, numa reunião da equipe econômica com o governo Itamar e o seu ministério, ao debater com o ministro do trabalho Walter Barelli, que queria incluir um despropositado aumento salarial para os trabalhadores dentro do Plano Real, Fernando Henrique entregou o cargo de ministro da Fazenda três vezes, caso isso fosse incluído!

Trilha Sonora do Post

“Tente outra vez”! Era isso o que o governo fazia para tentar estabilizar a inflação. O Plano Cruzado não deu certo? Tente outra vez! Se o Plano Bresser não deu certo? Tente outra vez! Plano Collor não funcionou? Tente outra vez! Até acertar!

Joias do Heterodoxismo: o Choro da Conceição

julho 3, 2017

folclore brasileiro

Estou criando uma nova seção no Blogonomia: Joias do heterodoxismo.

E vamos inaugurar essa seção em alto estilo com a economista Maria da Conceição Tavares. A Conceição está para o heterodoxismo brasileiro, assim como a Cuca está para o folclore nacional.

Eis o choro da Conceição à época do anúncio do Plano Cruzado em 1986 em entrevista na Rede Globo:

Conversa com Economista: Gustavo Franco

julho 3, 2017

Como o economista Gustavo Franco está em evidência por conta do filme “Real – O Plano Por Trás da História”, vale a pena rever a entrevista dele para o programa “Roda Viva” no final de 2015.

A Real Por Trás do Filme

junho 28, 2017

Real o filme

Está em cartaz o filme “Real – O Plano Por Trás da História”, que conta a historia do Plano Real, tendo como protagonista o economista Gustavo Franco.

Assisti e gostei. Afinal, não é sempre que se veem nas telas economistas no papel de heróis. Muito pelo contrário.

Evidentemente, existem alguns problemas com a produção.

O diretor que escalou o ator para representar o Pérsio Arida nunca deve ter visto uma foto dele. O Arida é pequeno e franzino e o ator global que o interpretou (Guilherme Weber) é superalto, atlético, cabelos aloirados, mais parecendo um surfista.

O ator que faz o Serra é superfeio, mas de uma superfeiúra totalmente diferente da superfeiúra do Serra. Mas a voz do camarada é idêntica.

O roteiro é apenas correto, com personagens sem profundidade psicológica. Mas isso é problema que quase todo filme nacional enfrenta. Bem diferente do cinema argentino.

O papel do FHC no filme não corresponde com a realidade. Fernando Henrique foi importantíssimo para vender o plano no Congresso. Sem a aprovação da MP do Real no Congresso, não haveria Plano.

O papel do Arida e de Lara Resende é colocado em segundo plano. Não se deve esquecer que o Plano Real foi uma versão melhorada do Plano Larida, proposto pelos dois uns dez anos antes num artigo científico.

O papel de Gustavo Franco foi realmente muito importante. O Plano Larida previa a circulação de duas moedas com todas as suas funções (meio de troca, reserva de valor e unidade de conta): a moeda velha inflacionada e a moeda indexada (ORTN).

O receio dos economistas era que a  moeda podre contaminasse a moeda indexada, inflacionando-a. Mais prosaicamente, como costumava dizer o economista José Roberto Mendonça de Barros, seria muito esquisito ver uma dona-de-casa comprar um pé de alface na feira com uma ORTN…

Franco resolveu esse nó górdio do Real, inspirado na história do Rentenmark durante a hiperinflação alemã dos anos vinte do século passado. A moeda indexada (rebatizada de URV em 1994) não circularia, tendo apenas a função de unidade de conta. Essa ideia aumentou as chances de o Plano Real dar certo.

Enfim, vale a pena assistir ao filme. Na sessão a que fui havia umas quinze pessoas na sala. A maioria economistas. No final, as pessoas provavelmente não economistas chegaram a aplaudir o final do filme.

Abaixo, o trailer do filme:

Conversa com Economista: Samuel Pessôa

junho 6, 2017

Vale a pena ver a entrevista do economista Samuel Pessôa ao Roda Viva recentemente.

Conversa com Economista: Eduardo Gianetti da Fonseca

maio 9, 2017

No vídeo abaixo, você tem a entrevista do economista Eduardo Gianetti da Fonseca.

Gianetti foi o paraninfo da minha turma de economia na graduação na USP. Ele foi também o meu professor de História do Pensamento Econômico.

Ele é um professor impressionante pela clareza de exposição das suas ideias. No final da disciplina de HPE, presenciei algo inédito: quando o Gianetti terminou a última aula, ele foi aplaudido pela maioria do alunos.

Nesta entrevista, dá para desfrutar do poder do pensamento de Gianetti tanto em assuntos econômicos quanto políticos.