E Se a Petrobras fosse Privatizada?

maio 29, 2018

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Há uma interminável discussão se a Petrobras – e, de modo geral, qualquer estatal – deveria ser privatizada ou não. Existem argumentos para as duas posições neste debate. Independente disso, um econometrista aplicado gostaria de fazer um experimento para tirar empiricamente essa teima. Ou seja, deixar a Petrobras como empresa estatal, com tudo o que isso implica (intervencionismo, aparelhamento político, controle de preços dos combustíveis, corrupção etc), passar um tempo nessa condição e ver os resultados disso em termos de receitas, endividamento, lucratividade e valor de mercado. Depois, com essa mesma Petrobras, mas agora na condição de empresa privada, passar o mesmo tempo e analisar esses mesmos indicadores de desempenho, comparando com aqueles outros resultados da Petrobras estatal para concluir qual condição é mais eficiente.

Evidentemente, a Petrobras privatizada não é um resultado observável. O que se tem é a Petrobras estatal e só. De qualquer modo, o econometrista aplicado procuraria um contrafactual, isto é, uma situação real que assemelharia à situação que não se tem em mãos (no caso, a Petrobras privatizada). Interessantemente, o Brasil presenciou um experimento natural que gerou uma espécie de contrafactual para a “Petrobras privatizada”.

Depois do desastre econômico produzido pela ingerência dos governos petistas na direção da Petrobras, que levou a empresa a uma situação quase falimentar, com a chegada do governo interino, depois do impeachment, nomeou-se um novo presidente para a Petrobras. Pedro Parente, este novo presidente, deixou claro que só aceitaria o cargo se tivesse total liberdade e carta branca para todas as decisões técnicas e administrativas para tirar a empresa do buraco.

Aí está o nosso contrafactual! A partir de junho de 2016, a mesma Petrobras, com as mesmas reservas de petróleo, com o mesmo quadro de funcionários, com a mesma marca, com os mesmos produtos, mas agora com uma gestão parecida com a de uma empresa privada.

Que conclusão tiramos desse experimento natural? Infelizmente, tanto a Petrobras estatal quanto a Petrobras “privatizada” desagradam a sociedade.

É claro que a Petrobras “privatizada” conseguiu melhores indicadores de desempenho: aumentou a receita, reduziu o endividamento e aumentou o lucro. Mas tudo isso foi graças à utilização de seu gigantesco poder de mercado de quase monopolista, que a fez decidir até formar preço dos combustíveis diariamente.

No mercado de combustíveis, a variação diária de preços (para cima ou para baixo) faz com esse mercado não encontre o seu equilíbrio. O lado da demanda não tem tempo para processar informações da mudança de preço de ontem, pois hoje já existe outra variação de preço, impedindo que ela encontre a oferta. A formação diária de preços dos combustíveis introduz uma grande volatilidade de preços no mercado, dificultando a tomada de decisão dos compradores e dos vendedores na bomba dos postos. O que se obteve foi uma grande dispersão de preços dos combustíveis, refletindo um mercado que perdeu referência.

Qual é a empresa que decide mexer no preço de seu produto todos os dias? Praticamente nenhuma, a não ser que a empresa seja um monopólio desregulamentado. E esse é o problema com a Petrobras “privatizada”. Trata-se de um monopólio privado com enorme poder de mercado e sem regulação, que vai tentar buscar lucros monopolistas, com preço alto e menos produção de petróleo e combustíveis. Para a sociedade, há pouco ganho na transformação do monopólio estatal em monopólio privado.

O problema está na histórica falta de competição no mercado de petróleo no Brasil desde a aprovação da famigerada lei 2004, em 1953, que instituiu o monopólio da Petrobras. Não basta privatizar a Petrobras, é necessário introduzir competição nas várias fases do mercado de petróleo.

Na fase de exploração, é preciso continuar com os leilões de concessão dos poços de petróleo, fazendo que haja concorrência entre as petroleiras do mundo todo pelo direito de explorar no pré-sal.

Na etapa do refino, deve-se vender a maioria das refinarias da Petrobras para outras empresas interessadas.

Na fase da distribuição dos combustíveis, permitir a importação livre de combustíveis refinados em outras partes do mundo a fim de introduzir contestabilidade nos preços que as refinarias pratiquem no mercado interno.

Na etapa da comercialização, impedir a atuação da Petrobras privatizada neste segmento, dividindo a BR em pelo menos duas outras distribuidoras, que não seja o grupo Ultra (dono da Ipiranga) ou o grupo Raízen (dono da Shell), para que haja competição com esses dois outros grupos e isso se reflita na bomba do posto.

A palavra de ordem aqui é competição. Tudo bem que se privatize a Petrobras, mas tem que submetê-la à competição. Senão, é trocar seis por meia dúzia.

Trilha Sonora do Post

Nada como pegar uma rodovia e cair no mundo, sem direção definida e, de preferência, pagando barato o combustível no tanque. A canção “Born to be wild” do filme “Easy Rider”:

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Joias do Heterodoxismo: A Pós em Esquerda

maio 24, 2018

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Dado que há uma preocupante carência de esquerdistas no Brasil, um deputado do PT (quem mais?) propôs ano passado uma Pós especializada em esquerda. O corpo docente é de tirar o fôlego: Guilherme Boulos, João Pedro Stédile, Jean Willys, Jandira Feghali, Leonardo Boff e last, but not least, Dilma Roussef!

Fiquei curioso agora. Como é que seria ter aula com Dilma? Será que ela vai finalmente ensinar como estocar vento?  Ou o tema da palestra da ex-presidenta será entomologia, ensinando que existe o mosquito, mas também a mosquita, assim como há a formiga, mas também o formigo?… Mas uma coisa é certa: antes de começar cada uma de suas aulas, Dilma fará a saudação à mandioca, esta conquista da civilização humana! Evidentemente, a mandioca comungada com o milho!

Abaixo está a apresentação dessa fundamental Pós (A Esquerda no Século 21) pelo excelentíssimo deputado e o convite para você se inscrever e ter sua mente fecundada por esses pensadores canhotos. Depois o cara reclama que não consegue arranjar emprego.

Joias do Heterodoxismo: O Dia em que Belluzzo Mandou Matar

dezembro 13, 2017

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Os economistas heterodoxos gostam de bagunçar a economia brasileira quando chegam ao Poder. Mas não é só na economia que as ideias heterodoxas fazem mal. No futebol também.

O economista heterodoxo Luiz Gonzaga Belluzzo foi presidente do Palmeiras no biênio 2009-2010. Como um ensandecido keynesiano, fez uma política de gastança e irresponsabilidade fiscal no clube: contratou mais de oitenta jogadores no prazo de dois anos, pagou salários altos para jogadores discutíveis (Wagner Love, Valdívia etc), adiantou receitas de cotas de TV, gastou como se não houvesse amanhã. Enfim, o homem criou uma espécie de nova matriz econômica da bola…

Resultado em campo: nenhum título. Pior: o Palmeiras perdeu o Brasileiro mais ganho da história em 2009. Pior ainda: essa desastrosa administração pode ter pavimentado o caminho para o rebaixamento do Campeão do Século para a Série B em 2012. As contas de Belluzzo foram rejeitadas pelo Conselho Deliberativo do Palmeiras por má gestão.

Durante sua agitada gestão, houve um momento em que o homem ficou completamente descontrolado. Alguns dias antes do Palmeiras enfrentar o São Paulo, na sede da torcida organizada Mancha Alviverde e na frente de seus torcedores, Belluzzo proclamou: “Vamos matar os Bambis! Vamos matar os Bambis! Eles já morreram hoje!”, conforme pode ser visto no vídeo abaixo. Nesse vídeo ainda, ele praticamente promete dar umas porradas na cara do ex-árbitro Carlos Eugênio Simon por ele ter supostamente prejudicado o Palmeiras com a sua arbitragem.

Alguém vai dizer que ele falou isso brincando, sem má intenção. Conotativamente, o verbo “matar” significaria “vencer” no campo de jogo.

Mesmo assim, uma vez que a voltagem costuma ser muito alta no relacionamento entre torcidas organizadas, é temerário usar esses termos e esse tipo de linguagem. Alguns torcedores sem noção podem receber isso como um incitamento para agir de acordo com esse discurso doidivanas. Felizmente, não houve registro de que tenha acontecido nenhum óbito antes ou depois desse jogo. Mas imaginou se tivesse ocorrido.

Não bastasse que os economistas heterodoxos danem com a economia brasileira, eles querem destruir o meu Palmeiras. Aí já é demais!

 

Conversa com Economista: André Lara Resende

agosto 23, 2017

Vejam abaixo um seminário com um dos pais do Plano Real, o economista André Lara Resende, falando do seu último livro, intitulado “Juros, Moeda e Ortodoxia”. Neste livro, o autor estimula o debate sobre a teoria monetária da inflação, sugerindo que pode haver outras formas de se combater o aumento dos preços, além da elevação da taxa de juros. Pode ser que a teoria fiscal da inflação seja válida para algumas situações-limite, tais como situações de dominância fiscal e de armadilha da liquidez.

Joias do Heterodoxismo: Mercadante Bancando o Fiscal do Sarney

agosto 14, 2017

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No vídeo abaixo, ao mesmo tempo tosco e hilário, vemos Aloísio Mercadante bancar o fiscal do Sarney durante a vigência do Plano Cruzado. Lá está o valente checando se os preços dos produtos do supermercado estão respeitando o congelamento e o tabelamento. Ao constatar que sim, ele solta a frase para a posteridade: “o problema da inflação acabou!”.  Sabe nada, inocente…

Como economista heterodoxo desenvolvimentista gosta de controle de preços para combater a inflação! Veja o caso da “presidenta” Dilma que controlou as tarifas públicas para tentar reduzir a inflação nos anos de 2013 e 2014. Evidentemente, não funcionou.

Voltando ao Mercadante, note a camisa da CUT e a bela calça amarelada do indivíduo e o tom indignado quando ele constata que produtos estão faltando nas prateleiras. Como não poderia deixar de ser, ele joga a responsabilidade do desabastecimento para os empresários gananciosos. Só faltou dar voz de prisão ao gerente do supermercado, fechar à força o estabelecimento e cantar o hino nacional.

 

Existe Brasil em Outros Planetas?

agosto 3, 2017

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Lendo artigo do “Valor Econômico”, fiquei sabendo da existência de uma lei (13.419/17) que regulamenta a gorjeta, aprovada neste ano pelo Congresso, aplicável a bares, restaurantes, hotéis, motéis (?!), cabeleireiros, manicures, lojas de reparos de roupas, engraxatarias (?!), postos de combustíveis etc. Cabe registrar que a concessão da gorjeta continua opcional e não pode ser imposta pelo funcionário nem pelo estabelecimento.

Isso mesmo, caro leitor, regulamentação da gorjeta, com o devido recolhimento de impostos, taxas e contribuições previdenciárias! Botaram o governo no meio da concessão facultativa de uma premiação pelo bom serviço na avaliação do cliente.

A questão tributária surge quando a gorjeta (normalmente, de 10%) é incluída na nota fiscal emitida pelo estabelecimento. Além disso, a gorjeta virou alvo de contrato coletivo de trabalho de certas categorias para incluir um acumulado médio de gorjetas no holerite do funcionário, ao lado das rubricas de salário, férias, 13º. Nesse caso, há a necessidade de se recolher impostos, taxas e contribuições previdenciárias sobre esse extra contido no contracheque.

A lei permite que os empregadores recolham 33% da gorjeta para cobrir esses encargos. Mas o problema é que essa mordida não é suficiente para cobrir totalmente os custos tributários e previdenciários da gorjeta: o custo efetivo para o empregador é de aproximadamente 157%, segundo informado no artigo do Valor.

Como entrou o governo na parada, vamos contar os mortos e feridos por mais essa intervenção. Vamos supor que o valor da gorjeta que você deseja dar é de R$10. Quem ganha e quem perde?

Perde o funcionário que recebe somente R$6,67 dos dez reais.

Perde o empregador que tem um custo de R$15,70 para cada dez reais de gorjeta, podendo ressarcir apenas R$3,33, ficando com um prejuízo de R$2,37. Talvez ele tente recuperar a diferença, majorando os seus preços.

Perde o cliente que queria premiar um bom serviço prestado pelo funcionário com dez reais, mas vê que somente dois terços disso vão realmente para o bolso do sujeito. Sem falar que ele pode pagar preços mais altos, aumentados pelo custo tributário da gorjeta.

Ganha o governo, que não fez nada para ajudar na realização dessa transação. Sempre o Governo colhendo frutos nunca plantados por ele.

Por que pôr governo nessa estória, se quase todos são prejudicados?

Por que gorjeta é alvo de contrato coletivo de trabalho? Qual é a vantagem para o empregado?

Por que os empregadores cobram a gorjeta na nota fiscal e pagam o acumulado de gorjetas no holerite do funcionário, se isso gera perdas para eles?

Fiquei estarrecido e desanimado com a leitura dessa notícia. Não faz sentido econômico a regulamentação da gorjeta. Vai gostar de governo lá longe! Que sina a nossa!

Não seria melhor fazer o que se faz em praticamente todos os países. Vem na mesa do restaurante a conta com valor do que foi consumido sem o cálculo de 10% da gorjeta. Aí você paga o valor da conta e deixa a gorjeta que você quer dar informalmente na mesa para ser recolhida pela mão visível do garçom. Assim, funciona melhor a mão invisível do mercado.

Não, no Brasil. Aqui a mão visível, peluda, suja, cheia de bactérias e micróbios do governo chega na mesa e pega para ele quase 55% da gorjeta.

Por conta própria daqui por diante, vou começar a fazer o que é feito lá fora. Pedirei gentilmente para tirar a cobrança da gorjeta da conta e vou dar por debaixo dos panos (na verdade, por debaixo da toalha da mesa) o dinheiro da gorjeta diretamente para o garçom. Vou eliminar o governo dessa estória.

Mais uma vez: por que introduzir regulamentação governamental na concessão da gorjeta?! Onde está a falha de mercado para justificar a regulamentação, Cristo Rei? Há explicação racional para isso?

A única explicação – e não é racional, evidentemente – é “Brasil”. Tem coisa que só acontece aqui neste país triste dos Trópicos. As nossas jabuticabas amargas…

Outra explicação possível repousa numa charge de Veríssimo, publicada faz muito tempo atrás: dois caras contemplam um céu estrelado, até que um pergunta, pensativo, para o outro: “será que existe Brasil em outros planetas?”

Trilha Sonora do Post

“The waitress song” na voz de Seth Sentry. Felizmente, para a garçonete que aparece no vídeo, ela trabalha num diner nos EUA. O governo americano não garfa um terço dos seus tips.

Conversa com Economista: Armínio Fraga

agosto 1, 2017

Segue a entrevista com o economista Armínio Fraga. Dependendo de quem ganhar as eleições presidenciais do próximo ano, ele pode ser o nosso futuro Ministro da Fazenda. Sem dúvida, a economia brasileira estaria em boas mãos.

Laboratório Brasil

julho 11, 2017

laboratório

Ao contrário da Biologia ou da Física, costuma-se dizer que, em Economia, é muito raro fazer experimentos controlados pois as “bactérias” ou os “átomos”, neste caso, são seres humanos.

Mas, durante muito tempo, fizeram com o povo brasileiro todo o tipo de experiência para se controlar a inflação no Brasil, desde o Plano Cruzado até finalmente o Plano Real, que conseguiu encerrar o processo de elevada inflação que começou na década de sessenta.

Com o Plano Cruzado, inaugurou-se uma espécie de “macumba econômica”, com todo tipo de feitiçaria: congelamentos, tabelamentos, tablitas (não queira saber o que isso era), fiscais do Sarney, etc. Uma loucura só!

Depois de muitas cabeçadas (Plano Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor I, Plano Collor II), finalmente a racionalidade na formulação de política econômica voltou e o Plano Real foi lançado.

O grande problema da inflação brasileira, depois de 1965, era a correção monetária instituída na lei que impedia o recuo das taxas inflacionárias e impunha um componente autônomo (a chamada inércia inflacionária). Para vocês terem ideia, a inflação num prazo de quinze anos foi 20.759.903.275.651%! É isso aí: mais de 20 trilhões % de inflação!!!

Existe um documentário (“Laboratório Brasil”) na TV Câmara que conta a epopeia da tentativa de se estabilizar os preços na economia.

Os depoimentos são surpreendentes. Por exemplo, o economista Gustavo Franco revela que, numa reunião da equipe econômica com o governo Itamar e o seu ministério, ao debater com o ministro do trabalho Walter Barelli, que queria incluir um despropositado aumento salarial para os trabalhadores dentro do Plano Real, Fernando Henrique entregou o cargo de ministro da Fazenda três vezes, caso isso fosse incluído!

Trilha Sonora do Post

“Tente outra vez”! Era isso o que o governo fazia para tentar estabilizar a inflação. O Plano Cruzado não deu certo? Tente outra vez! Se o Plano Bresser não deu certo? Tente outra vez! Plano Collor não funcionou? Tente outra vez! Até acertar!

Joias do Heterodoxismo: o Choro da Conceição

julho 3, 2017

folclore brasileiro

Estou criando uma nova seção no Blogonomia: Joias do heterodoxismo.

E vamos inaugurar essa seção em alto estilo com a economista Maria da Conceição Tavares. A Conceição está para o heterodoxismo brasileiro, assim como a Cuca está para o folclore nacional.

Eis o choro da Conceição à época do anúncio do Plano Cruzado em 1986 em entrevista na Rede Globo:

Conversa com Economista: Gustavo Franco

julho 3, 2017

Como o economista Gustavo Franco está em evidência por conta do filme “Real – O Plano Por Trás da História”, vale a pena rever a entrevista dele para o programa “Roda Viva” no final de 2015.