Archive for fevereiro \28\UTC 2011

Espaço: a fronteira final

fevereiro 28, 2011

O tempo foi incorporado nos modelos econômicos faz muito tempo. Modelos dinâmicos de crescimento existem desde o começo do século passado. Métodos quantitativos para tratar o tempo foram desenvolvidos também há muito tempo. O desenvolvimento das séries temporais pelos estatísticos e a chamada econometria de séries de tempo não me deixam mentir. Evidentemente, a ampla aplicação dos métodos econométricos dependeu da elevação do poder de processamento dos computadores a partir dos anos oitenta, principalmente.

O que é interessante indagar é por que o tempo entrou mais rapidamente na economia do que o estudo da influência do espaço. Uma possível resposta para essa questão seria que o tempo está em toda a parte em nossas vidas desde muito tempo: temos relógio, carregamos calendário em nossas carteiras, a passagem do tempo nos deixa marcas e rugas etc. Agora quem é que carrega um mapa na carteira.

Mesmo assim talvez a explicação esteja mais na complexidade de se modelar o espaço em comparação com o tempo. Um aspecto dessa complexidade pode ser apreciada pela percepção do fato de que num fenômeno temporal presente é determinado pelo passado e o futuro é determinado pelas decisões tomadas no presente. A direção da causalidade é unidirecional (passado -> presente -> futuro). Mas num fenômeno espacial a direção da causalidade pode ser multidirecional: um ente influencia outros entes em seu entorno e é influenciado, por sua vez, por eles.

Em que pese a preocupação de economistas com o espaço desde o século XIX, somente no começo dos anos oitenta e noventa, modelos espaciais, mais sofisticados, são desenvolvidos, sobretudo pelo que ficou conhecido como a nova geografia econômica, que procurava entender por que as atividades econômicas são concentradas através do espaço. Quando se têm teorias e modelos, é preciso se ter métodos quantitativos adequados para testar suas hipóteses. A econometria espacial tem realmente o seu início no final dos anos setenta. Seu desenvolvimento começou a se acelerar apenas nos anos noventa com a avanço dos computadores. É uma fronteira ainda cheia de possibilidades de serem exploradas.

A verdade é que o espaço fascina. Minha linha de pesquisa é a econometria espacial. Às vezes, me pergunto por que fui mexer com isso. Será que um dos motivos pode ter sido porque gostava do seriado “Jornada nas Estrelas”. Talvez. O começo deste seriado, que marcou época, ainda é uma coisa especial. Apesar de ter sido feito há mais de quarenta anos, continua moderno e atual (abaixo pus a abertura inesquecível). Além de espacial e especial, é absolutamente intemporal…

Trilha Sonora do Post

Continuando no espaço, “Rocket Man” de Elton John:

Série “Grandes Economistas”: Schumpeter

fevereiro 27, 2011

No mesmo ano que morreu Karl Marx, 1883, nasceram dois grandes economistas: Keynes e Schumpeter. Eles foram os economistas mais influentes da primeira metade do século passado.

A obra de Schumpeter é marcada pela investigação da influência da inovação e do progresso técnico sobre o sistema econômico. A inovação é a categoria básica de Schumpeter. A ela tudo está vinculado: o crescimento econômico, o fluxo circular da renda, o juro, o lucro, o crédito, os ciclos econômicos etc.

Schumpeter e Keynes disputaram a vida toda quem era o melhor economista da primeira metade do século XX. Em termos de influência de politica econômica, Keynes teve atuação muito mais destacada.

Mas a cada ano que passa parece que a obra de Schumpeter é mais atual do que a de Keynes.  Ou, como se costuma dizer, a obra de Schumpeter envelheceu melhor. Isso talvez confirme o que Schumpeter costumava dizer que queria ser: o maior economista do mundo, o maior cavaleiro da Áustria e o maior amante de Viena…

Note que nesta relação não está ser o melhor pagador de dívida em Viena. Schumpeter foi diretor de um banco que faliu. Deixou uma série de dívidas e saiu meio “apressado” de Viena, acossado por inúmeros credores.

Depois de uma rápida passagem pela Universidade de Oxford, estabeleceu-se como professor da Universidade de Harvard. Lá fez história. Era popular entre os alunos. Invariavelmente, eles o convidavam para suas festas. Schumpeter era dono de um conhecimento enciclopédico e de um carisma magnetizador. Costumava manipular as atenções das festinhas.

Talvez não tenha sido o maior amante de Viena. Mas em Harvard não fez feio nesse quesito. Gostava de chavecar as estudantes. Dizia-se que ele punha as mais bonitas alunas na frente da classe e dava atenção especial a elas.

Foi orientador de Paul Samuelson e de James Tobin, dois dos principais economistas da segunda metade do século passado e ganhadores do Prêmio Nobel de Economia. Orientou a tese de Tobin sobre… economia keynesiana, a teoria do seu maior rival pelo título de maior economista daquele tempo. Isso pouca gente sabe hoje em dia. Mostra o nível de profissionalismo de Schumpeter.

Suas principais obras foram “a Teoria do Desenvolvimento Econômico”, “Capitalismo, Socialismo e Democracia” e “Ciclos de Negócios”.

Até hoje é estudado e suas idéias inspiram novos economistas. Para se ter idéia, existe uma sociedade Joseph Alois Schumpeter, o nome completo da figura (http://www.iss-evec.de/). Existe, ainda, todo ano uma conferência anual em seu nome.

Trilha Sonora do Post

Melhor economista, melhor cavaleiro, melhor amante… Certamente, Schumpeter acharia que tenha sido a inspiração para música “Simply The Best” de Tina Turner.

Economia comportamental

fevereiro 26, 2011

Eu já disse que, frequentemente, é difícil fazer experimento controlado em Economia. Mas não é impossível. Existe um campo da economia que faz experimentos econômicos. Trata-se da economia comportamental, que assume que o homem nem sempre é racional nas suas decisões e busca entender os enganos de percepção e a inconstância das decisões humanas.

Em 2002, esse campo foi homenageado com o recebimento do Prêmio Nobel por dois economistas comportamentais: Daniel Kahneman e Vernon Smith. Um dos seus expoentes é Dan Ariely, professor de economia do MIT, em Boston. Ariely escreveu dois livros que já são sucessos de vendas: “Previsivelmente Irracional” e “Positivamente Irracional”. No primeiro livro, Ariely apresenta os resultados de uma série de experimentos controlados com pessoas. Segundo Ariely, “entender como somos previsivelmente irracionais é o ponto de partida para melhorar nossas decisões e mudar nossas vidas para melhor”. A economia comportamental será assunto para vários posts neste blog, pois a coisa rende.

O vídeo abaixo Ariely analisa a previsibilidade irracional de se namorar on line e arranjar encontros amorosos pela web. Em experimentos, descobriu-se o seguinte: quanto mais a pessoa conhece a outra pessoa no namoro on line, menos ela gosta dela! Assistam ao vídeo!

Namorar custa caro!

fevereiro 22, 2011

Deu no Newsweek: o investimento que um homem faz durante o namoro e o noivado até o casamento é da ordem de 40 mil dólares! São gastos (ou investimentos, diriam os marqueteiros de plantão) como jantares, presentes, jóias, roupas etc.

Agora o incrível é o resultado de uma pesquisa que entrevistou 1.134 homens e mulheres que afirmaram que casam por dinheiro! E disseram quanto pretendem conseguir com o matrimônio: todos queriam não menos que 1 milhão de dólares. Alguns “apaixonados” disseram até 2 milhões de dólares!

A professora Catherine Sura, uma espécie de economista do casamento, da Universidade de Washington, que estuda cientificamente o comportamentos dos pombinhos, concluiu que os homens ficam mais felizes que as mulheres no momento do casamento. A explicação é que eles esperam parar de gastar com a corte da amada. Mas será que deveriam ficar felizes mesmo.

Alguns anos atrás uma pesquisa do Instituto Nacional de Vendas e Trade Marketing (Invent) investigou o hábito de 320 famílias, de todos os estratos sociais, e concluíram que o custo de criação de um filho, do nascimento até o fim da faculdade, pode chegar a 1,6 milhão de reais! Perto desse número, 40 mil dólares é pouco. Talvez seja melhor continuar namorando, dando aquela boa enrolada, e evitar o casamento com filhos.

O link com a notícia do Newsweek é: http://www.msnbc.msn.com/id/23131216/

Trilha Sonora do Post

Às vezes o amor é estranho. Mas uma coisa é certa: ele sempre é caro. “Strange love” do Depeche Mode:

Dez Princípios de Economia

fevereiro 20, 2011

Quando o economista Paul Samuelson decidiu que, devido à idade avançada, não escreveria mais uma versão do seu manual de introdução à economia, a sua editora quase surtou e decidiu contratar o professor Mankiw, da Universidade de Harvard, para preencher a lacuna deixada pelo Prêmio Nobel de Economia de 1970. Deram a Mankiw mais de 1 milhão de dólares, a título de adiantamento de direitos autorais, para ele pensar no livro. Com esse combustível no tanque, Mankiw escreveu um excelente manual de introdução à economia – o melhor de todos disponíveis no mercado. Todos os capítulos apresentam os conceitos e as idéias econômicas de forma atraente, com uma clareza solar e repleto de exemplos ilustrativos, extraídos da realidade. O primeiro capítulo do livro trata dos dez princípios de economia. Um economista comediante, com aguçadíssimo senso de humor, Yoram Bauman, resolveu revisitar os dez princípios do Mankiw, traduzindo-os no vídeo abaixo. Ele “desvenda” o que estaria por trás de cada um dos princípios. A propósito, Yoram tem uma página da web (www.standupeconomist.com). Vejam Yoram descontruindo os dez princípios. 

Economia do Vinho

fevereiro 19, 2011

Uma das coisas legais da economia é a amplitude de seus assuntos. Dado que a economia é a ciência que estuda os incentivos a que as pessoas e as organizações estão submetidas, a diversidade tópica é uma consequência natural. Mas há economistas com muita imaginação.  E sede… Até se reuniram numa associação. Trata-se da associação americana dos economistas do vinho (http://www.wine-economics.org/). Apesar de ser americana, eles aceitam pessoas de todos os países. Basta ser economista e apreciar a bebida de Baco. A coisa é séria. Tem uma seção de papers estudando sobre os vários aspectos da indústria do vinho. Dos economistas do Board conheço o trabalho de Victor Ginsburgh, um economista renomado na área de modelos computáveis de equilíbrio geral (citei um dos livros dele na minha tese de doutorado). Quem diria, hein? Agora a grande questão é a seguinte: esse pessoal escreve os papers antes ou depois de beberem vinho?

Adivinha quem é economista

fevereiro 17, 2011

Os “Rolling Stones” são a banda mais longeva da história do rock. Antigamente, diziam que eles eram a maior banda de rock. De qualquer modo, os caras estão na estrada há mais de 45 anos! Eles já estão quase septuagenários. Mas, tirando os Beatles, que banda tem mais de trinta hits que praticamente toda a humanidade conhece de algum lugar (de um filme, de uma propaganda, da rua, de uma festa de um amigo etc)? Eles são absolutamente pop. Apareceram nos Simpson’s num episódio hilário: o Homer realiza seu sonho e se transforma num stone e toca na banda. Em outro episódio, os Ramones cantam parabéns para você para o Mr. Burns na sua festa, mas acabam gritando “vá para o inferno, seu imbecil!”. Um Burns, totalmente fora de si, ordena ao Smithers: “mate os Rolling Stones”. Smithers tenta retrucar: “Mas eles não são os rollin…” “Não discuta as minhas ordens, Smithers! Mate os Rolling Stones!”, ordena finalmente. Eles são sinônimos de pop rock. Já vieram três vezes ao Brasil. A última foi no megaevento em Copacabana há quatro anos atrás. A primeira apresentação deles no Brasil eu vi no estádio do Pacaembu já faz um tempinho. Vocês sabiam que um dos Stones é economista? Mick Jagger já teve que aprender macro, micro, econometria e tudo mais que a “dismal science”oferece. E não foi numa faculdadezinha vagabunda na Inglaterra, não. Ele se formou na London School of Economics, uma das melhores do mundo. E ele aplica o que aprendeu na sua profissão de cantor e líder da banda: ele negocia todos os contratos da franquia Stones no mundo. Mas falar de Stones é falar de música. Eis os dois hits preferidos por mim: o primeiro é “start me up” e o segundo é “sympathy for the devil”.

O veredito final

fevereiro 15, 2011

O ator Paul Newman morreu em 2008. Ele foi protagonista de dois filmes que estão entre os meus preferidos: “Butch Cassidy” e “O Veredito”. Antes de comentar esses filmes, é bom falar um pouco sobre o cara.

Paul Newman era um exemplo de persistência: foi indicado nove vezes para o Oscar e ganhou apenas uma vez. O primeiro filme dele, o Cálice Sagrado, quase acaba com a sua carreira. Foi uma bomba, a crítica caiu matando e o próprio Newman considerava o seu pior trabalho. Quando muitos anos depois a TV americana pôs no ar esse filme, ele pôs um anúncio nos jornais, pedindo desculpas aos fãs pelo filme… Mas ele conseguiu se recuperar bem de um começo tão frustrante.

O que mais impressiona em Paul Newman é a coragem na escolha dos papéis. Ele fez mocinho, vilão, sujeito bem-sucedido, cara fracassado. Ele aceitava os trabalhos pelo potencial de dramaticidade. Ele fez o bandido Butch Cassidy, junto de Robert Redford, que fazia Sundance Kid. As palavras que classificam o filme é charme e leveza. Eram papéis de assaltantes de bancos, meio bandido, meio mocinho, desempenhado com magnetismo e muito charme. O filme é atual até hoje. Tem cenas que marcaram o cinema: por exemplo, a cena da bicicleta, em que Butch dá uma carona para a lindíssima Katherine Ross, a namorada de Sundance, ao som de “Raindrops Keep Falling On my Head”, de B.J. Thomas. (Sempre quis fazer aquilo na minha vida, mas nunca todos elementos estavam juntos ao mesmo tempo em cena. Quando tinha namorada, não tinha junto bicicleta; quando tinha bicicleta, não havia a namorada. Quando tinha ambos no pedaço, cade a música?…). O final do filme é docemente trágico.

O outro filme que está em meus favoritos é “O Veredito”. É um filme de tribunal. Se em Butch Cassidy” o clima é leve e alegre, aqui, o clima é barra pesada. Conta a estória de um advogado de porta de funeral, Frank Galvin, que foi bom numa época, mas que é um alcoólatra fracassado agora, que tem uma chance de dar a virada no destino. Pegou um caso de erro médico, que parecia fácil de se fazer um bom acordo com um dos melhores hospitais de Boston. Ele decide fazer a verdadeira justiça para a sua cliente e vai para o tribunal. O momento parece especial na sua vida: ele consegue esse caso que lhe dá uma chance real de vitória; ao mesmo tempo encontra uma mulher com quem se relaciona e se apaixona.

O hospital contrata o melhor escritório de advocacia que o dinheiro pode comprar. Começa a batalha. É David contra Golias. Frank Galvin e seu antigo professor da faculdade contra o melhor advogado da cidade e seus vinte auxiliares, todos formados nas melhores Law Shools dos EUA. Golias joga sujo. Testemunhas-chave somem, até o juiz parece que está na folha de pagamento do escritório, sendo parcial o tempo todo.

Existe um ar de suspense ao longo do filme. O escritório de advocacia tem acesso a informações que Galvin e seu amigo professor discutem. Como eles sabem dessas informações? A chave do mistério é a mulher com quem Galvin se relaciona: ela é advogada paga pelo escritório rival. Desnecessário dizer, ela se apaixona verdadeiramente por Galvin e desempenha um papel duplo: ela dá força a ele nos momentos difíceis, mas trai a sua confiança, repassando as informações para o inimigo. Ele acaba descobrindo isso. Bem, no final, ele vence a causa. Mas, num filme desses, não há lugar para “happy ends”. O final é amargo, mas antológico. Trata do relacionamento humano, em que respeito e confiança mútuos são fundamentais para a sua sustentação. A mensagem do filme aqui é clara: dá para perdoar muitas coisas que uma mulher faz com um homem, mas algumas outras são absolutamente imperdoáveis. Frank Galvin é implacável com ela no final.

Dois vídeos estão abaixo: a famosa cena da carona da bicicleta de “Butch Cassidy” e o trailer do filme “O Veredito”.

Tudo é relativo

fevereiro 14, 2011

A riqueza é relativa. Um delicioso conto de Mark Twain conta a estória de um sujeito que era muito rico na cidade onde morava até falir espetacularmente. A fortuna de centenas de milhões de dólares dissipou-se. Ficou pobre. Viajou para o Alasca e descobriu uma comunidade de esquimós isolada da civilização, cujas trocas eram baseadas no escambo. Lá a medida de riqueza não era dinheiro, mas sim a quantidade de anzóis que uma pessoa possuía. Mas por que anzóis? Com anzóis, o sujeito conseguia pescar mais, ou alugava anzóis para quem não tinha, e recebia o aluguel em peixes. Com peixes, comia mais e atraía mulheres que queriam ficar com ele porque comiam mais também. Tratava-se de uma comunidade muito simples. Mas o cara que tinha mais anzóis gozava do mesmo status social do sujeito mais rico de uma cidade grande. Era simplesmente o cara! O personagem falido de Twain logo percebeu a saída para recuperar o seu status social. Voltou à sua cidade e, com os poucos caraminguás que ainda lhe restavam no bolso, comprou doze anzóis e voltou para a comunidade de esquimós onde se estabeleceu. Como o esquimó mais rico anteriormente detinha onze anzóis, o personagem se transformou no homem mais rico do pedaço. E conquistou muitas mulheres…

Mas não só a riqueza é relativa. A inteligência também é relativa. A história – verídica – é de um conhecido meu. Ele estudava numa escola particular em São Paulo. Era um dos piores estudantes da classe. Terminou o ensino fundamental e mudou-se para uma high school americana numa cidade média dos EUA. Começou a cursar o equivalente ao primeiro ano do nosso ensino médio. E começou a perceber que a escola dele no Brasil era muito puxada: a maioria das coisas ensinadas pelos professores americanos, ele já tinha aprendido. Especialmente, matemática. A professora de matemática da High School ensinava equações de 2o grau, o que ele já tinha aprendido na sétima série. Perguntava coisas do tipo: quais são as raízes de x – 9 = 0? O valente brasuca disparava imediatamente, respondendo: 3 e -3, para espanto geral da classe! Virou gênio na High School. Os alunos disputavam quem seria amigo dele para poder estudar com aquela sumidade. Evidentemente, ele escolhia estudar com as garotas mais bonitas… E assim foi durante todo o ano. Transformou-se num dos cara mais populares da escola. Um verdadeiro crânio! Depois de um ano, chegou a hora de voltar para o Brasil. Voltou para sua antiga escola, aquela que era puxada e que lhe serviu para ganhar tanta popularidade e respeito nos EUA. Começou o 2o ano do ensino médio. Não conseguia acompanhar a matéria. Não tinha a base do primeiro ano da escola. Ia mal nas provas. Tirava as piores notas. Matemática era seu calcanhar-de-aquiles. Repetiu de ano. Era ridicularizado pelos alunos. No prazo de um ano, o meu conhecido passou de gênio a burrão…

Contei essa história sobre esse cara porque, em educação, existe uma chamada hipótese do laguinho de rãs (frog pond hypothesis). Essa hipótese diz que caso um aluno de inteligência média está numa classe de alunos muito inteligentes, ele se dá mal nas matérias e muitas desiste da escola por se considerar burro. Se ele está numa sala de alunos mais atrasados, ele se destaca e se estimula, podendo chegar a posições destacadas no futuro. Tudo depende do contexto (em que laguinho você se encontra). Tal hipótese se encaixa muito bem para explicar as agruras do meu conhecido, uma verdadeira rãzinha que mudou de laguinho de um ano para outro.

Experimentos naturais

fevereiro 12, 2011

Fazer experimentos em economia não é frequente. Os economistas comportamentais fazem, mas dentro de certos limites. Como fazer experimentos é raro, em economia se tem o problema de se determinar a direção da causalidade, ou seja, o que causa o quê? É a expansão da moeda na economia que causa inflação ou é a existência de inflação que causa a expansão da moeda endogenamente. Essa era uma discussão acalorada nos anos oitenta e começo dos noventa no Brasil a respeito da natureza do processo inflacionário antes do Plano Real. Para tirar essas dúvidas teóricas é que os economistas abençoam o surgimento dos chamados experimentos naturais. Um experimento desse tipo foi a revolução dos preços na Europa no século XVI com a chegada de toneladas de prata da América Espanhola para a Espanha e de lá para a Europa via o comércio. Desse experimento surgiu a idéia econômica de que o que poderia estar por trás da inflação fosse uma expansão exagerada de moeda.

Outro experimento natural ajudou a tirar a teima entre qual sistema econômico era melhor em termos de eficência: capitalismo ou socialismo. Com o fim da 2a Guerra Mundial e a divisão da Alemanha em duas, isso serviu de experimento natural: um mesmo povo, com a mesma cultura, os mesmos hábitos e história, separados. Que tal comparar o desempenho econômico da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental depois de quatro décadas? Quem estaria melhor no que importa que é prover melhores condições de vida para o seu povo? Isso pode ser comparada depois da queda do Muro de Berlim em 1989. Como todos sabem, a Alemanha Ocidental teve um desempenho econômico muito melhor que a outra Alemanha. E olha que a Alemanha Oriental era considerada o país socialista mais desenvolvido. Depois da queda do Muro, percebeu-se que a Alemanha Oriental era uma espécie de melhor aluna de uma classe de repetentes…