Archive for março \29\UTC 2011

O Negócio da Bola

março 29, 2011


A venda dos direitos de transmissão pela TV do campeonato brasileiro no triênio 2012-2014 virou uma novela. Já faz um tempo que a Globo é a detentora desses direitos atualmente. O Clube dos Treze tinha a autorização dos clubes do campeonato para comercializar. A Globo fazia uma oferta pelos direitos de TV aberta, TV paga e pay-per-view. Nunca foi muita clara a regra de negociação. Desde 2003, a Record começou a mostrar interesse em comprar esses direitos de transmissão. O Clube dos Treze costumava a dar um desconto de 10% sobre a oferta da Record para a Globo, alegando que esta emissora já era cliente. A Globo pagou em torno de 500 milhões por ano pelos direitos de transmissão do triênio 2009-2011.

Existe um conjunto de coisas difíceis de serem explicadas aí. Em primeiro lugar, é anticompetitivo dar esse desconto. Em segundo lugar, por que a Record não recorreu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em terceiro lugar, por que o próprio Cade não interveio numa questão com tanta visibilidade pública.

Na negociação deste ano, referente ao triênio 2012-2014, o Cade finalmente se mexeu e acertou com o clube dos 13 um mecanismo mais competitivo, um leilão dos direitos para os que se interessarem, ao estilo “the winner takes all” .

A ideia é estimular a disputa pelo mercado. Sem dúvida, é uma fonte de competição – a competição pelo mercado. E funciona bem em mercado de monopólio natural, em que considerações tecnológicas fazem com que apenas uma empresa seja eficiente em termos de custo de produção. Mas esse tipo de competição não faz sentido no mercado de transmissão de direitos de TV, uma vez que não tem características de monopólio natural.

O leilão foi feito e a RedeTV apresentou a proposta vencedora: 516 milhões reais por ano pelos direitos. A Record acabou não apresentando proposta. A Globo já tinha anunciado que não concordava com esse tipo de leilão e partiu para a negociação direta com os clubes.

Isso talvez seja a coisa mais estranha dessa história. Não faz sentido clube negociar sozinho os direitos de transmissão de seus jogos se não combinar com os outros clubes. A negociação precisa ser conjunta. Isso porque há emergência de uma espécie de externalidades de rede nessa brincadeira.

Para entender externalidade de rede, pegue a descoberta do telefone por Graham Bell. Alguém poderia dizer que o telefone foi inventado quando Bell fez o primeiro aparelho de telefone. Alguém um pouco mais arguto vai dizer que o telefone só foi realmente inventado quando Bell construiu o segundo aparelho e deu para outra pessoa a fim de que eles pudessem bater um papinho… Só aí que podemos dizer que a telefonia começou a existir de fato. Existem certos bens ou serviços que aumentam a sua utilidade – e seu valor – se outras pessoas também têm e usam esses bens e serviços.

Talvez seja essa a explicação porque a Microsoft seja dominante do segmento de sistemas operacionais, mesmo tendo um produto inferior ao da Apple. Existe muita gente usando os computadores PC com o seu sistema operacional. Fica mais fácil tirar uma dúvida com o colega do lado, que provavelmente também usa o mesmo sistema operacional. A vantagem de usar esse sistema é que muita gente usa, gerando externalidade positiva de rede.

Voltando para a bola fria, o que adianta o Corinthians ou Flamengo negociarem os direitos com a Globo por uma grande soma de dinheiro se os outros 19 clubes não assinarem. A Globo não poderá transmitir nenhuma partida do campeonato. A utilidade do acordo com o Corinthians depende que os outros também entrem em acordo com a mesma emissora. Por causa disso, os direitos de transmissão são comumente comercializados por uma entidade que garante que todos os clubes do campeonato aceitarão ter os seus direitos negociados conjuntamente.

Aí fica a minha humilde proposta para a negociação dos direitos de transmissão. Por que não fazer como os direitos da NFL, a liga de futebol americano: vender para mais de uma emissora? Nos EUA, aos Domingos, no período da tarde, existem dois canais (Fox e CBS) que transmitem cada um dois jogos. Depois à noite, tem o Sunday Night Football, um jogo exclusivo só passado na ABC. E na segunda-feira, tem o Monday Night Footbal, transmitido exclusivamente pela ESPN.

São quatro redes de televisão, comprando os direitos em vez de apenas uma. Poderia ter algo parecido nesses tristes trópicos. A Globo pagaria pelos horários que lhe interessam, a Record pagaria pelos delas, a RedeTV e a Band fariam o mesmo.

Evidentemente que isso não interessa à Rede Globo. Vai ter emissora que comprará o horário das 21h para passar jogo, competindo com a novela. Também reduziria o apelo do Pay-per-view, pois vai aumentar muito a oferta de jogos pela TV aberta.

Mas o interesse do público não deve se curvar ao interesse da Rede Globo. Esse sistema é mais competitivo e traz melhores resultados. É a mão invisível em ação. Ou deveria dizer que, neste contexto, é o “pé invisível” fazendo um golaço.

Trilha Sonora do Post

“Pumped Up Kicks” do Foster The People:

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Inside Job

março 28, 2011


Recentemente assisti ao documentário ganhador do Oscar deste ano (2011), Trabalho Interno (inside Job), no cinema (daqui a pouco deve estar disponível em DVD), dirigido por Charles Fergunson. É algo absolutamente impressionante para todo mundo. Talvez mais para os economistas. O filme trata de uma questão espinhosa para a profissão: o conflito de interesses em economia. Costuma-se ensinar que o economista precisa entender que uma coisa é a ciência positiva e a outra é a prática normativa da economia. A primeira diz respeito de fatos comprovados cientificamente, enquanto que a segunda refere-se ao que o economista acha que deveria ser o mundo. Isso foi exposto num artigo metodológico brilhante de Milton Friedman, ainda nos anos cinquenta. Mas tem muito economista por aí que mistura tudo, especilamente aqueles que têm posição acadêmica em universidades que deveriam prezar pela ciência, mas são atraídos terrivelmente pelo vil metal para entregar um pacote com embalagem científica para interesses de classes ou de determinada empresa.

É um assunto que todo mundo sabe que existe, ,mas poucos reconhecem, e muito menos pessoas querem resolver. Professores de economia, que deveriam procurar fazer ciência pela ciência, pois são pagos para isso, se prostituem para atender a interesses do mercado financeiro, falando o que este mercado ouvir e projetar por quantias consideráveis de dinheiro. Nessa categoria, incluem-se economistas renomados como Larry Summers, que foi secretário do Tesouro de Clinton e presidente da Universidade de Harvard (e que disse que as mulheres eram inferiores em matemática em comparação aos homens; teve que pedir posteriormente desculpas por isso), e Glenn Hubbard, chefe da assessoria econômica de George W. Bush. Esses economistas e muitos mais outros defenderam a desregulamentação radical dos mercados financeiros e a capacidade da autoregulamentação resolver as falhas de mercado, que segundo a maioria dos analistas da crise de 2008, foi a causa de todo o imbróglio financeiro. Esses caras eram cooptados pelos agentes financeiros – bancos, corretoras, instituições financeiras, etc – para dar pareceres dizendo que tudo corria bem e que a desregulamentação era a melhor política possível. Deu no que deu. Até Obama entra em evidência no documentário. Durante a campanha eleitoral, surfando na onda da mudança, Obama criticou a desregulamentação do mercado financeiro que deu origem à crise. Mas na hora da montagem de sua equipe econômica ele nomeou vários economistas com claros conflitos de interesse, com ligações vantajosas com o mercado financeiro.

Alguns momentos são hilários. Quando Fergunson pergunta para o chefe de departamento de Economia de Harvard se considerava que o fato de que os economistas de seu Departamento estarem fazendo estudos para bancos não representava um conflito de interesses. Nunca vi um homem gaguejar tanto, perder completamente o prumo, ficar tão vulnerável a uma pergunta. Deu uma profunda pena do cara. Glenn Hubbard foi alvo de hot seat, mas o cara tem culhões. Foi ao ataque contra Fergunson. Esse também é um ponto alto no documentário. Em resumo, trata-se de um dos melhores documentários feitos sobre economia e negócios. Não dá para não assistir. Para quem quiser saber mais sobre essa área cinzenta entre ciência econômica e ética profissional, segue o link para o site do filme aqui. abaixo há o trailer sobre o documentário.

Vivendo no Pré-Sal

março 27, 2011

O governo brasileiro ainda acha que a descoberta de grandes reservas de petróleo na camada pré-sal é o passaporte para o futuro do país. Antes mesmo de se retirar o primeiro barril de petróleo, já se começou uma disputa acirrada entre os Estados produtores, os não-produtores e a União para saber como os royalties gerados pela produção de petróleo serão distribuídos.

Mas será que é para se ter tanto otimismo assim? Quem deveria estar soltando rojão (e estão) seriam a Arábia Saudita e a Venezuela. Em primeiro lugar, é preciso evitar a maldição do petróleo, como já conversada em outro post do Blogonomia.

Em segundo lugar, para que tanto motivo de felicidade? Não será o Brasil o maior beneficiado da exploração de petróleo em águas profundas, forçada pela escassez deste produto no mundo. Para saber quem ficará com o maior benefício é preciso conhecer um modelo desenvolvido há aproximadamente duzentos anos atrás por um dos grandes economistas de nossa profissão, o inglês David Ricardo.

Analisando a renda proveniente das terras agrícolas, Ricardo percebeu que as terras apresentavam diferenciais de produtividade. Sabedores disso, os agricultores cultivavam as terras mais férteis primeiro, com custos de produção mais baixos. À medida que a população aumentava e demandava mais alimentos, outras terras menos produtivas eram postas em cultivo, com custos de produção superiores aos das primeiras terras cultivadas. Com o passar do tempo, mais alimentos eram necessários para sustentar uma população crescente, mais terras eram cultivadas, com uma produtividade cada vez menor e um custo de produção crescente. Até que as piores terras eram cultivadas com o maior custo de produção.

Mas a aguçada percepção de Ricardo não parou aí. Ele concluiu que os maiores beneficiados dessa expansão agrícola em direção de terras de pior qualidade favorecia os agricultores que produziam nas melhores terras. Dado que o mercado de alimentos seja suficientemente competitivo, os alimentos são negociados a um mesmo preço, independente se foram produzidos na melhor terra ou na pior. E o preço do mercado é determinado pelos mais altos custos de produção a fim de motivar os agricultores das piores terras a ofertarem sua produção. Como os agricultores que produzem nas melhores terras conseguem alta produtividade e baixo custo de produção, seus lucros são maiores.

Deu para perceber que a lógica do modelo diferencial da terra é a mesma para analisar o petróleo? No começo explorava-se petróleo em terras do continente, onde a profundidade necessária para se encontrar o ouro negro era menor, precisando de um furo “mais raso”, a um custo de produção bem mais baixo.

Com a demanda crescente por petróleo e com o passar do tempo, foi necessária exploração em águas profundas, a centenas de quilômetros de distância do continente e tendo que fazer furos com mais de sete quilômetros para achar o precioso líquido. Como é commodity, e a lei do preço único vigora nesse caso, o preço do barril do petróleo é dado pelas piores condições de produção (no caso, as do Brasil).

Quem é que ganha na verdade? Todos os produtores de petróleo que conseguem petróleo em terra firme, com “pequenos furos”, especialmente Arábia Saudita e Venezuela, que têm as maiores reservas do mundo nessas condições mais favoráveis de produção.

Palmas para esse grande economista, um especulador inveterado da bolsa de valores de Londres, que ficou milionário negociando ações. Já podre de rico, leu por acaso o livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, e se apaixonou pela Economia. “Quero ser economista!”, exclamou Ricardo ao cabo do livro. E passou a fazer a mais fina teoria econômica e participando intensamente do debate econômico. Sua polêmica com Thomas Malthus a respeito das Leis dos Cereais, vigentes na Inglaterra do início do século XIX, é antológica, e mostrou toda a força de sua arrasadora argumentação.

Em tempo: o avô de Ricardo era português e teve que sair da terrinha por causa da perseguição aos judeus. “Ah!”, deve estar você, meu caro e astuto leitor, exclamando agora: “Bem que eu desconfiei desse familiar Ricardo no nome do sujeito!”

Trilha Sonora do Post

Já que estamos falando de “oil”, fique com a música “beds are burning” da banda “Midnight Oil”.

Super-hiper-mega-ultra burger

março 26, 2011

A rede de lanchonetes Burger King lançou um super hamburger ao preço de 85 libras alguns anos atrás em Londres.

É isso mesmo! Você leu certo: 85 libras esterlinas (aproximadamente 280 reais)! Com esse preço é claro que não pode ser hamburgerzinho qualquer: tem tudo de bom! Bife do tipo Kobe (não me perguntem o que é isso; nunca comi), queijo do tipo fois gras (já comi; gostaria de comer mais frequentemente…) e todo o ingrediente metido a besta.

Mas mesmo com tudo isso, alguém aí acha que vai ter gente disposta a comprar esse hamburger a 85 libras? Então, a questão inevitável: por que diabos o Burger King vai lançar um sanduíche pouquíssimo demandado?

Um resultado prático da economia experimental é que ter pratos ou opções caras no cardápio aumentam as receitas do restaurante ou lanchonete, mesmo que esses pratos não sejam adquiridos!

Como é isso?!

Quando se tem um hamburguer de 85 libras, duas coisas acontecem. Primeiro, o consumidor começa a pensar que uma lanchonete que vende um hamburger de 85 libras tem “mais qualidade”que lanchonetes vulgares que vendem sanduíches a 5 reais.

Segundo, para esse mesmo consumidor, com a opção de um sanduíche de 85 libras, aquele sanduíche de 25 reais, agora não parece muito caro, como parecia antes quando não havia essa opção supercara. Ou seja, quando se têm um sanduíche caríssimo, vendem-se muito o segundo mais caro (o sanduíche de 25 reais), o terceiro, o quarto, elevando a receita total.

Isso é o que é chamado na economia comportamental de preço-chamariz. Como o nome dele já diz, é o preço que chama o consumidor não para o produto onde ele está etiquetado, mas para outros produtos também caros, mas não caríssimos.

Entenderam o truque, meus caríssimos! Como um amigo meu diria, é puro “martiquim”!

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Nada melhor do que saborear um supersanduíche, ouvindo Supertramp:

Maldição do Petróleo

março 25, 2011

maldicao-do-oleo

Com o barril do petróleo a mais de 100 dólares, e caminhando para os 150 dólares, qual país não gostaria de ser rico em petróleo. Mas será que uma boa mesmo? Isso é importante para nós, brasileiros, depois da descoberta dos megacampos de petróleo na camada pré-sal, que podem tornar o Brasil num país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Os países ricos em petróleo costumam ser mais corruptos, mais desiguais, instáveis politica e economicamente e mais autoritários. É a maldição do petróleo.

Vocês querem exemplos disso? Ei-los! Onde foram parar os mais de 400 bilhões de dólares que entraram para os cofres do governo nigeriano desde 1960? Como explicar que milhares de nigerianos morreram no conflito de Biafra no fim dos anos sessenta com a tentativa da tribo Ibgo, que habita o Leste da Nigéria, de tentar controlar as reservas petrolíferas. A nossa vizinha Venezuela que enfrenta uma ditadura disfarçada comandada por Hugo Chavez, que usa o dinheiro do petróleo para, entre outras sandices, apoiar o grupo terrorista da FARC colombiana. Por que países ricos em petróleo crescem menos que outros países que não têm petroléo? É a maldição do petróleo.

Por que existe essa maldição com recurso natural tão desejado por todo mundo? Há algumas explicações econômicas. Em primeiro lugar, governos de países com petróleo veem sua arrecadação fiscal crescer tremendamente, fazendo com que deixe de ser interessante desenvolver outros setores econômicos. E dinheiro que vem fácil, vai fácil. Os governantes procuram se perpetuar no poder para conseguir continuar desfrutando do desvio desse dinheiro por meio da corrupção. Com a corrupção, destrói-se as instituições de um país e lá vai o capital social, um fator de produção importante para explicar ganhos de produtividade.

Em segundo lugar, a dependência de um produto só. Como o petróleo representa a maior parte da economia de certos países, sobretudo os pequenos e os pobres. Mas aí se o preço do barril sobe, é o paraíso; se o preço cai, é o apocalipse econômico para esses países.

Em terceiro lugar, com a exploração do petróleo, um repentino fluxo de divisas fortes (dólares, euros etc) entram no país, levando a uma forte valorização da moeda local. Isso retira competitividade de suas exportações agrícolas e industriais, prejudicando também a diversificação da estrutura produtiva, uma vez que os setores não ligados ao petróleo são prejudicados. Apesar dessa maldição se manifestar com os produtores de petróleo, pode se manifestar com países dependentes da exploração de outro recurso mineral (ouro, diamantes, cobre etc) pelos mesmos motivos.

Existe jeito de escapar da maldição? Alguns países até que tentam. Uma das idéias é formar um fundo de petróleo: quando o preço do barril sobe acima de um patamar estipulado pelo país, o governo constitui um fundo de reservas; quando o preço cai no mercado, o governo usa esse dinheiro para compensar as conseqüências.

Uma outra ideia é formar “fundos para o futuro”, ou seja, não gastar todo o dinheiro que chega do petróleo na geração atual, mas reservar recursos financeiros para as futuras gerações. Bem, os países que adotam essas ideias são Canadá e Noruega, por exemplo… Ou seja, países ricos que são ricos porque, além de petróleo, tem capital humano, capacidade tecnológica, capital social etc, suficientes para terem essas boas ideias. A principal fonte da pobreza é a mentalidade pobre…pobre de ideias. Nem pensar um país africano adotar essas ideias. O ditador de plantão não deixa.

Trilha Sonora do Post

“Under Pressure” do Queen com David Bowie:

Perigo Moral! Perigo Moral!

março 24, 2011


Tenho um amigo que está louco para se livrar de seu carro. Ele já tentou se livrar legalmente do carro, indo a uma concessionária e colocando o carro como parte do negócio de um carro novo. O carro dele vale 25 mil pela tabela Fipe. O avaliador da concessionária botou 17 mil. Ele tentou outras lojas que vendem carros usados. O preço não melhorou. Pior, abaixou ainda mais: 16 mil foi o máximo que conseguiu.

Meu amigo se revoltou. “Como fazem isso comigo?! Assim não dá!” Aí ele radicalizou total. Começou a torcer para roubarem o carro dele. O seguro dele paga tabela Fipe. Eles fez as contas. Os seus olhinhos brilharam com o presumido lucro.

Passou a não usar mais estacionamento pago. Punha na rua mesmo. Quando flanelinha pedia uma caixinha para olhar o carro ele respondia: “E quanto tu quer para roubar?”

Depois, começou a escolher as ruas com maior incidência de roubo de carro. Nada de roubarem o carro. Cada vez que ele se aproximava do local em que ele tinha deixado o carro, o coração do pobre coitado começa a palpitar. “Será que roubaram?” “Será que vou receber o valor da tabela Fipe?” Nada. Tava lá o carrinho intacto. O meu amigo praguejava: “onde estão os ladrões quando se precisa deles, pô?!”

Insistente, passou a colocar uma placa com os sugestivos dizeres “Rouba-se”, afixada no vidro traseiro. E começou a deixar o carro em ruas cada vez mais perigosas, aberto, com a chave na ignição e um prato com brigadeiros no banco do motorista para ver se estimulava algum gatuno a subtrair o auto. Nada.

Na última vez que conversei com ele, desanimado, meu amigo já estava defendendo pena de morte para bandido! Para bandido que não rouba o carro dele!

Disse a ele que o que estava acontecendo era um caso típico de perigo moral (moral hazard, em inglês, que é traduzido para o português também como risco moral ou dano moral). Ao que ele redarguiu, berrando: “perigo moral uma ova! Tô querendo é levar vantagem na situação, pô!” Pois é, mas trata-se de perigo moral mesmo.

Em economia, perigo moral emerge na relação agente-principal. No contrato de seguro, o agente é o segurado e o principal é a seguradora. Quando a ação do agente não pode ser perfeitamente monitorada, abre-se a possibilidade de haver um comportamento perigoso moralmente. Isso significa que o agente muda o seu comportamento em relação a seu empenho em cuidar do carro porque tem o seguro. Se não tivesse, ele tomaria muito mais cuidado com o carro. O contrato de seguro pressupõe que o segurado não relaxará o seu cuidado com o objeto alvo de seguro.

Tal situação enquadra-se na falha de mercado chamada de “assimetria de informações”. O mercado tenta resolver essa falha colocando incentivos ao indivíduo a fim de que ele não mude o seu comportamento. Por exemplo, a Seguradora pode dar desconto no prêmio se o carro tiver alarme, manutenção de bônus caso não haja sinistro, etc.

No caso, o segurado, meu amigo, tem mais informações sobre o seu efetivo comportamento de risco do que o outro lado do mercado, onde se situa a seguradora. Enquanto isso, desesperado, meu amigo cogita em contratar um bandido para roubar o carro. Ele diz que quando vir o carro roubado, depois de fazer o BO na delegacia, ele estoura um garrafa de champanhe francês durante o trajeto do táxi para casa em comemoração.

Trilha Sonora do Post

“Danger” do AC/DC:

Telemartiquim

março 23, 2011


Os caras perseguem a gente. Todo dia é dia. Até Sábado. Daqui a pouco será Domingo também. Você está tranquilo em sua casa. O telefone toca. No outro lado da linha, está o cara, com o seu gerundismo, vendendo aquilo que não pedimos nem precisamos. Trata-se do maldito telemarketing. Se o consumidor fosse realmente soberano, mandava matar…

Simplesmente tenho a predisposição de dizer não para o sujeito. Mas o cara é insistente. Não aceita um não facilmente. Tenho que repetir que não estou interessado várias vezes. Uma forma de cortar a conversa rápido é dizer que está de saída. Outra forma é dizer que a pessoa com quem ele quer falar – você – está de viagem. “Quem é você, então?”, pergunta o abelhudo. “O amigo do Mário”, respondo, ansioso para que o sujeito pergunte quem é Mário…

Vale tudo para se safar dessa laia. Agora, a forma mais criativa de enganar esses caras foi feito por um sujeito lá fora. O vídeo abaixo mostra a gravação da pegadinha sofrida pelo operador de telemarketing. O diálogo é impagável. O operador de telemarketing liga e pergunta por um tal de Tom Mabe. O sujeito que atende (o Tom) finge que é um detetive que está na cena de crime, investigando a morte de…Tom Mabe. Aí começa um interrogatório por telefone. “Você conhece Tom Mabe ou é amigo dele?” Segue uma série de perguntas ao pobre do operador de telemarketing. Absolutamente hilário!

Pensando bem, isso é melhor que dizer que eu estou de viagem ou que sou amigo do Mário ou do Romeu. Vou tentar essa na próxima ligação que receber num Sábado desses. Vejam (melhor dizendo: ouçam) o vídeo da pegadinha de Tom Mabe aqui.

Trilha Sonora do Post

“Have You Ever Seen the Rain” de Rod Stewart:

Focando o ponto

março 22, 2011

ponto focal

Quando ensino oligopólio para os alunos, introduzo-os à teoria dos jogos. O dilema do prisioneiro é o jogo mais conhecido e o que exerce maior fascínio entre os alunos. Ele é uma verdadeira cartola de mágico, permitindo tirar vários coelhos (cooperação, equilíbrio sub-ótimo, tradeoff, confiança mútua etc).

O fascínio talvez seja pela situação dos prisioneiros. Num curto intervalo de tempo, o aluno precisa raciocinar sobre o que fazer naquela estranha situação na qual os prisioneiros estão envolvidos, sem poder se comunicar entre si. Se, na sua versão estática, a solução do jogo do tipo dilema do prisioneiro não prevê cooperação por conta da impossibilidade da comunicação explícita, já em outros jogos, existe uma situação estratégica que envolve pura cooperação baseada na comunicação implícita.

Trata-se do ponto focal. Foi formulado por Thomas Schelling, Prêmio Nobel de Economia, do seguinte modo: numa batalha da 2a Guerra Mundial, dois paraquedistas precisam  saltar atrás das linhas inimigas e juntos cumprirem uma missão. Eles saltam do avião, mas no meio da descida, ambos percebem que esqueceram de marcar um local para se encontrarem no chão, mesmo sendo muito provável que cada um caísse longe do outro. Sem possibilidade de se comunicarem explicitamente, eles caem num pequeno povoado, onde existem cinquenta casas, duas praças e uma igreja. Onde cada um deles vai decidir se encontrar neste povoado? Acertou quem disse a igreja. A igreja é, nesse caso, o ponto focal do povoado. Isso é conseguido por meio da identificação do ponto focal, que é uma espécie de comunicação implícita entre os paraquedistas.

Nesse ponto da exposição, gosto de dar um exemplo do caso de dois namorados, saindo de origens diferentes, que decidem se encontrar em Paris, mas não combinam em que lugar. Estão sem celular, sem smartphone à disposição das pontas dos seus dedos etc. Nessa situação em que não há possibilidade de comunicação explícita, onde eles decidiriam se encontrar? Quem disse Torre Eiffel, que tem mais de 120 anos, acertou. Paris tem claramente um ponto focal.

Já para outras cidades, não há ponto focal tão claro. Pense em São Paulo. Onde o casal de namorados iria se encontrar? Na Paulista? Na Praça da Sé? No cruzamento da Ipiranga com a São João? Na Estação da Luz? Bem, pode ser na Estação da Luz, à meia noite, se eles pretendem ter fortes e desagradáveis emoções…

São Paulo não tem ponto focal. Tem, sim, pontos de congestionamento. Vários. Mesmo que tivesse ponto focal, o difícil seria chegar até lá!  Estariam até agora no trânsito! O comediante Danilo Gentile conta uma boa história sobre as autoescolas em São Paulo. Segundo ele, simplificou muito a aula de autoescola atualmente na cidade. O instrutor pede ao aluno para ajustar os espelhos retrovisores, pôr o cinto de segurança, dar a partida no carro, ligar o rádio e pronto! Já sabe tudo o que precisa para enfrentar o engarrafamento em São Paulo! Ninguém mais em São Paulo se preocupa em ter registrados na sua carteira pontos por excesso de velocidade. Isso é uma absoluta impossibilidade naquela cidade!

E no Rio? Tem ponto focal? Será que o Cristo Redentor é o ponto focal lá? Desconfio que o casal não se encontrará no ponto focal, mesmo sendo o Cristo. Algum deles será ferido por alguma bala perdida! Ou ambos… É melhor para eles correrem para o ponto de táxi mais próximo e voltar para a sua cidade de origem e pronto. E ponto final!

Trilha Sonora do Post

Com vocês, um diferente ponto de vista, na voz do Pet Shop Boys:

Burro de Buridan e a escolha do consumidor

março 21, 2011

burro de buridan

Há muito tempo ouvi uma estorinha impressionante sobre a questão do livre arbítrio, inventada por um filósofo e religioso chamado Jean Buridan.

Um burro estava igualmente faminto e sedento. Puseram o bicho na frente de um balde de água e de um saco de aveia. O animal olhava para o balde de água cristalina e fresca  e depois olhava para o saco de aveia tenra e não decidia se matava primeiro a sede ou a fome. O tempo passava e o asno não era capaz de decidir.

Começou a suar enquanto virava freneticamente a cabeça em direção ao balde e ao saco, seus olhos reviravam, o batimento cardíaco acelerava-se, sem se decidir. O tempo passava e o bicho começou a escoicear o ar, motivado pela indecisão. Passadas várias horas de terem posto o balde de água e o saco de aveia, o burro faleceu. Igualmente de fome e de sede…

Por que isso aconteceu?

Bem, alguém poderia dizer que tal burro é burro mesmo e fim de papo.

Buridan explicou a situação de modo diferente, digamos filosófico, dizendo que o burro não foi dotado pela natureza do dom de escolher entre opções. O asno estaria aí, todo garboso, se tivessem colocado apenas o balde de água ou apenas o saco de aveia na frente dele. Mas não poderiam ter posto ambos se não lhe foi dado o livre arbítrio. Não poderiam ter cometido esse pecado.

Esse estorinha tem muito significado para um filósofo. Mas tem significado para um economista também. Somos treinados a crer que os agentes econômicos racionais escolhem um cesta de bens e serviços segundo uma escala de preferências, e condicionada por uma restrição orçamentária, a fim de maximizar a sua utilidade ou a satisfação obtida da usufruição desta cesta. Como o agente econômico é dotado de livre arbítrio e conhece todo o universo de bens e serviços, racional e soberanamente, ele escolhe o melhor para si.

Os economistas comportamentais, sobretudo Dan Arielli, discutem essa teoria. Para Arielli, o agente econômico não conhece todo o universo de bens e serviços de onde ele extrairá a sua cesta de consumo. Na verdade, o consumo é mais uma espécie de experimentação em que o consumidor constrói as suas preferências.

E, segundo os economistas comportamentais, o consumidor não é tão soberano assim. Os produtores influenciam muito a decisão dos consumidores, ajudando nesta “construção” das preferências. Ou seja, podemos não ser como o burro de Buridan que tem bem palpáveis as opções, mas não possui um escala de preferências, simplesmente porque não possui livre arbítrio. Mas também não somos os Senhores Spocks nos supermercados da vida, maximizando a utilidade dadas as restrições orçamentárias.

Trilha Sonora do Post

Uma canção para lá de filosófica do Raulzito:

A força das palavras

março 21, 2011

 mudanca-de-sexo

O presidente dos EUA, Barack Obama, é considerado um homem que inspira multidões com seus discursos. Ele acabou de fazer um bom discurso aqui na sua visita ao Brasil, sendo carismático e simpático aos brasileiros, citando trecho de música brasileira e trecho de livro de escritor brasileiro, conquistando a galera. Certamente, seus discursos entrarão na galeria dos grandes discursos dos ex-presidentes que marcaram época. (É incrível como presidentes de outros países usam os discursos para dizer abobrinhas, metáforas de mau gosto e tolices as mais diversas…). Lembro-me de Obama, quando era senador do Estado de Illinois. Naquela época , eu estava morando na cidade de Urbana naquele estado, realizando meus estudos na Universidade de Illinois. Já desde aquela época tinha fama de bom tribuno.

O discurso de posse da presidência de Obama foi inspirador e impressionante em 2009. Sem olhar para papel algum ou teleprompter, ele fez um discurso digno para inflar confiança e esperança na medida certa junto ao povo de todo o mundo. Uma coisa curiosa que um analista já havia notado nos discuros de Obama é que, se me perguntarem de qual parte gostei mais do discurso, não saberia dizer. O discurso já evaporou da minha lembrança totalmente. Não consigo lembrar uma frase sequer. Mas fiquei inspirado e entusiasmado! Gostei dos termos e da entonação. Enfim, comprei o discurso.

O discurso não é apenas importante para políticos. Também é muito importante para os economistas venderem as suas idéias. A persuasão no discurso é ponto pacífico na profissão. Isso porque a economia é uma ciência que tem dificuldades de fazer experimentos controlados a fim de determinar direções de causalidade nas relações econômicas.  Diante disso, contar uma historinha para vender os seus resultados e achados científicos é fundamental.

Quem descobriu isso, foi um economista chamado Donald McCloskey num artigo em que ele usou de toda a sua persuasão. Alguém pode dizer que cometi um erro, pois quem escreveu isso não foi um economista, mas sim uma economista chamada Deirdre McCloskey. Na verdade, é a mesma pessoa.

O que aconteceu é que Donald mudou de sexo e virou Deirdre… Uma história hilária foi de um economista brasileiro que fez doutorado, orientado por Donald McCloskey. O brasileiro terminou os créditos e voltou para o Brasil a fim de desenvolver a tese por aqui. Mantinha contato com McCloskey apenas por e-mail. Depois de algum tempo, voltou aos EUA para defender a tese. Desavisadamente, foi procurar o Donald e encontrou a Deirdre na sala… Pensou que era a mãe dele. Que saia justa! Literalmente!

Vi Deirdre numa apresentação no Encontro Nacional de Economia, realizado em Recife no ano de 2007.  De rosto, dá para passar por uma mulher madura. Mas o corpo ainda guarda as formas tomadas pela quantidade de testosterona liberada por um homem ao longo da vida. Mas o cara, oops, a cara é uma economista importante e mantém um site muito bem desenvolvido na internet: http://www.deirdremccloskey.com/index.php. Vale conferir!

Trilha Sonora do Post

“Aquarela” de Toquinho: