Caindo no Real

Dia primeiro de julho deste ano comemoramos uma das mais importantes efemérides econômicas: os 20 anos do Plano Real! Vale a pena celebrar sempre o plano econômico que celebrou a racionalidade econômica no país. Como diria um ex-presidente por aí, nunca antes na história deste país (ou deste mundo) um plano de estabilização conseguiu controlar a superinflação (quase 2.500% ao ano nas vésperas do Plano) com tão pouco custo social. Depois do laboratório porque passou este país, com plano cruzado, plano Collor e outras loucuras que experimentaram em cima dos hamsters humanos (nós, o povo brasileiro).

Com o Plano Real, foi diferente: não houve congelamento nem tabelamento; não houve sequestro de ativos monetários; não houve, resumindo, macumba econômica. Todas as medidas foram anunciadas antecipadamente, sem surpresas, sem sobressaltos, sem sustos para a população.

Qual foi o elemento distintivo desse plano em relação a qualquer outro plano? O problema da inflação brasileira era a inércia: quase tudo (salários, aluguéis, aplicações financeiras, etc) era corrigido pela correção monetária, baseada na inflação passada. Ou seja, isso implicava que o principal motivo porque a inflação brasileira era alta este mês era porque havia sido alta no mês passado. Isso impunha uma forte resistência para que as taxas de inflação recuassem, mesmo diante de uma política monetária restritiva. Assim, era extremamente difícil estabilizar uma economia altamente indexada como a brasileira.

A indexação, isto é, a correção monetária instituída na lei, impedia o recuo das taxas de inflação e promovia a dispersão dos preços relativos. Isso ocorria porque se salários e aluguéis aumentavam uma vez por mês (conforme a inflação passada), os preços dos produtos podiam aumentar a qualquer momento e, pelo menos, pela inflação passada, mas poderia ser por uma taxa maior do que isso, caso houvesse choques de oferta, como uma quebra de safra agrícola ou um aumento do preço do barril do petróleo.

O truque do Plano Real foi transformar o grande problema – a indexação – na grande solução. Realmente, é difícil desindexar uma economia brasileira indexada parcialmente. Contudo, é muito menos difícil desindexar uma economia totalmente indexada. A sacada do Plano Real foi radicalizar a indexação da economia brasileira durante um período (três meses antes do anúncio do plano) com a introdução da unidade de referência de valores (URV). A URV indexava diariamente os salários, aluguéis, aplicações financeiras pela expectativa de inflação do mercado, e a sua cotação (ou seja, quanto valia a URV em termos da moeda inflacionada, o cruzeiro real) era anunciada pelo Banco Central.

Todo o dia o BC anunciava essa cotação. Com isso, as pessoas tinham as suas remunerações (salários, aluguéis, aplicações etc) corrigidas todos os dias em termos de cruzeiro real, mas estavam estabilizadas quando convertidas em URV. Um sujeito que ganhava um salário equivalente a mil URV, via esse salário nominal aumentar todos os dias na moeda com inflação (cruzeiro real), enquanto que o seu salário real continuava valendo mil URVs. A URV funcionava como uma espécie de taxa de câmbio doméstica: quantos cruzeiros reais eram precisos para se trocar uma URV. Além disso, a URV era a unidade de conta da economia, pois era melhor medir os preços em URV, que não se desvalorizava do que em cruzeiros reais. Em que pese isso, a URV não era rigorosamente uma moeda, pois não era meio de troca nem reserva de valor, uma vez que não havia cédulas de URV circulando. Por isso, a URV é chamada de quase-moeda.

Quando praticamente toda a economia estivesse indexada, quando todos os preços estivessem aumentando ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo (indexação perfeita), a URV se transformaria em moeda plena. E realmente se transformou: em 1o de julho de 1994, URV passou a se chamar real, com a seguinte cotação: uma URV equivaleria a um real (a nova moeda), transformando em moeda com todas as suas plenas funções, a saber, meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. O cruzeiro real, a moeda inflacionada, foi extinto.

Simples assim. E brilhante!

A transição do cruzeiro real para o real foi suave e sem sustos. Evidentemente, antes de se fazer essa transição foi necessário fazer um ajuste fiscal para melhorar as contas públicas a fim de se evitar que o déficit orçamentário fosse financiado com a nova moeda (reais) fazendo surgir a inflação novamente. Outro elemento que ajudou a estabilização foi a abertura econômica com a possibilidade de importar produtos para controlar o costume por parte das empresas de aumentar preços a qualquer oportunidade que aparecesse (a âncora cambial). Em resumo, é essa a breve história  do plano de estabilização mais bem sucedido! Um brinde ao Plano Real por mais um aniversário! E que sirva de inspiração para que nunca mais este país volte a ter superinflações no futuro!

 

Trilha sonora do post

Como estamos falando da importância em não esquecer, não nos esqueçamos desta que é uma das mais belas músicas do Pop Rock: “Don´t you (forget about me)” do Simple Minds!

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Uma resposta to “Caindo no Real”

  1. Leonardo Cardoso Says:

    O plano real teve o mérito de sincronizar o processo de indexação por meio da URV, cujo âmbito era (é), inerentemente, assíncrono. Era por isso que o populismo dos rudes congelamentos anteriores, muito comuns nos anos oitenta, não funcionava: os congelamentos, tão somente, estavam correlacionados com as alterações dos preços relativos. Logo, o sistema de preços perdia a importante função, a saber: promover a verdadeira sinalização das alocações. Nesse aspecto, os congelamentos não passaram um exercício estéreo de “santeria heterodoxa”; nada mais fizeram fazer do que “jogar mais gasolina da fogueira” dos reajustes inerciais, endurecendo o conflito distributivo entre os empregadores e seus empregados.
    Mais observe: resolvido o problema da sincronização do sistema de indexação (como proceder com essa sincronização foi a verdadeira contribuição engenhosa dos economistas brasileiros – um problema particular do Brasil, pensando por André Lara Resende ainda no ano 1984), a engenharia do Plano Real não passava de mais uma ancoragem cambial clássica, com todas as suas vicissitudes às avessas: uma versão “tupiniquim” do radicalismo insano do Currency-Board – os argentinos que o digam!
    Sem o necessário ajuste fiscal, a manutenção da ancoragem cambial e/ou do Currency-Board são políticas suicidas. O Brasil contou com o socorro do FMI quando se deparou com a insolvência externa, quebrou mas foi ajudado; o argentinos não (depois de 2002).
    O demérito às avessas do Plano Real foi ter nos brindado com uma dívida pública monstruosa, hoje da ordem de um trilhão, custo esse que, necessariamente, resvalará no bem-estar das próximas gerações. Sem falar na carga tributária, atualmente na casa dos 38% do PIB, necessária para girá-la junto com a prestação débil dos serviços públicos.
    Ainda sim, acredito eu, depois ter visto a banda passar, que valeu a pena!
    Sinto pesar pelos futuros governos que serão obrigados a dar conta da fome desse passivo monstruoso, por meio dos superávits primários nas administrações públicas (a verdadeira fatura cobrada sobre as futuras gerações), sem se renderem à mítica das impressoras do banco central. Porque, se porventura o fizerem, rezemos para que não o façam, nos encontraremos nós aqui novamente; debatendo a problemática dos programas de estabilização dinamicamente ineficientes!

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