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Seleção de Trouxas

junho 24, 2015

A-vantagem-de-ser-trouxa

Certamente você já deve ter recebido algum e-mail de uma pessoa pedindo ajuda para retirar de um país africano alguns milhões de dólares, presos por conta de algum enrosco burocrático ou político. Evidentemente, essa pessoa promete uma gorda comissão pela ajuda. O golpista espera o trouxa, interessado na comissão, responder ao e-mail para informá-lo que há a necessidade de um adiantamento de um dinheiro para destravar a burocracia.

Esse é um dos golpes mais antigos que existem e tem até nome: golpe nigeriano. Há registros de que tenha começado a ser aplicado desde 1920 (é claro, não por e-mail, mas por carta).

Muitas pessoas acham esses golpes muito toscos. Por que esses golpistas não elaboram melhor o enredo do golpe, tornando-o mais verossímil, para chamar a atenção de mais pessoas?

Não é interessante para o golpista. Para entender isso, é preciso conhecer a prática de seleção em mercados de informação imperfeita. Na presença de informação assimétrica, seleção ocorre quando uma ação tomada pelos agentes econômicos do lado desinformado do mercado induz os agentes do lado informado a revelarem suas informações particulares.

Um exemplo de seleção pelo mercado é o questionário que a companhia de seguro de carros pede que o segurado preencha. Lá tem informações sobre o estado marital, idade, se o cara pretende usar o carro para trabalhar ou apenas ir ao trabalho, se tem garagem ou não etc. Enfim, a seguradora (o lado desinformado) está tentando induzir o segurado (o lado informado) a lhe fornecer informações sobre várias características ocultas, que serão úteis para que a empresa descubra se o indivíduo é um motorista arriscado ou não. Depois que a seguradora descobrir essa informação, ela poderá cobrar um prêmio maior de seguro para os motoristas mais propensos a se envolver em acidentes (os motoristas “abacaxis”) e um prêmio menor para os motoristas mais cuidadosos (os motoristas “uvas”). A seleção é um forma que mercado encontrou em tentar consertar a falha que o próprio mercado criou.

No exemplo do mercado de golpes pela internet, o golpista não sabe onde encontrar os trouxas para aplicar o golpe. O golpista é a parte desinformada no sentido de que ele não conhece quem tem a característica oculta da imbecilidade. Para induzir que a pessoa revele-se como trouxa, o e-mail equivale ao questionário da seguradora. Basta uma pessoa responder ao e-mail, dizendo que está disposta a ajudar, para o golpista descobrir que está tratando com um senhor trouxa e que, por isso, vale a pena investir tempo para arrancar dinheiro dele.

Suponha que o golpista tenha elaborado um enredo crível do golpe. Sabe o que aconteceria? Muitas pessoas responderiam, e o golpista ficaria desinformado em saber quem é trouxa ou não. Se ele procurasse investir em cada um que tenha respondido, ele desperdiçaria muito tempo, o que não seria eficiente. Um golpe absurdamente com cara de golpe seleciona os trouxas. Se caiu na rede, é porque é um peixe trouxa.

Trilha Sonora do Post

Os trouxas dizem que eles não são trouxas, mas pessoas crédulas, que acreditam muito nas outras pessoas. Ah é, né? Então, para celebrar essa credulidade, “I´m a believer” com Smash Mouth: