Archive for the ‘Cine qua non’ Category

Conversa com Economista: Gustavo Franco

julho 3, 2017

Como o economista Gustavo Franco está em evidência por conta do filme “Real – O Plano Por Trás da História”, vale a pena rever a entrevista dele para o programa “Roda Viva” no final de 2015.

O Real Por Trás do Filme

junho 28, 2017

Real o filme

Está em cartaz o filme “Real – O Plano Por Trás da História”, que conta a historia do Plano Real, tendo como protagonista o economista Gustavo Franco.

Assisti e gostei. Afinal, não é sempre que se veem nas telas economistas no papel de heróis. Muito pelo contrário.

Evidentemente, existem alguns problemas com a produção.

O diretor que escalou o ator para representar o Pérsio Arida nunca deve ter visto uma foto dele. O Arida é pequeno e franzino e o ator global que o interpretou (Guilherme Weber) é superalto, atlético, cabelos aloirados, mais parecendo um surfista.

O ator que faz o Serra é superfeio, mas de uma superfeiúra totalmente diferente da superfeiúra do Serra. Mas a voz do camarada é idêntica.

O roteiro é apenas correto, com personagens sem profundidade psicológica. Mas isso é problema que quase todo filme nacional enfrenta. Bem diferente do cinema argentino.

O papel do FHC no filme não corresponde com a realidade. Fernando Henrique foi importantíssimo para vender o plano no Congresso. Sem a aprovação da MP do Real no Congresso, não haveria Plano.

O papel do Arida e de Lara Resende é colocado em segundo plano. Não se deve esquecer que o Plano Real foi uma versão melhorada do Plano Larida, proposto pelos dois uns dez anos antes num artigo científico.

O papel de Gustavo Franco foi realmente muito importante. O Plano Larida previa a circulação de duas moedas com todas as suas funções (meio de troca, reserva de valor e unidade de conta): a moeda velha inflacionada e a moeda indexada (ORTN).

O receio dos economistas era que a  moeda podre contaminasse a moeda indexada, inflacionando-a. Mais prosaicamente, como costumava dizer o economista José Roberto Mendonça de Barros, seria muito esquisito ver uma dona-de-casa comprar um pé de alface na feira com uma ORTN…

Franco resolveu esse nó górdio do Real, inspirado na história do Rentenmark durante a hiperinflação alemã dos anos vinte do século passado. A moeda indexada (rebatizada de URV em 1994) não circularia, tendo apenas a função de unidade de conta. Essa ideia aumentou as chances de o Plano Real dar certo.

Enfim, vale a pena assistir ao filme. Na sessão a que fui havia umas quinze pessoas na sala. A maioria economistas. No final, as pessoas provavelmente não economistas chegaram a aplaudir o final do filme.

Abaixo, o trailer do filme:

Conversa com Economista: Samuel Pessôa

junho 6, 2017

Vale a pena ver a entrevista do economista Samuel Pessôa ao Roda Viva recentemente.

Conversa com Economista: Eduardo Gianetti da Fonseca

maio 9, 2017

No vídeo abaixo, você tem a entrevista do economista Eduardo Gianetti da Fonseca.

Gianetti foi o paraninfo da minha turma de economia na graduação na USP. Ele foi também o meu professor de História do Pensamento Econômico.

Ele é um professor impressionante pela clareza de exposição das suas ideias. No final da disciplina de HPE, presenciei algo inédito: quando o Gianetti terminou a última aula, ele foi aplaudido pela maioria do alunos.

Nesta entrevista, dá para desfrutar do poder do pensamento de Gianetti tanto em assuntos econômicos quanto políticos.

Bomba Monetária

maio 10, 2016

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A principal causa da inflação é o crescimento da oferta de moeda na economia. Isso é sabido faz muito tempo em economia. O experimento natural da revolução dos preços no século dezesseis forneceu uma das primeiras evidências dessa teoria, denominada de teoria quantitativa da moeda.

Vale a pena recordar esse experimento fornecido pela história. A Espanha cunhou uma grande quantidade de moeda a partir de metais preciosos (prata e do ouro), explorados nas minas do Novo Mundo. Por meio do comércio internacional, essa dinheirama espalhou-se pelos outros países europeus. O que se viu depois dessa expansão monetária foi um continuado aumento do nível de preços na Europa ao longo do tempo, ou seja, inflação.

Mesmo que de forma intuitiva, os nazistas na Segunda Grande Guerra conheciam a teoria quantitativa da moeda e queriam usá-la para destruir o Reino Unido, coisa que nem a Luftwaffe conseguira com os seus aviões, jogando bombas convencionais sobre o território britânico!

A ideia era simples, mas com um quê de diabólico: fabricar em um campo de concentração, usando trabalhadores judeus escravizados, uma enorme quantidade de libras esterlinas falsas e jogar de avião sobre todo o Reino Unido. As pessoas pegariam as cédulas nas ruas das cidades e gastariam na compra de bens e serviços. Como a produção de bens e serviços não conseguiria aumentar no mesmo ritmo dessa instantânea expansão monetária, a consequência seria o surgimento de uma hiperinflação, desorganizando e destruindo completamente a economia britânica.

Note o requinte da maldade: o Reino Unido enfrentaria uma hiperinflação ao mesmo tempo que estaria envolvida num enorme esforço de guerra. Os nazistas estavam construindo uma verdadeira bomba monetária!

E a bomba monetária é muito poderosa: deixa os prédios intactos, as pessoas vivas, mas destrói todos os mercados com a perda da função de meio de troca da moeda. Numa hiperinflação, ninguém quer a moeda nacional, pois ela desvaloriza-se mais rápido do que o tempo gasto para escrever esse parágrafo.

O oficial alemão responsável em construir a bomba monetária foi o major Bernhard Kruger no campo de concentração de Mauthausen. Ele recrutou o judeu Salomon Smolianoff, um famoso falsário da época, especializado em reproduzir perfeitamente dinheiros e documentos. Smolianoff foi obrigado a coordenar diretamente a produção das libras esterlinas, chefiando uma equipe de trabalhadores judeus.

Sem deixar os alemães perceberem, Smolianoff e os trabalhadores sabotavam a operação, atrasando a falsificação do dinheiro. Felizmente para o mundo livre, os nazistas nunca tiveram em mãos a quantidade de dinheiro falso suficiente para detonar a bomba monetária.

Essa história foi contada no cinema pela produção “Os Falsários”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008, cujo trailer vem a seguir:

Em tempo: Salomon Smolianoff sobreviveu àquela barbárie. Depois da guerra, ele voltou à sua vocação profissional: começou novamente a falsificar dinheiro na Itália. Quando foi descoberto, ele fugiu para a América do Sul. Para qual país, arguto leitor? Qual país, hein? Quem adivinha?

Ganhou um sorvete chicabon, como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, quem respondeu “Brasil”. Mais especificamente para Porto Alegre, morrendo por aqui em 1977. Não se sabe ao certo se ele tentou, por estes tristes trópicos, falsificar cruzeiros, a moeda brasileira da época. Provavelmente, não. Smolianoff gostava mesmo era de falsificar moedas fortes.

Trilha Sonora do Post

“Money” de Pink Floyd:

Os Caras mais Espertinhos da Sala

novembro 4, 2011

Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo. Também é possível conseguir enganar alguém durante todo o tempo. O que não se consegue é enganar todo mundo durante todo o tempo. Mas a empresa americana Enron quase conseguiu essa proeza! A Enron produziu no começo deste século um dos maiores escândalos corporativos nos EUA, que abalou a confiança de diversos acionistas na lisura e transparência da bolsa de valores americanas. Questões, como governança corporativa, que hoje está em alta, começaram a ganhar força depois desse escândalo. A Enron foi uma das pioneiras na chamada contabilidade criativa, ou seja, por meio de operações contábeis escusas transformar prejuízo real em lucro fictício, aumentando espuriamente os preços de suas ações e aumentando os dividendos distribuídos aos acionistas.

Mas, afinal, o que consistia essa fraude? Para responder, vou me apoiar no excelente artigo publicado à época por Paul Krugman no NY Times, usando uma prosaica sorveteria como exemplo: “você assina contratos para fornecer aos clientes um sorvete por dia pelos próximos 30 anos. Você subestima deliberadamente o custo de cada sorvete; então, lança os lucros projetados das vendas futuras de sorvete como parte dos resultados do ano corrente. De uma hora para outra, sua empresa parece altamente lucrativa e você consegue vender ações da sorveteria a preços inflados“. Eles conseguiram fazer isso durante mais de dez anos seguidos sem ninguém perceber. Enganaram um monte de pessoas, que perderam todas as suas economias  e tiveram sua vidas destruídas.

Existe um filme-documentário sobre os donos da Enron, chamado “The Smartest Guys in the Room”. É uma das coisas mais impressionantes que eu já vi no cinema. Você sai da sala muito mais desconfiado com o que tentam te “vender”, desde ações até idéias políticas. Ah, você sai também mais descrente da natureza humana. Tentem pegar esse filme na locadora. Vale a pena. Aumenta muito o senso crítico com relação a tudo e a todos. O link do site do filme está aqui: www.enronmovie.com. O vídeo abaixo apresenta o trailer do filme.   Ah! Ia esquecendo: como se diz, a justiça de Deus tarda, mas não falha. Kenneth Lay, o CEO da Enron, e um dos caras mais espertinhos da sala, já morreu. Ei, Kenny, que tal fazer negócios com o Capeta?

Trilha Sonora do Post

“Sympathy for the Devil” dos Rolling Stones:

 

Inside Job

março 28, 2011


Recentemente assisti ao documentário ganhador do Oscar deste ano (2011), Trabalho Interno (inside Job), no cinema (daqui a pouco deve estar disponível em DVD), dirigido por Charles Fergunson. É algo absolutamente impressionante para todo mundo. Talvez mais para os economistas. O filme trata de uma questão espinhosa para a profissão: o conflito de interesses em economia. Costuma-se ensinar que o economista precisa entender que uma coisa é a ciência positiva e a outra é a prática normativa da economia. A primeira diz respeito de fatos comprovados cientificamente, enquanto que a segunda refere-se ao que o economista acha que deveria ser o mundo. Isso foi exposto num artigo metodológico brilhante de Milton Friedman, ainda nos anos cinquenta. Mas tem muito economista por aí que mistura tudo, especilamente aqueles que têm posição acadêmica em universidades que deveriam prezar pela ciência, mas são atraídos terrivelmente pelo vil metal para entregar um pacote com embalagem científica para interesses de classes ou de determinada empresa.

É um assunto que todo mundo sabe que existe, ,mas poucos reconhecem, e muito menos pessoas querem resolver. Professores de economia, que deveriam procurar fazer ciência pela ciência, pois são pagos para isso, se prostituem para atender a interesses do mercado financeiro, falando o que este mercado ouvir e projetar por quantias consideráveis de dinheiro. Nessa categoria, incluem-se economistas renomados como Larry Summers, que foi secretário do Tesouro de Clinton e presidente da Universidade de Harvard (e que disse que as mulheres eram inferiores em matemática em comparação aos homens; teve que pedir posteriormente desculpas por isso), e Glenn Hubbard, chefe da assessoria econômica de George W. Bush. Esses economistas e muitos mais outros defenderam a desregulamentação radical dos mercados financeiros e a capacidade da autoregulamentação resolver as falhas de mercado, que segundo a maioria dos analistas da crise de 2008, foi a causa de todo o imbróglio financeiro. Esses caras eram cooptados pelos agentes financeiros – bancos, corretoras, instituições financeiras, etc – para dar pareceres dizendo que tudo corria bem e que a desregulamentação era a melhor política possível. Deu no que deu. Até Obama entra em evidência no documentário. Durante a campanha eleitoral, surfando na onda da mudança, Obama criticou a desregulamentação do mercado financeiro que deu origem à crise. Mas na hora da montagem de sua equipe econômica ele nomeou vários economistas com claros conflitos de interesse, com ligações vantajosas com o mercado financeiro.

Alguns momentos são hilários. Quando Fergunson pergunta para o chefe de departamento de Economia de Harvard se considerava que o fato de que os economistas de seu Departamento estarem fazendo estudos para bancos não representava um conflito de interesses. Nunca vi um homem gaguejar tanto, perder completamente o prumo, ficar tão vulnerável a uma pergunta. Deu uma profunda pena do cara. Glenn Hubbard foi alvo de hot seat, mas o cara tem culhões. Foi ao ataque contra Fergunson. Esse também é um ponto alto no documentário. Em resumo, trata-se de um dos melhores documentários feitos sobre economia e negócios. Não dá para não assistir. Para quem quiser saber mais sobre essa área cinzenta entre ciência econômica e ética profissional, segue o link para o site do filme aqui. abaixo há o trailer sobre o documentário.

O ex-cricri-tório

março 17, 2011

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Certa vez, um colega me disse algo marcante sobre trabalhar em ambiente de escritório, que boa parte dos economistas precisa enfrentar. “A vida lá no escritório é mesquinha”, disse ele. O cara da escrivaninha ao lado começa a te invejar porque você tem um grampeador mais novo e bonito do que o dele… Na primeira oportunidade que tiver, ele pega o grampeador para si e se sentirá o dono do mundo. Do mundo do escritório…

Tive o azar de, por algum tempo, trabalhar num ambiente de escritório. Foi há muito tempo atrás. Mas a experiencia me fez regredir como ser humano. Acho que, apesar de ter lido bastante Machado de Assis, com muita atenção, e refletir muito sobre a perdição da natureza humana, me tornei, durante um curto período de tempo (Thank God!), mesquinho e de alma pequena. Isso me deixou convicto da minha vocação para a vida acadêmica. A chance de fazer as coisas “my way”. Estudar o que se quer, com a liberdade de pensamento necessária para criar o que se deseja é essencial para mim.

Há um seriado na televisão, chamado “The Office”. Na verdade, existem duas versões deste mesmo seriado: a da BBC inglesa, que teve a ideia original, e a versão americana. Conta a vidinha de um escritório, com bom humor, mas com um travo de melancolismo.

As duas versões são muito boas, mas prefiro a versão da BBC inglesa. Foram só duas temporadas com dezoito episódios. Na versão inglesa, o chefe é interpretado brilhantemente por Rick Gervais, fazendo um cara inconveniente e sem noção das coisas. Num ambiente do escritório, foi possível destilar todo o sutil e sofisticado humor britânico. Tem no Netflix para assistir.

Na versão americana, o chefe é interpretado pelo ótimo ator Steve Carrell e durou várias temporadas. As situações são também muito engraçadas, mas em um tipo de humor mais americano, ou seja, um pouco mais direto e escrachado.

Trilha Sonora do Post

Ouçam a canção “Handbags and Gladrags”, música-tema bem cool do “The Office” britânico:

Ao mestre, com carinho

março 13, 2011

O que é ser um bom professor? Essa pergunta me perseguiu desde quando era aluno do primário até o doutorado. Ainda, me persegue toda a vez que entro em sala de aula na condição de professor…

Talvez a melhor definição de bom professor foi apresentada a mim por um colega professor , de uma faculdade privada, numa fase inicial da minha carreira. O bom professor é aquele que “ganha” o aluno para a sua disciplina. O que mais gosto dessa definição é a sua simplicidade. É simples e pragmática.

Não existe apenas um tipo de professor. Existem vários tipos que conseguem ganhar os alunos para a sua disciplina, entusiasmando-os. Existe o professor brincalhão e piadista, que cativa com a sua presença de espírito. Existe aquele professor sério e circunspecto, que com sua competência e respeitabilidade também cativa a maioria dos alunos. Após ampla pesquisa, um ótimo livro sobre técnicas de ensino, do professor americano Lowman, afirma que os perfis dos professores considerados excelentes são diversos. Mas existe um elemento em comum em todos os bons professores: o entusiasmo deles pela disciplina a ser ministrada. Esse entusiasmo acaba contagiando os alunos e ganhando-os para a disciplina.

Na difícil tarefa de ensinar, passei por vários momentos. Comecei a dar aulas na universidade muito jovem. Fazia ainda mestrado. A minha primeira aula foi algo inusitado. Fui lá para sala de aula todo animado para ministrar a minha primeira aula.

Cometi um engano. Já era jovem, e me vesti como jovem. Na verdade, me vesti como aluno: calça jeans, camiseta e tênis. A aula era para uma turma do terceiro período. Entrei na sala e me apresentei aos alunos. Para minha surpresa, eles acharam que era aula trote. Disseram que no ano anterior já tinham tido aula trote com um aluno veterano, mas, agora, eles já estavam no 3o período e não fazia mais sentido aquilo. Eu retrucava dizendo que eu era professor mesmo. Não acreditavam. Começaram a sair da sala. Só consegui estancar a debandada, mostrando a minha carteira de identidade junto do diário de classe onde constava o meu nome. Foi assim que tudo começou…

Até hoje considero que dar aula é um desafio. Sempre me pergunto se estou ganhando os alunos ou perdendo-os. Tem aulas que parece que se ganha o aluno, enquanto há outras que a impressão é que se perde. Até hoje continuo lamentando as minhas derrotas. E pensando como fazer para virar o jogo e voltar a ganhar. Ganhar em toda a aula. Esse é o objetivo. Isso é muito mais difícil do que pode parecer inicialmente. Não sei se sou bom professor. O que faz eu ter esperança de chegar lá é esse lamento pelas perdas e a renovada luta de tentar ganhar. De ganhar sempre.

Trilha Sonora do Post

Quando era criança, houve um período que o antigo filme “Ao mestre, com carinho” era exibido na sessão da tarde todo santo ano, sempre no dia do professor. O filme é com Sidney Poitier, como professor, e mostra bem a dificuldade de se ganhar os alunos para a matéria. No final, Poitier ganha todos os alunos. Não para a sua disciplina. Mas para a vida!

O vídeo abaixo mostra a música-tema do filme, “To sir with love”, na voz da cantora Lulu.

O veredito final

fevereiro 15, 2011

O ator Paul Newman morreu em 2008. Ele foi protagonista de dois filmes que estão entre os meus preferidos: “Butch Cassidy” e “O Veredito”. Antes de comentar esses filmes, é bom falar um pouco sobre o cara.

Paul Newman era um exemplo de persistência: foi indicado nove vezes para o Oscar e ganhou apenas uma vez. O primeiro filme dele, o Cálice Sagrado, quase acaba com a sua carreira. Foi uma bomba, a crítica caiu matando e o próprio Newman considerava o seu pior trabalho. Quando muitos anos depois a TV americana pôs no ar esse filme, ele pôs um anúncio nos jornais, pedindo desculpas aos fãs pelo filme… Mas ele conseguiu se recuperar bem de um começo tão frustrante.

O que mais impressiona em Paul Newman é a coragem na escolha dos papéis. Ele fez mocinho, vilão, sujeito bem-sucedido, cara fracassado. Ele aceitava os trabalhos pelo potencial de dramaticidade. Ele fez o bandido Butch Cassidy, junto de Robert Redford, que fazia Sundance Kid. As palavras que classificam o filme é charme e leveza. Eram papéis de assaltantes de bancos, meio bandido, meio mocinho, desempenhado com magnetismo e muito charme. O filme é atual até hoje. Tem cenas que marcaram o cinema: por exemplo, a cena da bicicleta, em que Butch dá uma carona para a lindíssima Katherine Ross, a namorada de Sundance, ao som de “Raindrops Keep Falling On my Head”, de B.J. Thomas. (Sempre quis fazer aquilo na minha vida, mas nunca todos elementos estavam juntos ao mesmo tempo em cena. Quando tinha namorada, não tinha junto bicicleta; quando tinha bicicleta, não havia a namorada. Quando tinha ambos no pedaço, cade a música?…). O final do filme é docemente trágico.

O outro filme que está em meus favoritos é “O Veredito”. É um filme de tribunal. Se em Butch Cassidy” o clima é leve e alegre, aqui, o clima é barra pesada. Conta a estória de um advogado de porta de funeral, Frank Galvin, que foi bom numa época, mas que é um alcoólatra fracassado agora, que tem uma chance de dar a virada no destino. Pegou um caso de erro médico, que parecia fácil de se fazer um bom acordo com um dos melhores hospitais de Boston. Ele decide fazer a verdadeira justiça para a sua cliente e vai para o tribunal. O momento parece especial na sua vida: ele consegue esse caso que lhe dá uma chance real de vitória; ao mesmo tempo encontra uma mulher com quem se relaciona e se apaixona.

O hospital contrata o melhor escritório de advocacia que o dinheiro pode comprar. Começa a batalha. É David contra Golias. Frank Galvin e seu antigo professor da faculdade contra o melhor advogado da cidade e seus vinte auxiliares, todos formados nas melhores Law Shools dos EUA. Golias joga sujo. Testemunhas-chave somem, até o juiz parece que está na folha de pagamento do escritório, sendo parcial o tempo todo.

Existe um ar de suspense ao longo do filme. O escritório de advocacia tem acesso a informações que Galvin e seu amigo professor discutem. Como eles sabem dessas informações? A chave do mistério é a mulher com quem Galvin se relaciona: ela é advogada paga pelo escritório rival. Desnecessário dizer, ela se apaixona verdadeiramente por Galvin e desempenha um papel duplo: ela dá força a ele nos momentos difíceis, mas trai a sua confiança, repassando as informações para o inimigo. Ele acaba descobrindo isso. Bem, no final, ele vence a causa. Mas, num filme desses, não há lugar para “happy ends”. O final é amargo, mas antológico. Trata do relacionamento humano, em que respeito e confiança mútuos são fundamentais para a sua sustentação. A mensagem do filme aqui é clara: dá para perdoar muitas coisas que uma mulher faz com um homem, mas algumas outras são absolutamente imperdoáveis. Frank Galvin é implacável com ela no final.

Dois vídeos estão abaixo: a famosa cena da carona da bicicleta de “Butch Cassidy” e o trailer do filme “O Veredito”.