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O Negócio da Bola

março 29, 2011


A venda dos direitos de transmissão pela TV do campeonato brasileiro no triênio 2012-2014 virou uma novela. Já faz um tempo que a Globo é a detentora desses direitos atualmente. O Clube dos Treze tinha a autorização dos clubes do campeonato para comercializar. A Globo fazia uma oferta pelos direitos de TV aberta, TV paga e pay-per-view. Nunca foi muita clara a regra de negociação. Desde 2003, a Record começou a mostrar interesse em comprar esses direitos de transmissão. O Clube dos Treze costumava a dar um desconto de 10% sobre a oferta da Record para a Globo, alegando que esta emissora já era cliente. A Globo pagou em torno de 500 milhões por ano pelos direitos de transmissão do triênio 2009-2011.

Existe um conjunto de coisas difíceis de serem explicadas aí. Em primeiro lugar, é anticompetitivo dar esse desconto. Em segundo lugar, por que a Record não recorreu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em terceiro lugar, por que o próprio Cade não interveio numa questão com tanta visibilidade pública.

Na negociação deste ano, referente ao triênio 2012-2014, o Cade finalmente se mexeu e acertou com o clube dos 13 um mecanismo mais competitivo, um leilão dos direitos para os que se interessarem, ao estilo “the winner takes all” .

A ideia é estimular a disputa pelo mercado. Sem dúvida, é uma fonte de competição – a competição pelo mercado. E funciona bem em mercado de monopólio natural, em que considerações tecnológicas fazem com que apenas uma empresa seja eficiente em termos de custo de produção. Mas esse tipo de competição não faz sentido no mercado de transmissão de direitos de TV, uma vez que não tem características de monopólio natural.

O leilão foi feito e a RedeTV apresentou a proposta vencedora: 516 milhões reais por ano pelos direitos. A Record acabou não apresentando proposta. A Globo já tinha anunciado que não concordava com esse tipo de leilão e partiu para a negociação direta com os clubes.

Isso talvez seja a coisa mais estranha dessa história. Não faz sentido clube negociar sozinho os direitos de transmissão de seus jogos se não combinar com os outros clubes. A negociação precisa ser conjunta. Isso porque há emergência de uma espécie de externalidades de rede nessa brincadeira.

Para entender externalidade de rede, pegue a descoberta do telefone por Graham Bell. Alguém poderia dizer que o telefone foi inventado quando Bell fez o primeiro aparelho de telefone. Alguém um pouco mais arguto vai dizer que o telefone só foi realmente inventado quando Bell construiu o segundo aparelho e deu para outra pessoa a fim de que eles pudessem bater um papinho… Só aí que podemos dizer que a telefonia começou a existir de fato. Existem certos bens ou serviços que aumentam a sua utilidade – e seu valor – se outras pessoas também têm e usam esses bens e serviços.

Talvez seja essa a explicação porque a Microsoft seja dominante do segmento de sistemas operacionais, mesmo tendo um produto inferior ao da Apple. Existe muita gente usando os computadores PC com o seu sistema operacional. Fica mais fácil tirar uma dúvida com o colega do lado, que provavelmente também usa o mesmo sistema operacional. A vantagem de usar esse sistema é que muita gente usa, gerando externalidade positiva de rede.

Voltando para a bola fria, o que adianta o Corinthians ou Flamengo negociarem os direitos com a Globo por uma grande soma de dinheiro se os outros 19 clubes não assinarem. A Globo não poderá transmitir nenhuma partida do campeonato. A utilidade do acordo com o Corinthians depende que os outros também entrem em acordo com a mesma emissora. Por causa disso, os direitos de transmissão são comumente comercializados por uma entidade que garante que todos os clubes do campeonato aceitarão ter os seus direitos negociados conjuntamente.

Aí fica a minha humilde proposta para a negociação dos direitos de transmissão. Por que não fazer como os direitos da NFL, a liga de futebol americano: vender para mais de uma emissora? Nos EUA, aos Domingos, no período da tarde, existem dois canais (Fox e CBS) que transmitem cada um dois jogos. Depois à noite, tem o Sunday Night Football, um jogo exclusivo só passado na ABC. E na segunda-feira, tem o Monday Night Footbal, transmitido exclusivamente pela ESPN.

São quatro redes de televisão, comprando os direitos em vez de apenas uma. Poderia ter algo parecido nesses tristes trópicos. A Globo pagaria pelos horários que lhe interessam, a Record pagaria pelos delas, a RedeTV e a Band fariam o mesmo.

Evidentemente que isso não interessa à Rede Globo. Vai ter emissora que comprará o horário das 21h para passar jogo, competindo com a novela. Também reduziria o apelo do Pay-per-view, pois vai aumentar muito a oferta de jogos pela TV aberta.

Mas o interesse do público não deve se curvar ao interesse da Rede Globo. Esse sistema é mais competitivo e traz melhores resultados. É a mão invisível em ação. Ou deveria dizer que, neste contexto, é o “pé invisível” fazendo um golaço.

Trilha Sonora do Post

“Pumped Up Kicks” do Foster The People:

Computação na nuvem

março 1, 2011

Há mais de dez anos, em outubro de 1997, o Departamento de Justiça, órgão do governo americano, entrou com uma ação antitruste contra a Microsoft, alegando que a empresa forçou os fabricantes de PCs a vender o seu navegador de internet junto do sistema operacional Windows. Um dos argumentos da Microsoft no tribunal foi tipicamente schumpeteriano: ela alegava que não era monopolista, pois não havia barreira à entrada, uma vez que o seu negócio poderia ser posto em xeque por um nova empresa inovadora a qualquer momento. Essa empresa, lançando uma inovação no mercado, poderia transformar totalmente o mercado de informática.

Ei, acho que isso era uma premonição!… No ano seguinte depois disso, surgiu uma empresa de garagem, fundada por dois universitários, Larry Page e Sergey Brin, a partir de um projeto acadêmico de construção de um algoritmo eficiente de busca e de organização de sites, que revolucionou a internet.

Passados dez anos, o Google ameaça seriamente o império da Microsoft. Ameaça não no sentido de botá-la em segundo lugar no mercado, mas ameaça de botá-la para fora do mercado. “Opa!”, alguns de vocês devem estar pensando, “mas o modelo de negócio da Microsoft é baseado em produção de softwares para serem instalados no HD de computadores (nisso ela é imbatível). Já o modelo de negócios do Google é baseado na máquina de busca de páginas patrocinadas (nisso ele é imbatível)”.

“Então, cada empresa está num mercado diferente”. É, realmente. Mas somente por enquanto.

O Google está preparando um projeto devastador para a posição da Microsoft. A intenção do Google é tornar o computador uma coisa obsoleta.

“Mas como viveremos sem computador!”, dirão vocês. Respondo eu: segundo o Google, com computadores na nuvem!. Antes de vocês dizerem “Ah! Entendi tudo! Obrigado pela explicação. Foi muito útil…”, explico: a intenção do Google é pôr todas as informações na internet, a grande nuvem de computadores. Tudo ficará lá. Você precisa de um editor de texto para fazer um texto, é só acessar a internet, conectar-se a um editor on line gratuito e escrever. Você precisa fazer uma tabela, acesse a internet e abra um planilha eletrônica on-line gratuita e ponha os números na sua tabela. Ah, você poderá salvar o seu texto e a sua tabela no seu HD, que ficará num servidor na internet. E a empresa que tem as melhores condições de fazer é o Google (na verdade, ele já faz isso! Para editor de texto, acesse http://docs.google.com).

Sentiu a força devastadora dessa idéia do Google. Se isso pegar, bye-bye Microsoft. O modelo de negócio da firma de Bill Gates vai para as nuvens ou vira fumaça. Você escolhe. A isso o grande Schumpeter chamaria de destruição criadora. O Google cria uma ideia que tem o poder de destruir completamente o modelos de negócio de empresas.

O Google é um ícone da internet. Agigantou-se nesses dez anos. Os funcionários adoram trabalhar nessa empresa. Lá um sentimento de liberdade vigora. Existem quadras de basquete e de outros esportes para os funcionários praticarem esportes e relaxarem. Trabalham para cumprir suas tarefas na hora em que estão dispostos e motivados para isso. Refeitórios espalhados pela empresa, que mais parece um campus universitário, onde a boia é grátis, entre outros agrados aos trabalhadores. Esse clima solto e livre faz com que os funcionários vistam a camisa da empresa. É nesse ambiente que surgem as idéias criativas e destruidoras…

Veja o vídeo abaixo sobre o ambiente de trabalho da Google.