Archive for the ‘Crise’ Category

Reforma-se ou Deforma-se

abril 22, 2017

reforma da previdencia

O governo Temer esforça-se para aprovar a Reforma da Previdência no Congresso. Como esperado, existe uma guerra de versões sobre a necessidade da Reforma.

Para qualquer economista intelectualmente honesto, é evidente a necessidade de se fazer a Reforma da Previdência, não apenas para ajustar as contas públicas, um horizonte de curto a médio prazo, mas, principalmente, para elevar o nível de produtividade da economia brasileira, retirando o país da armadilha da renda média. A Reforma é um importante elemento – não único, é claro – para a retomada sustentável do crescimento econômico de longo prazo.

Não vamos entrar aqui em detalhes do formato da Reforma proposta pelo governo. Sim, não é a melhor proposta, como apontado pelo especialista Marcelo Medeiros do IPEA . Mas é o que temos para hoje. Sem esquecer que essa é a primeira Reforma da Previdência do resto das nossas vidas. Outras virão pela frente.

Se a relevância da Reforma é consensual entre os economistas que honram o seu diploma, não é ainda consensual entre a população e, consequentemente, entre o Congresso Nacional, onde será votada a PEC. Cabe, então, aos formuladores de política econômica formar o consenso na população da necessidade premente da Reforma.

Aí entra a importância da narrativa. Numa dança de números, o debate gira principalmente a respeito do “déficit da previdência”. Governo diz que existe o déficit e ele é crescente, ao passo que a oposição alega, que se considerar todas as receitas legais, não existe déficit.

O governo começou mal no debate das ideias, focando no “déficit”, achando que isso causaria comoção na sociedade. Realmente, conforme se considerar as rubricas nas receitas (exclui DRU ou não, Previdência inclui os gastos com o SUS ou não, etc), pode não haver déficit.

O ponto da argumentação não pode ser esse. A abordagem a ser seguida deveria focar em mostrar a situação peculiar dos gastos previdenciários em relação à proporção de idosos na população. Nesse ponto a econometria pode nos ajudar com a chamada “análise dos resíduos” . Vejam o diagrama abaixo, gerado pelo site mercadopopular.org, com dados do Banco Mundial e do Ministério do Planejamento.

Gasto vs população idosa

O diagrama é a representação gráfica de uma análise de regressão linear simples com dados de vários países no mundo. A reta representa um modelo que prevê a porcentagem do gasto previdenciário do governo em relação ao PIB, dada uma certa proporção de idosos na população. Para a proporção de idosos do Brasil (aproximadamente 8% da população total), o modelo prevê um gasto previdenciário em torno de 4%. Mas, na realidade, o gasto do governo brasileiro com previdência é de aproximadamente 12% (a seta pontilhada em vermelho mostra o desvio em relação à previsão do modelo; em econometrês, a gente fala em “resíduo”). Três vezes mais. O gasto previdenciário atual do Brasil equivale ao gasto da Alemanha, que tem cerca de 15% do idosos na sua população. Essa proporção alemã é o dobro da brasileira. Se nada fizermos, quanto gastaremos com previdência quando tivermos 15% de nossa população composta por idosos?

Um outro argumento que pode ser brandido é o já desproporcional peso que os gastos previdenciários assumem no orçamento federal. A previdência responde por 38% desse orçamento em 2016, seguida por juros (20%), Saúde (7%), Educação (5%) e outras rubricas (30%).

Esse quadro aponta para um futuro sombrio. Para financiar a Previdência, se nada for feito, o país tem estas opções à mesa: a) aumentam-se mais ainda os impostos, reduzindo a produtividade e a competitividade do país; b) eleva-se o endividamento do governo, subindo os juros pagos (mas, sabemos que isso tem um limite); c) imprime-se a nossa colorida moeda para pagar os gastos, gerando inflação. É, meus caros, vale sempre a máxima: em economia, não existe almoço gratuito.

Para qualquer pessoa que deseje o bem para o país, esse quadro mostra-se insustentável. Urge alterá-lo para o próprio bem-estar da sociedade. Como se mostrou aqui, existe um alto preço a ser pago por deixar a coisa como está para ver como é que fica.

Trilha Sonora do Post

Se não se fizer a Reforma, é provável que Djavan tenha que reescrever a letra da sua canção, incluindo os novos impostos a serem criados para financiar os gastos.

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Dilma Strikes Again!

fevereiro 4, 2017

TRUM-DILMA-1-1.jpg

O que você diria de um político com as seguintes ideias: fechar o País e estimular a indústria, fazendo substituição de importações; promover um enorme expansionismo fiscal; intervir no câmbio a fim de desvalorizar a moeda nacional; querer gerar um pibão, crescendo no mínimo 4% ao ano?

“Ah, não! Não aguentamos mais esse lulopetismo! Eles destruíram a economia com o populismo deles! Acabamos de nos livrar dessa praga! Chega!”

Sim, essas ideias povoam a cabeça de Lula e de Dilma. Mas essas ideias também fazem parte do programa econômico de Donald Trump!

É, meu arguto leitor, Trump é muito parecido com Lula e Dilma. Em vários aspectos, e não apenas no ideário econômico. Por exemplo, ele adora investir no discurso do “nós contra eles”. No caso do bilionário peruqueiro, o “nós” são os americanos tipo WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant) e o “eles” é todo o resto.

Outra semelhança: ele fala besteira o tempo todo sobre qualquer tipo de assunto. Um sem-noção completo.

Assim como Lula e Dilma, Trump representa a exaltação do atraso, o elogio da ignorância, a admiração da insensatez. Nós, brasileiros, sabemos bem onde isso tudo termina.

Os gringos elegeram a Dilma deles! Quanto tempo eles vão levar para perceber o tamanho do erro e se livrar desse bebê de Rosemary alaranjado?

Trilha Sonora do Post

O Laranjão é um desastre completo, mas tem lá algum gosto musical. Ele escolheu a canção “my way” de Frank Sinatra na comemoração da sua posse.

Doutores Heterodoxos

outubro 13, 2016

curandeiros

João Brasilino estava obeso. Pesava quase 150 quilos. Apesar de adorar comer e jogar videogame o tempo todo, queria mudar aquela situação. Queria afinar a silhueta e melhorar a saúde.

Procurou orientação médica para isso. O primeiro médico consultado foi direto: Brasilino precisava fazer rigorosa dieta balanceada, com verduras, legumes, pouco carboidrato, nenhuma fritura etc. O médico ainda recomendara muito exercício físico, coisa como uma hora por dia, pelo menos.

João Brasilino procurou uma segunda opinião médica. Mas agora procurou um médico heterodoxo.

O segundo médico achou um absurdo o receituário do primeiro. A abordagem do doutor heterodoxo era totalmente diferente. Ele defendia que a forma de se fazer dieta é comendo mais. Bem mais. Qual era a ideia? Comendo mais, o corpo acelera o metabolismo. Acelerando o metabolismo, queima-se gordura e perde-se peso. Simples assim.

Encantado e ao mesmo tempo atordoado com a consulta médica, digamos, inusitada, Brasilino queria saber mais detalhes. Podia continuar jantando um disco de pizza grande todos os dias? O médico heterodoxo, abrindo um largo sorriso, bateu no seu ombro e disse a ele que tinha que mudar: agora em diante, ele comeria um pizza tamanho gigante! A dieta prescrita incluía doces, massas, refrigerantes, frituras, muito carboidrato etc. A meta era ingerir pelo menos seis mil calorias diárias para acelerar o metabolismo. Tratava-se de uma dieta sem sacrifícios, sem medo de ser feliz.

“E quanto à necessidade de fazer exercícios físicos?”, indagou Brasilino. “Bobagem!”, respondeu o doutor heterodoxo. “Correr engorda. Vá a um parque qualquer e note que a maioria das pessoas que correm está fora de forma”.

O doutor heterodoxo disse para seguir a dieta e voltar a vê-lo em seis meses para ele poder avaliar o progresso do tratamento.

Desnecessário dizer que Brasilino seguiu a segunda opinião. Mergulhou com entusiasmo na dieta heterodoxa, esperando afinar a silhueta e melhorar a saúde, “sem sacrifícios e sem medo de ser feliz”. Infelizmente, Brasilino não voltou a consultar de novo o doutor heterodoxo. Morreu antes, pesando quase duzentos quilos, vítima de fulminante infarto.

A estorinha contada acima é uma alegoria que quero fazer com a situação atual da economia brasileira, à beira da votação da PEC do teto do gasto no Congresso Nacional.

Temos um grande déficit (“Estado gordo”). O doutor Henrique Meirelles propõe um ajuste fiscal (dieta) para pôr ordem nas contas públicas (“afinar a silhueta”). Para isso precisamos cortar gastos, privatizar e talvez ainda aumentar alguns impostos mais na frente (“comer verduras, legumes etc”). A ideia é que o ajuste fiscal é uma precondição para voltar a crescer economicamente lá na frente (“melhorar a saúde”). Mas precisa estar acompanhada da aprovação das reformas previdenciária, trabalhista e tributária (“fazer exercícios físicos”) para aumentarmos a produtividade.

Mas temos alguns doutores heterodoxos com um receituário distinto. Segundo eles, para se conseguir fazer o ajuste fiscal (dieta), é preciso fazer mais gastos do governo (“comer mais”), promovendo o crescimento (“acelerar o metabolismo”). Com maior crescimento, aumentará a receita de impostos e, com isso, atingir-se-á (bom dia, Michel!) o ajuste fiscal.

E as reformas (“exercícios físicos”)? “Bobagem!” Países que fazem reformas (México, Grécia, Colômbia) são mais pobres do que países ricos (EUA, França, Alemanha, Japão etc) que não fazem reformas. Logo, fazer reformas empobrece os países.

Simples assim. Sem sacrifícios. Sem medo de ser feliz.

Quem topa seguir esses curandeiros?

Quem está disposto a continuar se submetendo a este tipo de pajelança?

Trilha Sonora do Post

Two Princes dos Spin Doctors:

11 de Setembro

setembro 11, 2011


Acordei no horário de costume naquele dia. Me preparei no apartamento que alugava da Universidade de Illinois e saí para o laboratório de pesquisas onde estudava havia duas semanas. Lá pelas 9h o meu orientador entrou na sala onde ficavam os alunos e pesquisadores e disse algo que entendi que era um avião que tinha se chocado num prédio em Nova York e estava lá estacionado num andar, pegando fogo. Exclamei: “Pô! Preciso treinar mais o meu ouvido para o inglês. Tô entendendo cada coisa!”

De qualquer modo, o ambiente andava pesado, as pessoas estavam tristes e silenciosas. Vi na tela do computador de um colega um prédio pegando fogo. Tentei entrar na CNN. Ela estava fora do ar. Entrei num site de notícias brasileiro. Aí comecei a perceber o absurdo que estava sendo testemunha ocular. Daqui alguns minutos pela tela do computador vi o segundo avião chocar com outra torre. Espanto! A América estava sendo atacada! Mas por quem? Era a pergunta que cruzava minha mente.

Lia no site de notícias do Brasil que havia ainda quatro aviões nos céus da América que não atendiam as ordens do tráfego aéreo e poderiam atingir outros alvos. Lia que o presidente, o vice-presidente dos EUA, o prefeito de Nova York estavam escondidos e protegidos pelo FBI. Me deu vontade de me esconder também e de requisitar um agente para a minha proteção. Desnecessário dizer que ninguém estudou ou trabalhou naquele dia. Só deu para ficar na frente de telas naquele dia: tela de computador e tela de televisão tentando entender o que estava acontecendo.

Duas coisas que aconteceram comigo nos dias seguintes foram mais reveladoras do que as tentativas de análise daquele absurdo. A primeira foi um pastor que pregava o fim do mundo nos jardins da Universidade no dia seguinte ao ataque. Minha lógica inflexível se levantou e anunciou pomposamente: “Velho, se o fim-do-mundo não foi ontem, não será hoje e provavelmente não será nunca mais!”.

A segunda coisa marcante aconteceu, alguns dias depois do ataque, quando ao caminhar pelo bairro residencial próximo onde morava, estanquei o passo quando vi a seguinte placa, fixada na parede de uma típica casa americana: “WE WILL NEVER FORGET!”, em letras garrafais, quase gritando em sua cara. Aí percebi que Bin Laden estava frito, meu irmão. Provocou um povo muito orgulhoso, que não foge da luta. Os americanos iriam atrás dele para vingar aquele dia. E a vingança possível era matá-lo. Podia demorar, mas ia acontecer com certeza.

Trilha Sonora do Post

Por fim, “this is the end” do The Doors:

Inside Job

março 28, 2011


Recentemente assisti ao documentário ganhador do Oscar deste ano (2011), Trabalho Interno (inside Job), no cinema (daqui a pouco deve estar disponível em DVD), dirigido por Charles Fergunson. É algo absolutamente impressionante para todo mundo. Talvez mais para os economistas. O filme trata de uma questão espinhosa para a profissão: o conflito de interesses em economia. Costuma-se ensinar que o economista precisa entender que uma coisa é a ciência positiva e a outra é a prática normativa da economia. A primeira diz respeito de fatos comprovados cientificamente, enquanto que a segunda refere-se ao que o economista acha que deveria ser o mundo. Isso foi exposto num artigo metodológico brilhante de Milton Friedman, ainda nos anos cinquenta. Mas tem muito economista por aí que mistura tudo, especilamente aqueles que têm posição acadêmica em universidades que deveriam prezar pela ciência, mas são atraídos terrivelmente pelo vil metal para entregar um pacote com embalagem científica para interesses de classes ou de determinada empresa.

É um assunto que todo mundo sabe que existe, ,mas poucos reconhecem, e muito menos pessoas querem resolver. Professores de economia, que deveriam procurar fazer ciência pela ciência, pois são pagos para isso, se prostituem para atender a interesses do mercado financeiro, falando o que este mercado ouvir e projetar por quantias consideráveis de dinheiro. Nessa categoria, incluem-se economistas renomados como Larry Summers, que foi secretário do Tesouro de Clinton e presidente da Universidade de Harvard (e que disse que as mulheres eram inferiores em matemática em comparação aos homens; teve que pedir posteriormente desculpas por isso), e Glenn Hubbard, chefe da assessoria econômica de George W. Bush. Esses economistas e muitos mais outros defenderam a desregulamentação radical dos mercados financeiros e a capacidade da autoregulamentação resolver as falhas de mercado, que segundo a maioria dos analistas da crise de 2008, foi a causa de todo o imbróglio financeiro. Esses caras eram cooptados pelos agentes financeiros – bancos, corretoras, instituições financeiras, etc – para dar pareceres dizendo que tudo corria bem e que a desregulamentação era a melhor política possível. Deu no que deu. Até Obama entra em evidência no documentário. Durante a campanha eleitoral, surfando na onda da mudança, Obama criticou a desregulamentação do mercado financeiro que deu origem à crise. Mas na hora da montagem de sua equipe econômica ele nomeou vários economistas com claros conflitos de interesse, com ligações vantajosas com o mercado financeiro.

Alguns momentos são hilários. Quando Fergunson pergunta para o chefe de departamento de Economia de Harvard se considerava que o fato de que os economistas de seu Departamento estarem fazendo estudos para bancos não representava um conflito de interesses. Nunca vi um homem gaguejar tanto, perder completamente o prumo, ficar tão vulnerável a uma pergunta. Deu uma profunda pena do cara. Glenn Hubbard foi alvo de hot seat, mas o cara tem culhões. Foi ao ataque contra Fergunson. Esse também é um ponto alto no documentário. Em resumo, trata-se de um dos melhores documentários feitos sobre economia e negócios. Não dá para não assistir. Para quem quiser saber mais sobre essa área cinzenta entre ciência econômica e ética profissional, segue o link para o site do filme aqui. abaixo há o trailer sobre o documentário.

De bolha em bolha

março 16, 2011

bolha-imobiliaria-21

Os americanos não poupam. E isso é um problema fundamental desta crise que o mundo está passando.  As coisas lá vão bem durante a formação das bolhas. Foi assim com a bolha tecnológica das pontocom que vigorou durante os anos Bill Clinton. Quando estourou no finalzinho dos anos noventa, a economia americana inventou logo,logo a bolha imobiliária do subprime cujo recente estouro estamos tentando sobreviver a ele. A existência de uma bolha é importante para a economia americana, pois a família americana esqueceu-se completamente de poupar. Nos EUA, existem duas coisas importantes para um típico americano. Primeiro, ter dinheiro para consumir. Segundo, ter crédito para consumir. Se possível, unir as duas coisas. Aquilo lá é uma loucura. A família americana típica é endividada. Ela tem a hipoteca da casa (enorme) em que mora. Tem o financiamento dos carros da família (no mínimo, dois). Têm as despesas correntes. Pagam-se essas dívidas com vários cartões de crédito. Aliás, a fatura de um cartão de crédito é pago com outro cartão de crédito. E assim por diante. Quando o chefe da família perde o emprego, a família está completamente quebrada.

As famílias americanas se beneficiaram da bolha imobiliária. Conseguiram comprar casas que de outro jeito só em sonho. Quem já tinha casa, renegociou a hipoteca com os bancos, quando o preço das casas estavam aumentando, a fim de conseguir de volta um dinheiro do banco para ser usado no consumo. Parece que aquela economia precisa de uma bolha para continuar funcionando. Por isso que toda essa ajuda do governo americano e o FED (Banco Central americano) faz perguntar a toda a gente se isso não é o começo de uma tentativa de buscar uma nova bolha.  Parecia esse o papel do ex-presidente do FED, Alan Greenspan. A sua atuação no FED nos anos 90 e no começo deste século, aumentando irresponsavelmente a liquidez da economia, que é a matéria-prima da formação de uma bolha, e a desregulamentação bancária violou a máxima de William McChesney Martin, que comandou o Federal Reserve (banco central americano) de 1951 a 1970: ” a função do Banco Central é retirar a cerveja da festa quando esta começa a ficar animada”. Alan Greenspan não apenas deixou a cerveja na festa como distribuiu pessoalmente os papelotes de cocaína aos convidados da festa… Por isso, não li e não vou ler o livro escrito por esse Ogro. Não tem moral. Um economista que não reconhece a existência de falhas de mercado precisa ser proibido de assumir um cargo público.

 Qual é a solução para a falta de poupança da economia americana? Existem dois caminhos possíveis. Um é radical, mas talvez seja o mais correto. O americano precisa reaprender a poupar, não gastando mais do que ganha. É claro que isso ficou complicado agora que a dívida das famílias (principalmente, a hipoteca) aumentou em decorrência da redução do preço das casas. Mas em algum momento as famílias vão ter que respeitar a restrição orçamentária. Isso implica numa terrível depressão, pois toda a estrutura produtiva dos EUA precisa se readaptar a um consumo que não esteja alavancado pelo excessivo crédito. O outro caminho é o que está tentando ser  implementado que é tentar salvar o sistema financeiro, as grandes empresas e dar um alívio para as famílias endividadas para minorar o impacto da crise. Transformar uma depressão em uma recessão.

Mas veja como a economia é uma ciência complexa. Se o problema dos EUA é falta de poupança da família americana, o problema da estagnação histórica do Japão é o excesso de poupança da família japonesa. Nesse caso, a máxima de que a virtude está no meio aplica-se perfeitamente.

Golpe piramidal

março 14, 2011

piramide-capitalista2

A crise econômica que o mundo atualmente enfrenta é ampla, assustadora e impressionante em vários aspectos. Pretendo em alguns posts abordar certos aspectos da crise não tratados pela imprensa e outros analistas. O primeiro aspecto a abordar é a fonte da crise. Em termos gerais, todos concordamos que a crise surgiu porque os mercados financeiros não funcionaram bem. Estamos falando de uma falha de mercado aqui. Qual delas, então? Os manuais de economia e microeconomia hierarquizam implicitamente as falhas de mercado. Dão mais importância à imperfeição de mercado, representada pelo monopólio e oligopólio, e as externalidades. Depois, são citadas as outras falhas de mercado.

Mas esta crise tem como a sua gênese a assimetria de informação, a falha de mercado que costuma ser exposta em último lugar nos livros-texto de economia. Assimetria de informação significa que um lado do mercado tem menos informação que o outro. Veja o caso que deu origem à crise. Tudo começou com empréstimos imobiliários subprime. Isto é, os bancos deram empréstimos para a aquisição de casa própria para pessoas que poderiam ter dificuldades para pagar a hipoteca. Vale a pena abrir parêntesis aqui. Um analista de crédito de um banco americano disse que aprovou o empréstimo para uma pessoa latina cujo emprego declarado era cantor de uma banda de mariachi, sem nenhum documento que comprovasse isso . O analista não teve dúvidas, pegou uma máquina, tirou uma fotografia do sujeito fantasiado com roupas típicas e anexou ao processo de encaminhamento do pedido de cessão de empréstimo. Os superiores aprovaram o empréstimo imediatamente. Para conseguir um empréstimo imobiliário nos EUA durante a bolha bastava respirar. Você respira? Então, sem dúvida, que você tem condições de pagar um empréstimo de trinta anos!  

Os bancos para diluir os riscos inerentes a essas operações, securitizaram esses empréstimos duvidosos, quer dizer, criaram títulos cujo lastro eram as hipotecas dessas pessoas que potencialmente seriam inadimplentes no futuro e passaram para frente, vendendo para outros bancos, fundos de pensão, empresas e investidores.  As agências de avaliação de risco não só não acharam nada errado com esses títulos como recomendaram a sua compra. O início da crise começou quando aumentou a inadimplência dessas hipotecas. Aí a nudez do rei foi reconhecida por todos. Isso agravou a crise que entrou num circuito vicioso. Pessoas começaram a perceber o risco dos títulos subprime e começaram a vender, isso afetou as ações das empresas e dos bancos, reduzindo o crescimento e o emprego, que aprofundou a inadimplência e assim por diante. Pairou uma desconfiança sobre a saúde do sistema bancário, principalmente após a quebra do Banco Lehmann Brothers, em setembro do ano passado. Uma redução de crédito somente vista durante a Grande Depressão tomou conta do sistema. Ninguém confia em ninguém mais para conceder empréstimos. Essa é uma das ligações com a economia real. Isso impactou tremendamente o capital de giro das empresas, que tiveram que reduzir produção e emprego. Isso acentua mais a inadimplência e a dívida das famílias americanas, que reduzem o consumo, que é a outra ligação com a economia real. A redução do consumo desestimula mais ainda a produção e o emprego. E assim por diante.

Esse é resumo simplificado e incompleto de um processo mais complexo da dinâmica da crise. Mas tá valendo! O importante é perceber a fonte de todos os nossos problemas. É assimetria de informações que está em toda a parte neste processo. Quando os bancos securitizaram o risco e começaram a vender os títulos subprime como se fossem superprimes, as pessoas e as empresas de todo o mundo que compraram não conseguiram perceber o risco. Na verdade, a esmagadora maioria não saberia dizer em que estavam investindo. Estavam fazendo isso porque as agências de avaliação de risco recomendaram… As mesmas agências de risco que são consideradas como uma solução privada para a assimetria de informações por fornecerem sinais corretos para os agentes tomarem suas decisões.

A loucura da assimetria de informações no mercado financeiro atingiu o ápice com o fundo de pirâmide de Bernard Madoff, ex-presidente da bolsa de valores eletrônica Nasdaq. Fundo pirâmide porque é esse mesmo o lastro da aplicação: uma pirâmide. O retorno do investimento dependia da expansão contínua desse fundo, o que vale dizer que sempre mais investidores deveriam ser atraídos para o fundo. A entrada de novos investidores garantia o retorno dos antigos investidores. Como numa esquema de pirâmide. Há aproximadamente dez anos atrás, esquemas de pirâmide eram frequentes no Brasil. Lembro-me de um amigo tentando me convencer a entrar numa pirâmide, que nos enriqueceria mutuamente, segundo ele, bastando entrar em contato com os meus outros amigos a fim de que eles também entrassem no esquema… Me safei facilmente, dizendo que, como eu era economista, sabia como funcionava esses esquemas e que o risco de micar era alto, que não havia lastro real etc, etc (acho que cheguei a mencionar a condição de Inada para ele…). Ah! Santo economês! Depois da minha terceira frase do torbilhão de palavras técnicas que tomaram de assalto o seu ouvido, o meu pobre amigo começou a fitar o horizonte com um olhar distante, ignorante, parvo e impotente…

Milhares de investidores não tiveram o mesmo discernimento (ou não dominavam o economês como eu) e botaram seu rico dinheirinho na pirâmide de Madoff. O prejuízo para as pessoas assoma o valor de 50 bilhões de dólares! Até Steven Spielberg, o festejado diretor de cinema, perdeu uma fortuna nessa pirâmide! O que está por trás disso tudo é a mais absoluta assimetria de informações refletida no fato de que pessoas investem em coisas de que não tem a menor ideia do que sejam.

Agora o esquema financeiro de pirâmide não foi inventado por Madoff. Talvez ele tenha proporcionado o maior prejuízo. Mas quem inventou o esquema de pirâmide foi um italo-americano chamado Ponzi. Nos anos vinte do século passado, nos EUA, enganou muitas pessoas, enriqueceu e quando descoberto, fugiu para um outro país. Qual país?! Qual?! Qual?! O Brasil, meu prezado leitor! Que sina a deste país, hein! Será que estamos fadados pelo destino a ser terra segura de ladrões, picaretas, terroristas de todo o mundo. Como se não bastassem os nossos próprios, a gente importa de outros países!

Fragilidade do conhecimento

março 12, 2011

Economista às vezes sofre. Experimentei isso na pele quando era ainda estudante de economia da USP do quinto período, acho. Estava num ônibus e conversando com a mulher do meu lado. Quando ela soube que estava estudando economia, perguntou, de repente, qual era a “causa” da inflação (era uma época que se vivia inflação muito alta no país). Bem, já estava empanturrado de teorias sobre a inflação, então comecei a despejar o meu “conhecimento da matéria” sobre a minha interlocutora. Comecei falando que havia a teoria estruturalista da economia, de um lado. Por outro lado, havia o monetarismo, o pessoal das expectativas racionais e da inércia inflacionária. E passei a explicar resumidamente o que cada uma dessas teorias propunha como causa. Até que ela me interrompeu e me perguntou qual era, afinal, a verdadeira causa. Respondi, sem muita confiança, que não havia uma causa, mas um conjunto de causas.

Aí ela veio com a pergunta devastadora, mas previsível: e como é que se acaba com a inflação? Passei a ficar exasperado porque não tinha lá muita certeza sobre o que estava falando. A cara de descrença da mulher também não ajudava… Meio desesperadamente, respondi que tinha que controlar moeda, gastos públicos, eliminar o componente inercial, congelamentos os mais variados, mexer nas instituições, BC independente etc. Ou seja, em três minutos, bolei um plano de estabilização que condensava o Cruzado I e II, Plano Bresser, Verão, Collor I e II e Plano Real, tudo junto. Já estava confuso com a minha explicação e frustrado. Já tava querendo antecipar a minha descida do ônibus, achando que era o melhor que faria (e olha que estava a uns dez quarteirões de casa!).

Foi a partir desse momento que percebi como o conhecimento em economia é frágil. Talvez seja a dificuldade da ciência de modo geral. Pode-se dizer que o conhecimento científico é provisório e está sempre à procura de uma melhor explicação para os fenômenos. Talvez em economia isso se complica mais ainda porcausa da pouca possibilidade de se fazer experimentos controlados. O que faz com que a determinação da direção da causalidade seja difícil. Mas também não precisava deixar embaraçado um jovem estudante na frente das pessoas.

Bolhas assassinas

março 6, 2011

Ouvimos falar muito sobre a bolha do mercado das hipotecas subprime nos EUA, que após o seu estouro ameaçou levar a maior economia do planeta a uma grave recessão, com impactos pelo mundo afora. Já houve no começo deste século a bolha das pontocom, as empresas de informática que tiveram um crescimento exagerado dos preços de suas ações. A história se repete: há o estouro, todos caem na real e fala-se que o mercado de ações passou por uma “correção”. Desnecessário dizer que, nessa trajetória de correção de mercado, muitas pessoas perdem suas economias e ficam a ver navios.

A história das bolhas especulativas teve início na Holanda em 1637 com a tulipomania. A tulipa, uma flor exótica importada do Oriente, transformou-se num bem desejado pelos habitantes de Amsterdã, que faziam de tudo para adquiri-las. Os preços dos bulbos da tulipa chegaram a níveis exorbitantes. Pessoas para conseguir um simples bulbo de uma variedade exótica da tulipa trocavam-no por manadas de bois e de ovelhas, hectares de terras, prataria etc. O preço médio da tulipa era suficiente para comprar duas casas mobiliadas da época. Cada dia que passava, o preço do bulbo de tulipa  subia e mais pessoas acreditavam que isso continuaria no futuro indefinidamente. A lógica da especulação já estava toda lá: compra-se a tulipa por x hoje, vende-se por y amanhã, sendo que y é maior que x.

O estouro da bolha foi o mais interessante dessa história:  um marinheiro embriagado comeu a tulipa mais cara daquele tempo. Com uma simples bocada, o marujo bebum engoliu o equivalente monetário a duas casas mobiliadas. Isso fez com que as pessoas caíssem na real e percebessem que toda aquela dinheirama que estavam dispostas a trocar era um exagero e nem a mais exótica e bela tulipa do mundo valia aquilo. Bolha estourara e pessoas saíram vendendo as suas tulipas. O preço despencou e pessoas perderam muito dinheiro. Depois dessa primeira bolha especulativa muitas regiões no mundo vivenciaram inumeráveis casos deste tipo. Com essa experiência acumulada, as pessoas deveriam ser mais cuidadosas em ingressar nessas bolhas especulativas. Sobre o surgimento de bolhas especulativas ao longo de todo esse tempo pode-se dizer que é a consagradora vitória da ganância sobre a experiência…