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Tudo é relativo

fevereiro 14, 2011

A riqueza é relativa. Um delicioso conto de Mark Twain conta a estória de um sujeito que era muito rico na cidade onde morava até falir espetacularmente. A fortuna de centenas de milhões de dólares dissipou-se. Ficou pobre. Viajou para o Alasca e descobriu uma comunidade de esquimós isolada da civilização, cujas trocas eram baseadas no escambo. Lá a medida de riqueza não era dinheiro, mas sim a quantidade de anzóis que uma pessoa possuía. Mas por que anzóis? Com anzóis, o sujeito conseguia pescar mais, ou alugava anzóis para quem não tinha, e recebia o aluguel em peixes. Com peixes, comia mais e atraía mulheres que queriam ficar com ele porque comiam mais também. Tratava-se de uma comunidade muito simples. Mas o cara que tinha mais anzóis gozava do mesmo status social do sujeito mais rico de uma cidade grande. Era simplesmente o cara! O personagem falido de Twain logo percebeu a saída para recuperar o seu status social. Voltou à sua cidade e, com os poucos caraminguás que ainda lhe restavam no bolso, comprou doze anzóis e voltou para a comunidade de esquimós onde se estabeleceu. Como o esquimó mais rico anteriormente detinha onze anzóis, o personagem se transformou no homem mais rico do pedaço. E conquistou muitas mulheres…

Mas não só a riqueza é relativa. A inteligência também é relativa. A história – verídica – é de um conhecido meu. Ele estudava numa escola particular em São Paulo. Era um dos piores estudantes da classe. Terminou o ensino fundamental e mudou-se para uma high school americana numa cidade média dos EUA. Começou a cursar o equivalente ao primeiro ano do nosso ensino médio. E começou a perceber que a escola dele no Brasil era muito puxada: a maioria das coisas ensinadas pelos professores americanos, ele já tinha aprendido. Especialmente, matemática. A professora de matemática da High School ensinava equações de 2o grau, o que ele já tinha aprendido na sétima série. Perguntava coisas do tipo: quais são as raízes de x – 9 = 0? O valente brasuca disparava imediatamente, respondendo: 3 e -3, para espanto geral da classe! Virou gênio na High School. Os alunos disputavam quem seria amigo dele para poder estudar com aquela sumidade. Evidentemente, ele escolhia estudar com as garotas mais bonitas… E assim foi durante todo o ano. Transformou-se num dos cara mais populares da escola. Um verdadeiro crânio! Depois de um ano, chegou a hora de voltar para o Brasil. Voltou para sua antiga escola, aquela que era puxada e que lhe serviu para ganhar tanta popularidade e respeito nos EUA. Começou o 2o ano do ensino médio. Não conseguia acompanhar a matéria. Não tinha a base do primeiro ano da escola. Ia mal nas provas. Tirava as piores notas. Matemática era seu calcanhar-de-aquiles. Repetiu de ano. Era ridicularizado pelos alunos. No prazo de um ano, o meu conhecido passou de gênio a burrão…

Contei essa história sobre esse cara porque, em educação, existe uma chamada hipótese do laguinho de rãs (frog pond hypothesis). Essa hipótese diz que caso um aluno de inteligência média está numa classe de alunos muito inteligentes, ele se dá mal nas matérias e muitas desiste da escola por se considerar burro. Se ele está numa sala de alunos mais atrasados, ele se destaca e se estimula, podendo chegar a posições destacadas no futuro. Tudo depende do contexto (em que laguinho você se encontra). Tal hipótese se encaixa muito bem para explicar as agruras do meu conhecido, uma verdadeira rãzinha que mudou de laguinho de um ano para outro.

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