Archive for the ‘escolha do consumidor’ Category

O Economista que Virou Suco

abril 6, 2014

Se você perguntar para um microeconomista, ele afirmará que o consumidor gosta de diversidade. Uma experiência interessante feita pela economia comportamental foi testar isso numa feira de exposição de alimentos. Puseram duas barracas vendendo geleias. Uma delas com uma enorme variedade de tipos e sabores de geleias; a outra com apenas quatro sabores básicos de geleias (morango, pêssego etc).

Será que o leitor descobre qual das barracas foi mais visitada? Acertou quem disse que foi a primeira.

Agora vem a pergunta: qual das duas barracas registrou mais vendas? A segunda com apenas os quatro sabores básicos de geleia. Conclusão: consumidor gosta de diversidade, pero no mucho!

Lembro-me quando morava nos EUA de minhas idas para o supermercado. Lá ia comprar suco de laranja para tomar de manhã. No supermercado, os sucos de laranja ocupavam uma enorme prateleira. Tinha tudo lá: suco de laranja com pouca polpa, polpa média, muita polpa; suco de laranja com cálcio e sem cálcio; suco de laranja misturado com tangerina ou suco de laranja sem tangerina; suco de laranja sugar free ou não, suco de laranja por tipo de laranja.

E o número de opções é obtido por análise combinatória: tinha suco com média polpa, com cálcio, sem tangerina, sugar free, de um determinado tipo de laranja ou suco com pouca polpa, sem cálcio , com tangerina, regular de outro tipo de laranja e assim por diante. E isso tudo para cada marca!

Eu passava um tempão escolhendo o maldito do suco, pois as embalagens eram muito parecidas entre elas, predominando o amarelo, o verde e – não poderia deixar de ser – o laranja! Durante todo o tempo que estive na América, acho que nunca comprei o mesmo suco duas vezes seguidas.

Teve um dia especialmente que botei na cabeça que levaria a combinação de suco que mais me agradara: suco de laranja com pouca polpa, com cálcio, sem tangerina, sugar free da marca Tropicana. Fui à prateleira enorme e comecei a aplicar um método para escolher, eliminando as possibilidades irrelevantes. Gastei mais ou menos meia hora no processo! No dia seguinte no café da manhã tinha percebido que quase tinha acertado na combinação: não tinha escolhido o sugar free…

Depois disso, a escolha do suco passou a ser um martírio. Começava a suar e sentir palpitação no coração só de aproximar da fatídica prateleira e perder meu precioso tempo para escolher um suco que não era exatamente o meu preferido. Era a mesma angústia do goleiro no momento do pênalti. Certa feita, pensei que teria o colapso cardíaco por não conseguir escolher o suco. Outra vez, estava com sintomas de um AVC.

Por que você comprava, então, o suco – deve estar se perguntando você, meu caro e incompreensível leitor?! Comprava porque era danado de gostoso, mesmo quando errava a combinação – ora bolas!

O que me irritava nesse processo de compra era que eu, como consumidor, em toda minha suposta soberania, não conseguia comprar a combinação de suco que maximizava a minha satisfação por causa exatamente da enorme diversidade de opções à minha disposição. Então, dizer que o consumidor quer diversidade ilimitadamente é bobagem. Por favor, me polpa. Quero dizer, me poupe.

Trilha Sonora do Post

Você não está satisfeito? Satisfaça-se simplesmente! “Just can’t get enough” do Depeche Mode:

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Burro de Buridan e a escolha do consumidor

março 21, 2011

burro de buridan

Há muito tempo ouvi uma estorinha impressionante sobre a questão do livre arbítrio, inventada por um filósofo e religioso chamado Jean Buridan.

Um burro estava igualmente faminto e sedento. Puseram o bicho na frente de um balde de água e de um saco de aveia. O animal olhava para o balde de água cristalina e fresca  e depois olhava para o saco de aveia tenra e não decidia se matava primeiro a sede ou a fome. O tempo passava e o asno não era capaz de decidir.

Começou a suar enquanto virava freneticamente a cabeça em direção ao balde e ao saco, seus olhos reviravam, o batimento cardíaco acelerava-se, sem se decidir. O tempo passava e o bicho começou a escoicear o ar, motivado pela indecisão. Passadas várias horas de terem posto o balde de água e o saco de aveia, o burro faleceu. Igualmente de fome e de sede…

Por que isso aconteceu?

Bem, alguém poderia dizer que tal burro é burro mesmo e fim de papo.

Buridan explicou a situação de modo diferente, digamos filosófico, dizendo que o burro não foi dotado pela natureza do dom de escolher entre opções. O asno estaria aí, todo garboso, se tivessem colocado apenas o balde de água ou apenas o saco de aveia na frente dele. Mas não poderiam ter posto ambos se não lhe foi dado o livre arbítrio. Não poderiam ter cometido esse pecado.

Esse estorinha tem muito significado para um filósofo. Mas tem significado para um economista também. Somos treinados a crer que os agentes econômicos racionais escolhem um cesta de bens e serviços segundo uma escala de preferências, e condicionada por uma restrição orçamentária, a fim de maximizar a sua utilidade ou a satisfação obtida da usufruição desta cesta. Como o agente econômico é dotado de livre arbítrio e conhece todo o universo de bens e serviços, racional e soberanamente, ele escolhe o melhor para si.

Os economistas comportamentais, sobretudo Dan Arielli, discutem essa teoria. Para Arielli, o agente econômico não conhece todo o universo de bens e serviços de onde ele extrairá a sua cesta de consumo. Na verdade, o consumo é mais uma espécie de experimentação em que o consumidor constrói as suas preferências.

E, segundo os economistas comportamentais, o consumidor não é tão soberano assim. Os produtores influenciam muito a decisão dos consumidores, ajudando nesta “construção” das preferências. Ou seja, podemos não ser como o burro de Buridan que tem bem palpáveis as opções, mas não possui um escala de preferências, simplesmente porque não possui livre arbítrio. Mas também não somos os Senhores Spocks nos supermercados da vida, maximizando a utilidade dadas as restrições orçamentárias.

Trilha Sonora do Post

Uma canção para lá de filosófica do Raulzito:

O cão engarrafado

março 11, 2011

Trata-se de uma das bebidas mais apreciadas pelos economistas. Apesar do seu preço. É bom abrir um parênteses aqui. O vinho também tem o preço salgado. Mas o preço do vinho depende muito da qualidade da safra da uva e muitos outros aspectos envolvidos no processo de produção. A variedade e a diversidade do vinho é enorme. São muitas variáveis para serem levadas em conta. Cada vez acho mais que para escolher um bom vinho a pessoa precisa fazer um curso sobre esta bebida.

O uísque é uma bebida mais industrial do que o vinho. O malte, que é a matéria-prima da bebida, para ser produzido, não depende de fatores edafo-climáticos. Se não é uma boa safra, ou o tipo de uva usada, ou a quantidade de sol que a videira recebeu ao longo do ano, o que faz o uísque tão caro?

A resposta é simples. O principal elemento que encarece o uísque é o tempo.  Não se bebe uísque que não tenha idade menor que oito anos. O preço da garrafa de uísque depende do tempo em que dourado líquido fica maturando no casco. O maior custo de produção do uísque são os juros não-ganhos do dinheiro investido na produção do uísque, esperando o tempo necessário para torná-lo comercializável. É o custo de oportunidade do dinheiro e do tempo que faz o uísque uma bebida cara.

Apesar de ser caro, as maiores vendas do Johnnie Walker Red Label no mundo acontecem no Brasil. Especulo que a explicação disso não repouse no tempo, mas, talvez na amizade… Vinicius de Moraes, poetinha do Brasil e um dos grandes consumidores do líquido dourado de todos os tempos, certa vez disse que o uísque é o melhor amigo do homem. É o cão engarrafado!

Trilha Sonora do Post

Quem deixou os cachorros saírem da garrafa?