Archive for the ‘Grandes economistas’ Category

Série “Os Grandes Economistas”: Keynes

março 15, 2011

keynes

Com a crise econômica, o homem voltou a ser lembrado. Andava meio esquecido. Mas, afinal, na crise, “todos somos keynesianos”. A ideia de que as políticas fiscal e monetária ativas podem evitar a depressão e reanimar a economia volta a ser considerada uma boa ideia. Talvez seja a ideia que dê algum alento agora. Havia um entendimento quase consensual de que as ideias de Keynes não envelheceram bem. Elas teriam sido superadas pelas ideias dos economistas novos-clássicos (Lucas, Sargent, Prescott etc) e dos novos-keynesianos (Mankiw, Binder, entre outros), que de tão novos lembravam pouco do autor que lhes deu origem.

Talvez a obra de Keynes tenha sido a mais mal-interpretada na teoria econômica. Em especial, nesses tristes Trópicos, com os economistas heterodoxos, ditos desenvolvimentistas, que têm uma raiz forte de seu pensamento baseado no pensamento de Keynes, bagunçando completamente o coreto. Por isso, são chamados de keynesianos de quermesse, pois para qualquer problema defendam aumento de gastos e investimentos públicos. Por essas e por outras, é que Keynes, segundo seu biógrafo Richard Davenport-Hines, no final da vida, apresentava-se , dizendo: “sou Keynes, mas não sou keynesiano”.

Deixe-me divagar um pouco. Meu primeiro contato com as ideias de Keynes foi na disciplina Macro I no curso de graduação de Economia da USP. A disciplina começava com a leitura da obra-prima do homem “A Teoria Geral”. Lembro-me da primeira leitura: capítulo 2 sobre “A Demanda Efetiva”. Foi um dos textos mais herméticos e difíceis já lidos na minha vida. Rivaliza com a “Mercadoria” do Capital de Marx. Quanto mais lia aquele capítulo da Teoria Geral, menos entendia. A minha impressão é que não apenas não entendia esse conhecimento novo como a leitura daquilo estava matando conhecimento já assimilado anteriormente. No fim de três leituras do capítulo, sem entender nada, já começava a achar que a minha tabuada – tão dolorosamente apreendida no meu primeiro ano do primário –  estava comprometida irremediavelmente (“Quanto é 8×7 mesmo?”, perguntava-me desanimado).

O problema todo é usar a Teoria Geral como se fosse um livro-texto na matéria. Keynes fez a Teoria Geral com vários propósitos. Mas não se enquadrava entre eles o propósito daquilo ser um livro-texto de macroeconomia. Erro do professor.

Só fui entender o livro de Keynes no terceiro ano de Economia, quando estava mais bem equipado dos instrumentos e dos conceitos da Economia para compreender toda a complexidade daquilo. Keynes só deve ser estudado na disciplina de HPE no último ano do curso de Economia. Fora disso, é perda de tempo.

Mas voltando à vaca fria, parece que os governos redescobriram as ideias de Keynes para tentar minorar a depressão que se avizinha. No post abaixo, discuto que essa é uma das alternativas para abordar a crise.

A outra é mais radical, compreendendo que não dá para o povo da principal economia do mundo ficar desrespeitando continuamente a restrição orçamentária, consumindo muito mais do que ganha, sendo financiado pelo dinheiro do mundo. Isso é potencialmente um risco para todo o sistema econômico mundial.

Haveria a necessidade de um ajuste brusco. Deixa falir as empresas que tiverem de falir (será que tem cabimento nos dias de hoje haver indústria automobilística nos EUA, pagando os salários e benefícios que o trabalhador americano exige? Não é melhor deixar essa coisa de fabricar automóveis para países emergentes como China, Índia, Brasil etc?). Deixa quebrar as famílias que não mostraram nenhuma previdência quebrarem. Só não deixa quebrar os bancos porque aí já é crise sistêmica.

Mas uma coisa precisa ser entendida. O mundo não consegue sustentar um padrão de consumo americano, que se ampliado para todos os povos das nações, precisaria de recursos naturais de cinco planetas Terra para sustentar.

Sem falar que essa alternativa, digamos keynesiana, representada pelos pacotões de trilhões de dólares do governo americano, significa injeção direta de moeda no sistema. Isso terá, daqui alguns anos, como consequência a volta de um outro monstro: a inflação mundial. “Bem”, dirão os defensores dessa alternativa adotada até o momento, “isso é longo prazo. E, no longo prazo, estaremos todos mortos”. Aproveitando a deixa, emendo: e, no longuíssimo prazo, estaremos todos fossilizados… Comigo é assim mesmo: uma frase de efeito com pouco sentido é acompanhada imediatamente por outra sem sentido algum!

Trilha Sonora do Post

Não sei porquê, mas acho que Keynes combina com balé, ópera, coisas assim. Um espetáculo grandiloquente para um economista grandiloquente. Na voz do tenor Andrea Bocelli:

Anúncios

Série “Grandes Economistas”: Schumpeter

fevereiro 27, 2011

No mesmo ano que morreu Karl Marx, 1883, nasceram dois grandes economistas: Keynes e Schumpeter. Eles foram os economistas mais influentes da primeira metade do século passado.

A obra de Schumpeter é marcada pela investigação da influência da inovação e do progresso técnico sobre o sistema econômico. A inovação é a categoria básica de Schumpeter. A ela tudo está vinculado: o crescimento econômico, o fluxo circular da renda, o juro, o lucro, o crédito, os ciclos econômicos etc.

Schumpeter e Keynes disputaram a vida toda quem era o melhor economista da primeira metade do século XX. Em termos de influência de politica econômica, Keynes teve atuação muito mais destacada.

Mas a cada ano que passa parece que a obra de Schumpeter é mais atual do que a de Keynes.  Ou, como se costuma dizer, a obra de Schumpeter envelheceu melhor. Isso talvez confirme o que Schumpeter costumava dizer que queria ser: o maior economista do mundo, o maior cavaleiro da Áustria e o maior amante de Viena…

Note que nesta relação não está ser o melhor pagador de dívida em Viena. Schumpeter foi diretor de um banco que faliu. Deixou uma série de dívidas e saiu meio “apressado” de Viena, acossado por inúmeros credores.

Depois de uma rápida passagem pela Universidade de Oxford, estabeleceu-se como professor da Universidade de Harvard. Lá fez história. Era popular entre os alunos. Invariavelmente, eles o convidavam para suas festas. Schumpeter era dono de um conhecimento enciclopédico e de um carisma magnetizador. Costumava manipular as atenções das festinhas.

Talvez não tenha sido o maior amante de Viena. Mas em Harvard não fez feio nesse quesito. Gostava de chavecar as estudantes. Dizia-se que ele punha as mais bonitas alunas na frente da classe e dava atenção especial a elas.

Foi orientador de Paul Samuelson e de James Tobin, dois dos principais economistas da segunda metade do século passado e ganhadores do Prêmio Nobel de Economia. Orientou a tese de Tobin sobre… economia keynesiana, a teoria do seu maior rival pelo título de maior economista daquele tempo. Isso pouca gente sabe hoje em dia. Mostra o nível de profissionalismo de Schumpeter.

Suas principais obras foram “a Teoria do Desenvolvimento Econômico”, “Capitalismo, Socialismo e Democracia” e “Ciclos de Negócios”.

Até hoje é estudado e suas idéias inspiram novos economistas. Para se ter idéia, existe uma sociedade Joseph Alois Schumpeter, o nome completo da figura (http://www.iss-evec.de/). Existe, ainda, todo ano uma conferência anual em seu nome.

Trilha Sonora do Post

Melhor economista, melhor cavaleiro, melhor amante… Certamente, Schumpeter acharia que tenha sido a inspiração para música “Simply The Best” de Tina Turner.