Archive for the ‘Recursos naturais’ Category

Vivendo no Pré-Sal

março 27, 2011

O governo brasileiro ainda acha que a descoberta de grandes reservas de petróleo na camada pré-sal é o passaporte para o futuro do país. Antes mesmo de se retirar o primeiro barril de petróleo, já se começou uma disputa acirrada entre os Estados produtores, os não-produtores e a União para saber como os royalties gerados pela produção de petróleo serão distribuídos.

Mas será que é para se ter tanto otimismo assim? Quem deveria estar soltando rojão (e estão) seriam a Arábia Saudita e a Venezuela. Em primeiro lugar, é preciso evitar a maldição do petróleo, como já conversada em outro post do Blogonomia.

Em segundo lugar, para que tanto motivo de felicidade? Não será o Brasil o maior beneficiado da exploração de petróleo em águas profundas, forçada pela escassez deste produto no mundo. Para saber quem ficará com o maior benefício é preciso conhecer um modelo desenvolvido há aproximadamente duzentos anos atrás por um dos grandes economistas de nossa profissão, o inglês David Ricardo.

Analisando a renda proveniente das terras agrícolas, Ricardo percebeu que as terras apresentavam diferenciais de produtividade. Sabedores disso, os agricultores cultivavam as terras mais férteis primeiro, com custos de produção mais baixos. À medida que a população aumentava e demandava mais alimentos, outras terras menos produtivas eram postas em cultivo, com custos de produção superiores aos das primeiras terras cultivadas. Com o passar do tempo, mais alimentos eram necessários para sustentar uma população crescente, mais terras eram cultivadas, com uma produtividade cada vez menor e um custo de produção crescente. Até que as piores terras eram cultivadas com o maior custo de produção.

Mas a aguçada percepção de Ricardo não parou aí. Ele concluiu que os maiores beneficiados dessa expansão agrícola em direção de terras de pior qualidade favorecia os agricultores que produziam nas melhores terras. Dado que o mercado de alimentos seja suficientemente competitivo, os alimentos são negociados a um mesmo preço, independente se foram produzidos na melhor terra ou na pior. E o preço do mercado é determinado pelos mais altos custos de produção a fim de motivar os agricultores das piores terras a ofertarem sua produção. Como os agricultores que produzem nas melhores terras conseguem alta produtividade e baixo custo de produção, seus lucros são maiores.

Deu para perceber que a lógica do modelo diferencial da terra é a mesma para analisar o petróleo? No começo explorava-se petróleo em terras do continente, onde a profundidade necessária para se encontrar o ouro negro era menor, precisando de um furo “mais raso”, a um custo de produção bem mais baixo.

Com a demanda crescente por petróleo e com o passar do tempo, foi necessária exploração em águas profundas, a centenas de quilômetros de distância do continente e tendo que fazer furos com mais de sete quilômetros para achar o precioso líquido. Como é commodity, e a lei do preço único vigora nesse caso, o preço do barril do petróleo é dado pelas piores condições de produção (no caso, as do Brasil).

Quem é que ganha na verdade? Todos os produtores de petróleo que conseguem petróleo em terra firme, com “pequenos furos”, especialmente Arábia Saudita e Venezuela, que têm as maiores reservas do mundo nessas condições mais favoráveis de produção.

Palmas para esse grande economista, um especulador inveterado da bolsa de valores de Londres, que ficou milionário negociando ações. Já podre de rico, leu por acaso o livro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, e se apaixonou pela Economia. “Quero ser economista!”, exclamou Ricardo ao cabo do livro. E passou a fazer a mais fina teoria econômica e participando intensamente do debate econômico. Sua polêmica com Thomas Malthus a respeito das Leis dos Cereais, vigentes na Inglaterra do início do século XIX, é antológica, e mostrou toda a força de sua arrasadora argumentação.

Em tempo: o avô de Ricardo era português e teve que sair da terrinha por causa da perseguição aos judeus. “Ah!”, deve estar você, meu caro e astuto leitor, exclamando agora: “Bem que eu desconfiei desse familiar Ricardo no nome do sujeito!”

Trilha Sonora do Post

Já que estamos falando de “oil”, fique com a música “beds are burning” da banda “Midnight Oil”.

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Maldição do Petróleo

março 25, 2011

maldicao-do-oleo

Com o barril do petróleo a mais de 100 dólares, e caminhando para os 150 dólares, qual país não gostaria de ser rico em petróleo. Mas será que uma boa mesmo? Isso é importante para nós, brasileiros, depois da descoberta dos megacampos de petróleo na camada pré-sal, que podem tornar o Brasil num país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Os países ricos em petróleo costumam ser mais corruptos, mais desiguais, instáveis politica e economicamente e mais autoritários. É a maldição do petróleo.

Vocês querem exemplos disso? Ei-los! Onde foram parar os mais de 400 bilhões de dólares que entraram para os cofres do governo nigeriano desde 1960? Como explicar que milhares de nigerianos morreram no conflito de Biafra no fim dos anos sessenta com a tentativa da tribo Ibgo, que habita o Leste da Nigéria, de tentar controlar as reservas petrolíferas. A nossa vizinha Venezuela que enfrenta uma ditadura disfarçada comandada por Hugo Chavez, que usa o dinheiro do petróleo para, entre outras sandices, apoiar o grupo terrorista da FARC colombiana. Por que países ricos em petróleo crescem menos que outros países que não têm petroléo? É a maldição do petróleo.

Por que existe essa maldição com recurso natural tão desejado por todo mundo? Há algumas explicações econômicas. Em primeiro lugar, governos de países com petróleo veem sua arrecadação fiscal crescer tremendamente, fazendo com que deixe de ser interessante desenvolver outros setores econômicos. E dinheiro que vem fácil, vai fácil. Os governantes procuram se perpetuar no poder para conseguir continuar desfrutando do desvio desse dinheiro por meio da corrupção. Com a corrupção, destrói-se as instituições de um país e lá vai o capital social, um fator de produção importante para explicar ganhos de produtividade.

Em segundo lugar, a dependência de um produto só. Como o petróleo representa a maior parte da economia de certos países, sobretudo os pequenos e os pobres. Mas aí se o preço do barril sobe, é o paraíso; se o preço cai, é o apocalipse econômico para esses países.

Em terceiro lugar, com a exploração do petróleo, um repentino fluxo de divisas fortes (dólares, euros etc) entram no país, levando a uma forte valorização da moeda local. Isso retira competitividade de suas exportações agrícolas e industriais, prejudicando também a diversificação da estrutura produtiva, uma vez que os setores não ligados ao petróleo são prejudicados. Apesar dessa maldição se manifestar com os produtores de petróleo, pode se manifestar com países dependentes da exploração de outro recurso mineral (ouro, diamantes, cobre etc) pelos mesmos motivos.

Existe jeito de escapar da maldição? Alguns países até que tentam. Uma das idéias é formar um fundo de petróleo: quando o preço do barril sobe acima de um patamar estipulado pelo país, o governo constitui um fundo de reservas; quando o preço cai no mercado, o governo usa esse dinheiro para compensar as conseqüências.

Uma outra ideia é formar “fundos para o futuro”, ou seja, não gastar todo o dinheiro que chega do petróleo na geração atual, mas reservar recursos financeiros para as futuras gerações. Bem, os países que adotam essas ideias são Canadá e Noruega, por exemplo… Ou seja, países ricos que são ricos porque, além de petróleo, tem capital humano, capacidade tecnológica, capital social etc, suficientes para terem essas boas ideias. A principal fonte da pobreza é a mentalidade pobre…pobre de ideias. Nem pensar um país africano adotar essas ideias. O ditador de plantão não deixa.

Trilha Sonora do Post

“Under Pressure” do Queen com David Bowie:

Perdição amazônica

março 18, 2011

amazonia

Duas coisas me impressionam quando se fala da floresta amazônica. Primeiro, a Amazônia brasileira hospeda boa parte da diversidade de flora e fauna do mundo.  Segundo, como nós, brasileiros, não sabemos o que fazer com esse patrimônio. O desmatamento continua a taxas elevadas, mesmo que tenham registrado pequeno decréscimo nos últimos anos. A grande contribuição do Brasil para o aquecimento global vem da queima da floresta, emissora de CO2.

O problema do desmatamento está vinculado ao tipo de desenvolvimento que se quer levar para essa região. É um vetor de desenvolvimento convencional, baseado numa agropecuária e extrativismo vegetal e mineral predatórios. Desenvolver pecuária bovina é sinônimo de desmatar. Plantar arroz, soja e outros produtos agrícolas é sinônimo de desmatar. Então, qual é a solução para o desenvolvimento da Amazônia? Deixar intacta a floresta e intacto o nível de pobreza dos brasileiros residentes por lá? Claro que não.

Desenvolvimento é talvez a coisa mais importante que existe na economia. Mas o desenvolvimento tem de ser em bases sustentáveis. Um desenvolvimento sustentável envolve que a atual geração aumente o seu bem-estar, deixando um estoque de capital natural (ou recursos naturais), pelo menos, da mesma magnitude que recebeu.

A meu ver, o desenvolvimento da Amazônia deveria passar pelo incentivo da bioindústria e das atividades extrativas preservadoras da mata. A bioindústria é a exploração sustentável da diversidade de plantas e animais que vivem na Floresta para servirem para a indústria alimentícia, farmacêutica e de cosméticos, dentre outras.

Isso já é feito com a descoberta das propriedades de produtos amazônicos como o capuaçu, o açaí, o guaraná etc. Novos alimentos saudáveis ou novos medicamentos para velhas doenças podem estar lá sem serem descobertos. Talvez a cura do câncer esteja em alguma planta da Amazônia ainda não catalogada.

Mas para que a bioindústria prospere, é preciso muita pesquisa científica das universidades, institutos de pesquisa e empresas. Da pesquisa sairão as inovações de produtos que ganharão os mercados. A empresa de cosméticos da Natura já faz isso em alguma escala. O que é preciso é transformar esse vetor de desenvolvimento como o dominante. Isso precisa um envolvimento do sistema universitário brasileiro como um todo.

As agências de fomento de pesquisa deveriam abrir linhas de financiamento de projetos de pesquisa que tivessem alvo conhecer cientificamente essa riqueza genética e de diversidade contida na Floresta, envolvendo pesquisadores de universidade não apenas da região Norte, mas também de outras regiões, inclusive pesquisadores de universidades de outros países. Isso faria a diferença no médio e longo.

Mas o Governo não faz nem o que é mais fácil. Imagina ter e implementar essa ideia, que não é fácil. Quando me refiro ao mais fácil, é registrar a patente dos nomes de produtos amazônicos. Alguém pode argumentar que não tem muito sentido patentear o nome de uma fruta, por exemplo, o cupuaçu ou o açaí. É, mas os japoneses e os americanos não pensam desse jeito. Os japoneses patentearam o nome “cupuaçu”, enquanto que os americanos patentearam o nome “açaí”. Eles viram um sentido econômico na coisa. E só estou dando dois exemplos. Várias frutas amazônicas já foram patenteadas por empresas de outros países. Só falta o Brasil ter que pagar royalties para americanos e japoneses para poder usar esses nomes no futuro. Ninguém merece isso!

Trilha Sonora do Post

Como estamos falando de natureza, “Sol” do Jota Quest: