Archive for the ‘Televisão’ Category

Economia do Plim-Plim

julho 2, 2015

plim plim
A publicidade é um tópico polêmico entre os economistas. Alguns a criticam argumentando que ela tem a função de criar necessidades que realmente não existem entre os consumidores. Outros críticos ainda afirmam que a publicidade é um instrumento das empresas para reduzir a competição no mercado.

Eu me enquadro entre os economistas que defendem a publicidade como uma forma de melhorar o mercado, aumentando sua eficiência. São três as razões para isso.

Em primeiro lugar, a publicidade emite uma sinalização num ambiente de informação assimétrica. Sinalização refere-se a uma ação tomada por uma parte informada para revelar informação privada a uma parte desinformada. Cabe notar que a sinalização precisa ser essencialmente custosa a fim de que nem todo mundo possa fazer o sinal, mas apenas aqueles que têm condições ou a habilidade de sinalizar. Todo mundo sabe que cachorro que late para qualquer coisa não é um bom guardião do lar.

A fim de sinalizar que seus produtos têm qualidade, uma empresa gasta muito dinheiro fazendo a propaganda destes produtos. Afinal, se os produtos não tivessem qualidade, os consumidores não comprariam mais e falariam mal deles para outras pessoas. E todo o dinheiro gasto em propaganda, que é um tipo de custo irrecuperável (sunk cost), seria jogado fora. A propaganda, que é custosa, sinaliza que o produto é de qualidade.

Em segundo lugar, publicidade promove concorrência ao anunciar as características do produto, os locais onde se pode comprá-lo, o preço etc. Além disso, publicidade é uma espécie de uma vara para a empresa potencialmente entrante a fim de superar a barreira de mercado imposta pelas empresas incumbentes e poder efetivamente entrar no mercado. Um contraexemplo disso ocorreu no Brasil com o mercado de cigarros. Nos últimos anos, a legislação brasileira impôs uma série de restrições à propaganda de cigarro nos diversos veículos de comunicação (televisão, rádio, internet, jornais, revistas, outdoors etc).

Praticamente não se vê mais publicidade de cigarro por aí. Num primeiro momento, pensou-se que isso prejudicaria a principal empresa de cigarro no mercado brasileiro, a Souza Cruz. Porém, num segundo momento, percebeu-se que a restrição na publicidade eliminou a possibilidade de entrada de uma outra grande empresa tabagista em condições de competir com a Souza Cruz, que teve sua posição de mercado reforçada e seus lucros aumentados nos últimos anos. Sem publicidade, não há chance nenhuma de uma empresa poder contestar o mercado da Souza Cruz.

Em terceiro lugar, a publicidade permite a provisão de alguns bens públicos. Bem público é um bem do qual não se pode excluir o seu consumo, cobrando um preço, e que não seja rival. Rivalidade é uma propriedade dos bens que faz com que o consumo deles acarreta um maior custo para os outros consumidores. Um exemplo de bem público (na verdade, um serviço público) é a televisão aberta. Por ser aberta, não é possível cobrar uma mensalidade dos telespectadores. Televisão aberta não é um serviço rival, pois o jogo do Palmeiras contra o São Paulo, a qual um torcedor assistiu na telinha, não fez com que sobrasse menos jogo para os outros torcedores de poltrona. No Brasil, a televisão aberta é provida pelo mercado por intermédio de empresas privadas, como Globo, SBT, Record, Band etc. Isso graças à publicidade que financia a programação desses canais de televisão. É uma espécie de efeito plim plim sobre a eficiência do mercado de televisão.

Para quem ainda não se ligou, abaixo vai o histórico dos vários plim-plins criados pela Globo.
https://www.youtube.com/watch?v=X9eYzDKgFas

Trilha Sonora do Post
“Wild, wild life” dos Talking Heads:

Abra a Boca, Galvão!

abril 20, 2011


Na última copa foi feita um campanha contra o narrador da Globo, que caiu nas redes sociais: Cala a boca, Galvão! Saiu até livro tendo como título essa frase, coligindo as pérolas do Galvão ao longo da sua extensa carreira. Em toda as copas do mundo, é isso: levanta-se um onda contra o narrador da Globo.

Vou contra a onda e fazer a defesa do narrador aqui. Em primeiro lugar, não nego que o Galvão fala coisas sem sentido. Isso é por causa do estilo 3 em 1 dele, não encontrado em parte alguma no mundo da narração esportiva: ele narra, comenta e faz reportagem num mesmo jogo de futebol. Aí, meu caro, não dá para não deixar escapar bobagem. Então, “por que ele fala tanto? Por que só não narra?”, indagará você, meu leitor cri-cri. Esse é o estilo do cara! Por que, então, o telespectador incomodado não muda de canal e vê o jogo pela Band? “Ah, o “craque” Neto não dá pra encarar!” Pois, é…

Outra qualidade impressionante do Galvão é o seu reflexo de narração. Nunca houve narrador, em nenhuma parte do mundo, com o reflexo de narração dele. Isso eu percebi na narração do acidente fatal do Airton Senna, em Ímola, 1994. Não assisti a narração ao vivo. Tinha voltado para casa quando me avisaram que o Senna tinha batido feio. Liguei automaticamente a TV. Não demorou para passar o trecho do acidente com a narração de Galvão. Eu sabia que o Airton bateria na longa reta curva (como uma vez, o Nelson Piquet brilhantemente denominou aquela parte do autódromo). Vi o Senna entrando na reta curva, sabia onde seria o acidente, mas meu cérebro processou o acidente apenas quando Galvão narrou instantaneamente o acidente: “Airton Senna bate forte!” Foi duplamente impressionante o acidente e o reflexo da narração do Galvão. E isso ao narrar o acidente que vitimaria o seu amigo corredor!

Talvez a entrevista mais reveladora e esclarecedora dada por Galvão Bueno na sua vida foi para um grande jornal francês durante a copa de 1998, na França. O jornal viu os índices de audiência da Globo nos jogos do Brasil contra os dos concorrentes (Band, SBT e Manchete). Era algo como sessenta e poucos pontos de IBOPE para a Globo contra 7 ou 8 pontos da Band, a segunda colocada.

Como havia concorrência, a qualidade da imagem era a mesma para todas as emissoras, o jornal sentiu que a diferença estava na equipe esportiva. Naturalmente, o narrador é o líder dessa equipe. Lá foram eles pedir entrevista para o Galvão.

A pergunta mais interessante era mais ou menos a seguinte: qual é o segredo de seu sucesso? A resposta do Galvão foi a coisa mais fantástica que poderia haver. Ele começou dizendo que, apesar dele ser formado em educação física, no começo da carreira, lá pelos idos dos anos setenta, ele ganhava a vida, não dando aulas, mas vendendo… vendendo enciclopédias! Ele disse que era um ótimo vendedor de enciclopédia! Ele chegava e tentava convencer os pais do investimento nos filhos que era adquirir uma enciclopédia. Pegava o filho e perguntava o que ele queria ser. “Médico!”, dizia o guri.

O homem abria nos verbetes sobre o esqueleto humano, explicando cada osso e cada órgão da gravura. “Advogado!” , confessava outro valente guri. Galvão abria as páginas sobre o direito romano, explicando a origem da profissão e assim por diante. Vendia enciclopédia como água! Sustentava muito bem a família com o dinheiro que tirava dessas vendas.

Depois desse longa introdução, Galvão falava: “voltando para a sua pergunta, o meu sucesso agora é que eu continuo sendo um vendedor. Só que agora sou um vendedor de emoções!” Por isso, não existe jogo chocho (ou oxo) com Galvão. O cara faz uma narração procurando vender emoções. Evidentemente, ele às vezes tem que as criar! Por isso, também ele fala, fala, fala! O cara é um vendedor!

Por último, gosto dele porque senti o que é assistir a uma copa sem Galvão Bueno. Em 2002, estava estudando nos EUA e assisti à Copa do Japão e da Coréia pela TV americana. O que é aquilo, meu Deus? Nunca vi transmissões sem vibração, sem emoção. Ficava lá assistindo e imaginando como estava sendo a narração do Galvão no Brasil. Dava o meu reino pela narração do Galvão! Só passando por essa experiência é que eu sempre digo: abra a boca, Galvão!

No vídeo abaixo, um momento memorável para todos nós, brasileiros: o tetra da seleção, depois de 24 anos de fila, na narração emocionada de Galvão Bueno! “É teeetraaaa!!! É teeetraaa!!” É de arrepiar!

 

Trilha Sonora do Post

Meu reino pela transmissão do Galvão na Copa. Sem ela, só resta chorar. “Tears run rings” de Marc Almond:

O Negócio da Bola

março 29, 2011


A venda dos direitos de transmissão pela TV do campeonato brasileiro no triênio 2012-2014 virou uma novela. Já faz um tempo que a Globo é a detentora desses direitos atualmente. O Clube dos Treze tinha a autorização dos clubes do campeonato para comercializar. A Globo fazia uma oferta pelos direitos de TV aberta, TV paga e pay-per-view. Nunca foi muita clara a regra de negociação. Desde 2003, a Record começou a mostrar interesse em comprar esses direitos de transmissão. O Clube dos Treze costumava a dar um desconto de 10% sobre a oferta da Record para a Globo, alegando que esta emissora já era cliente. A Globo pagou em torno de 500 milhões por ano pelos direitos de transmissão do triênio 2009-2011.

Existe um conjunto de coisas difíceis de serem explicadas aí. Em primeiro lugar, é anticompetitivo dar esse desconto. Em segundo lugar, por que a Record não recorreu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em terceiro lugar, por que o próprio Cade não interveio numa questão com tanta visibilidade pública.

Na negociação deste ano, referente ao triênio 2012-2014, o Cade finalmente se mexeu e acertou com o clube dos 13 um mecanismo mais competitivo, um leilão dos direitos para os que se interessarem, ao estilo “the winner takes all” .

A ideia é estimular a disputa pelo mercado. Sem dúvida, é uma fonte de competição – a competição pelo mercado. E funciona bem em mercado de monopólio natural, em que considerações tecnológicas fazem com que apenas uma empresa seja eficiente em termos de custo de produção. Mas esse tipo de competição não faz sentido no mercado de transmissão de direitos de TV, uma vez que não tem características de monopólio natural.

O leilão foi feito e a RedeTV apresentou a proposta vencedora: 516 milhões reais por ano pelos direitos. A Record acabou não apresentando proposta. A Globo já tinha anunciado que não concordava com esse tipo de leilão e partiu para a negociação direta com os clubes.

Isso talvez seja a coisa mais estranha dessa história. Não faz sentido clube negociar sozinho os direitos de transmissão de seus jogos se não combinar com os outros clubes. A negociação precisa ser conjunta. Isso porque há emergência de uma espécie de externalidades de rede nessa brincadeira.

Para entender externalidade de rede, pegue a descoberta do telefone por Graham Bell. Alguém poderia dizer que o telefone foi inventado quando Bell fez o primeiro aparelho de telefone. Alguém um pouco mais arguto vai dizer que o telefone só foi realmente inventado quando Bell construiu o segundo aparelho e deu para outra pessoa a fim de que eles pudessem bater um papinho… Só aí que podemos dizer que a telefonia começou a existir de fato. Existem certos bens ou serviços que aumentam a sua utilidade – e seu valor – se outras pessoas também têm e usam esses bens e serviços.

Talvez seja essa a explicação porque a Microsoft seja dominante do segmento de sistemas operacionais, mesmo tendo um produto inferior ao da Apple. Existe muita gente usando os computadores PC com o seu sistema operacional. Fica mais fácil tirar uma dúvida com o colega do lado, que provavelmente também usa o mesmo sistema operacional. A vantagem de usar esse sistema é que muita gente usa, gerando externalidade positiva de rede.

Voltando para a bola fria, o que adianta o Corinthians ou Flamengo negociarem os direitos com a Globo por uma grande soma de dinheiro se os outros 19 clubes não assinarem. A Globo não poderá transmitir nenhuma partida do campeonato. A utilidade do acordo com o Corinthians depende que os outros também entrem em acordo com a mesma emissora. Por causa disso, os direitos de transmissão são comumente comercializados por uma entidade que garante que todos os clubes do campeonato aceitarão ter os seus direitos negociados conjuntamente.

Aí fica a minha humilde proposta para a negociação dos direitos de transmissão. Por que não fazer como os direitos da NFL, a liga de futebol americano: vender para mais de uma emissora? Nos EUA, aos Domingos, no período da tarde, existem dois canais (Fox e CBS) que transmitem cada um dois jogos. Depois à noite, tem o Sunday Night Football, um jogo exclusivo só passado na ABC. E na segunda-feira, tem o Monday Night Footbal, transmitido exclusivamente pela ESPN.

São quatro redes de televisão, comprando os direitos em vez de apenas uma. Poderia ter algo parecido nesses tristes trópicos. A Globo pagaria pelos horários que lhe interessam, a Record pagaria pelos delas, a RedeTV e a Band fariam o mesmo.

Evidentemente que isso não interessa à Rede Globo. Vai ter emissora que comprará o horário das 21h para passar jogo, competindo com a novela. Também reduziria o apelo do Pay-per-view, pois vai aumentar muito a oferta de jogos pela TV aberta.

Mas o interesse do público não deve se curvar ao interesse da Rede Globo. Esse sistema é mais competitivo e traz melhores resultados. É a mão invisível em ação. Ou deveria dizer que, neste contexto, é o “pé invisível” fazendo um golaço.

Trilha Sonora do Post

“Pumped Up Kicks” do Foster The People:

O ex-cricri-tório

março 17, 2011

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Certa vez, um colega me disse algo marcante sobre trabalhar em ambiente de escritório, que boa parte dos economistas precisa enfrentar. “A vida lá no escritório é mesquinha”, disse ele. O cara da escrivaninha ao lado começa a te invejar porque você tem um grampeador mais novo e bonito do que o dele… Na primeira oportunidade que tiver, ele pega o grampeador para si e se sentirá o dono do mundo. Do mundo do escritório…

Tive o azar de, por algum tempo, trabalhar num ambiente de escritório. Foi há muito tempo atrás. Mas a experiencia me fez regredir como ser humano. Acho que, apesar de ter lido bastante Machado de Assis, com muita atenção, e refletir muito sobre a perdição da natureza humana, me tornei, durante um curto período de tempo (Thank God!), mesquinho e de alma pequena. Isso me deixou convicto da minha vocação para a vida acadêmica. A chance de fazer as coisas “my way”. Estudar o que se quer, com a liberdade de pensamento necessária para criar o que se deseja é essencial para mim.

Há um seriado na televisão, chamado “The Office”. Na verdade, existem duas versões deste mesmo seriado: a da BBC inglesa, que teve a ideia original, e a versão americana. Conta a vidinha de um escritório, com bom humor, mas com um travo de melancolismo.

As duas versões são muito boas, mas prefiro a versão da BBC inglesa. Foram só duas temporadas com dezoito episódios. Na versão inglesa, o chefe é interpretado brilhantemente por Rick Gervais, fazendo um cara inconveniente e sem noção das coisas. Num ambiente do escritório, foi possível destilar todo o sutil e sofisticado humor britânico. Tem no Netflix para assistir.

Na versão americana, o chefe é interpretado pelo ótimo ator Steve Carrell e durou várias temporadas. As situações são também muito engraçadas, mas em um tipo de humor mais americano, ou seja, um pouco mais direto e escrachado.

Trilha Sonora do Post

Ouçam a canção “Handbags and Gladrags”, música-tema bem cool do “The Office” britânico:

Economia e TV: tudo a ver

fevereiro 6, 2011

Todo mundo vê tevê, mas se estuda muito pouco esse fenômeno de comunicação. Estudar os seus aspectos econômicos, então, nem se fala. Há muito pouco trabalho analisando a televisão do ponto de vista econômico. Isso também ocorre com o futebol. Se vê e se joga muito e estuda-se pouco.

Publiquei um artigo sobre o mercado de televisão a cabo no Brasil. Nesse estudo, analiso as raízes da crise da televisão a cabo no país. A taxa de penetração da televisão a cabo é muito baixa no Brasil em comparação com outros países tanto mais desenvolvidos como em desenvolvimento. São estimadas as elasticidade de mercado dentro de um sistema de equações simultâneas de oferta e de demanda.

A elasticidade-preço da demanda é elevadíssima (aproximadamente dez) por causa da quantidade de serviços de entretenimento substitutos, sendo que existe um substituto muito próximo que é gratuito (a TV aberta). A elasticidade-renda da demanda é também elevadíssima (mais de oito), revelando quão dinâmico é esse serviço.

A elasticidade-preço da oferta é maior que dois, devido a uma elevada capacidade ociosa nesse mercado. Com base nesses resultados, a política de preços elevados das operadoras não é muito apropriada. Pela elevada elasticidade-preço da demanda, isso gera uma grande resposta no sentido de reduzir a quantidade demandada, reduzinda a receita das operadoras.

Ou seja, para ampliar o mercado e suas receitas, as operadoras deveriam baixar os preços dos pacotes e permitir a customização desses pacotes ao gosto do freguês. Se soubessem um pouco mais de economia e de elasticidades, teriam um desempenho melhor.

Trilha Sonora do Post

Ô, Cride, fala pra mãe! “Televisão” dos Titãs: