Mão Invisível versus Mão Visível

setembro 20, 2016

Two hands clasped arm wrestling (strong and weak), Unequal match

Governo costuma ser menos eficiente do que o mercado. A fonte da ineficiência reside no fato de que o empresário busca maximizar lucros, ao passo que gestor público procura maximizar o seu tempo no cargo. Por exemplo, a maior preocupação do presidente de uma estatal é permanecer na presidência a qualquer custo. Para isso, precisa agradar ao político que o nomeou.

Além disso, existe a questão do desperdício. Empresário não gosta de perder dinheiro, pois seu bolso fica menos cheio. Para o gestor público, tudo bem perder dinheiro, pois o dinheiro público é público, portanto, é de todos e de ninguém ao mesmo tempo.

Sem falar na corrupção. “Ah”, dirá o leitor implicante, “mas empresas privadas também se envolvem em corrupção, como já está provado pela operação lava-jato”. Sim, mas existe uma pequena diferença aí. Empresas privadas se envolvem em corrupção para ganhar dinheiro. Empresas públicas são forçadas a se envolver em corrupção para perder dinheiro. Vide o caso da Petrobras.

Como sempre em economia, provar e quantificar a ineficiência da mão visível do governo (ou outra coisa qualquer) é difícil, uma vez que é quase impossível se fazer experimentos controlados. Ainda no embalo dos grandes eventos esportivos realizados recentemente no país, seria como fazer o seguinte: comparar o custo do estádio do Maracanã construído pelo governo com o custo do Maracanã, caso ele fosse erguido pela iniciativa privada. Evidentemente esse experimento é ideal e não pode ser feito, porque o Maracanã já fora construído pelo setor público.

Mas podemos usar um experimento natural para tentar construir um contrafactual (mas não um estádio). Na cidade de São Paulo, foram construídos dois estádios que, senão idênticos, são muito parecidos. E um foi construído pela iniciativa privada e o outro foi feito seguindo a lógica do setor público.

Estou falando do Allianz Parque, do Palmeiras, e da Arena Itaquera, do Corinthians. Esses dois estádios são muito parecidos. Possuem quase a mesma capacidade (47.605 do Itaquerão contra 43.713 do Allianz Parque). Foram erguidos na mesma cidade quase ao mesmo tempo (período de 2011 a 2014 para o Itaquerão contra 2010 a 2014 para o Allianz Parque).

Com base nisso, seria razoável supor que os dois estádios tivessem o custo de construção parecido. Mas não é isso que verificamos na realidade. O Allianz Parque (o nosso contrafactual), construído pela empresa W Torre, custou R$ 630 milhões, em valores de 2014. A Arena Itaquera, construída pela Odebrecht com financiamento predominantemente público  (BNDES, incentivos da Prefeitura de São Paulo, Banco do Brasil etc) custou R$ 1,150 bilhão, também em valores de 2014. Quase o dobro!

Essa diferença pode dar uma ideia da ineficiência e do desperdício (sem falar em outra coisa) de algo feito pela mão visível do governo vis-á-vis alguma coisa elaborada pela mão invisível do mercado.

Evidentemente que esse simples exercício para medir a ineficiência da mão visível do governo não envolve um experimento ideal. Os dois estádios não são idênticos, mas apenas parecidos. Por exemplo, o Allianz Parque é considerado uma das mais modernas e belas arenas do mundo, como pode ser visto nas imagens abaixo:

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Já o Itaquerão…

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Acho que o arquiteto que fez o projeto desta arena era corbusiano, ou seja, um seguidor de Le Corbusier, lendário arquiteto franco-suíço. Posso até imaginar a situação. Chegou o momento de elaborar o projeto da Arena. O arquiteto que estava sem nenhuma ideia pensou assim: “Ó meu Deus! Ó dor! Que projeto faço?” Passando os olhos pelo escritório, pousou-os na impressora em cima da mesa. “É isso!”, exclamou o nosso arquiteto, pouco inspirado.

Trilha Sonora do Post

“Live and let die” sung by Paul McCartney live at Allianz Parque:

Bomba Monetária

maio 10, 2016

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A principal causa da inflação é o crescimento da oferta de moeda na economia. Isso é sabido faz muito tempo em economia. O experimento natural da revolução dos preços no século dezesseis forneceu uma das primeiras evidências dessa teoria, denominada de teoria quantitativa da moeda.

Vale a pena recordar esse experimento fornecido pela história. A Espanha cunhou uma grande quantidade de moeda a partir de metais preciosos (prata e do ouro), explorados nas minas do Novo Mundo. Por meio do comércio internacional, essa dinheirama espalhou-se pelos outros países europeus. O que se viu depois dessa expansão monetária foi um continuado aumento do nível de preços na Europa ao longo do tempo, ou seja, inflação.

Mesmo que de forma intuitiva, os nazistas na Segunda Grande Guerra conheciam a teoria quantitativa da moeda e queriam usá-la para destruir o Reino Unido, coisa que nem a Luftwaffe conseguira com os seus aviões, jogando bombas convencionais sobre o território britânico!

A ideia era simples, mas com um quê de diabólico: fabricar em um campo de concentração, usando trabalhadores judeus escravizados, uma enorme quantidade de libras esterlinas falsas e jogar de avião sobre todo o Reino Unido. As pessoas pegariam as cédulas nas ruas das cidades e gastariam na compra de bens e serviços. Como a produção de bens e serviços não conseguiria aumentar no mesmo ritmo dessa instantânea expansão monetária, a consequência seria o surgimento de uma hiperinflação, desorganizando e destruindo completamente a economia britânica.

Note o requinte da maldade: o Reino Unido enfrentaria uma hiperinflação ao mesmo tempo que estaria envolvida num enorme esforço de guerra. Os nazistas estavam construindo uma verdadeira bomba monetária!

E a bomba monetária é muito poderosa: deixa os prédios intactos, as pessoas vivas, mas destrói todos os mercados com a perda da função de meio de troca da moeda. Numa hiperinflação, ninguém quer a moeda nacional, pois ela desvaloriza-se mais rápido do que o tempo gasto para escrever esse parágrafo.

O oficial alemão responsável em construir a bomba monetária foi o major Bernhard Kruger no campo de concentração de Mauthausen. Ele recrutou o judeu Salomon Smolianoff, um famoso falsário da época, especializado em reproduzir perfeitamente dinheiros e documentos. Smolianoff foi obrigado a coordenar diretamente a produção das libras esterlinas, chefiando uma equipe de trabalhadores judeus.

Sem deixar os alemães perceberem, Smolianoff e os trabalhadores sabotavam a operação, atrasando a falsificação do dinheiro. Felizmente para o mundo livre, os nazistas nunca tiveram em mãos a quantidade de dinheiro falso suficiente para detonar a bomba monetária.

Essa história foi contada no cinema pela produção “Os Falsários”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008, cujo trailer vem a seguir:

Em tempo: Salomon Smolianoff sobreviveu àquela barbárie. Depois da guerra, ele voltou à sua vocação profissional: começou novamente a falsificar dinheiro na Itália. Quando foi descoberto, ele fugiu para a América do Sul. Para qual país, arguto leitor? Qual país, hein? Quem adivinha?

Ganhou um sorvete chicabon, como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, quem respondeu “Brasil”. Mais especificamente para Porto Alegre, morrendo por aqui em 1977. Não se sabe ao certo se ele tentou, por estes tristes trópicos, falsificar cruzeiros, a moeda brasileira da época. Provavelmente, não. Smolianoff gostava mesmo era de falsificar moedas fortes.

Trilha Sonora do Post

“Money” de Pink Floyd:

Adivinhe Quem Vem para o Café da Manhã

abril 24, 2016

japa da federal

Apesar de todo o terremoto político que o Partido dos Trabalhadores enfrenta no momento, o Lula aparece em primeiro lugar na última pesquisa sobre eleições presidenciais de um instituto de opinião pública. Luís Inácio lidera as intenções de voto com 21%, na frente de Marina (19%) e Aécio (17%).

Isso deu uma certa animada na companheirada. Talvez por isso muitos petistas estejam defendendo que a Dilma convoque eleições presidenciais antecipadas para outubro deste ano. Enquanto traça seu sanduíche de mortadela e bebe uma tubaína, o petralha típico deve estar pensando o seguinte na sua microcabecinha: quando tiver as eleições em outubro deste ano, o Lula vence mais uma e, com isso, não precisamos largar a rapadura do poder, que é bem doce, meus caros!

Bem, vou dar uma má notícia (mais uma!) para os petistas. Essa perspectiva acalentada pela companheirada não passa de um sonho de verão eleitoral. É quase impossível o Lula ganhar as eleições presidenciais neste ano e nos próximos.

E quem prevê isso não sou eu, mas o teorema do eleitor mediano. Esse teorema da economia política estabelece que o eleitor mediano é soberano, no sentido de que a maioria do eleitorado gerará o resultado preferido por este eleitor, quando são apresentadas apenas duas alternativas. O eleitor mediano é aquele que se encontra no meio da distribuição de preferências eleitorais, dividindo esta distribuição exatamente em duas metades.

Alguém pode questionar que o modelo do eleitor mediano não pode ser aplicada às eleições brasileiras porque elas envolvem mais do que duas alternativas de candidatos. Sim, isso está correto no primeiro turno do pleito. Entretanto, no segundo turno, só existem duas opções de candidatura e vale o teorema do eleitor mediano.

A ironia é que Lula conseguiu se aproximar do eleitor mediano nas eleições de 2002 com aquela estória de “Lulinha Paz e Amor”, criada brilhantemente pelo Duda Mendonça, seu marqueteiro à época. De modo prático, naquelas eleições, Lula conquistou o voto da classe média, quebrando resistências históricas desta classe para com ele.

Com mensalão, petrolão, o populismo de esquerda e o próprio cansaço do material (afinal, são treze longos anos de governo petista), o eleitor mediano afastou-se novamente de Lula. Inclusive o eleitor mediano deve ter migrado um pouco mais para a direita da distribuição de preferências eleitorais na política brasileira. A taxa de rejeição de 53% dos pesquisados ao nome de Lula, que dizem que de jeito nenhum votam nele, quantifica esse afastamento. Lula provavelmente consegue chegar ao segundo turno, pregando um discurso de esquerda. Mas aí todos os demais eleitores de vários matizes ideológicos (centro, centro-direita, direita e até uma parte da centro-esquerda) unem-se para derrotá-lo.

Note como funciona o modelo do eleitor mediano. O fato de Lula ser rechaçado pelo eleitor mediano não significa que um candidato direitista, como Bolsonaro, tenha chance de vencer as eleições. O eleitor mediano também encontra-se longe dele, preferindo um outro candidato de perfil mais centrista.

Lula só teria chances de vencer novamente eleições presidenciais se a sua taxa de rejeição caísse consideravelmente para algo como uns trintas pontos percentuais. Coisa difícil de vislumbrar num horizonte de tempo razoável. As lambanças dele e de seu partido no poder nesses últimos treze anos serão lembradas pela história durante muito tempo, afastando definitivamente o eleitor mediano dele. Nunca antes na história deste País, houve tanta lambança e barbeiragem na condução de um governo!

Mas toda essa análise de chances eleitorais é válida apenas se o Lula continuar solto e livre da prisão. Talvez ele não possa nem mais participar de eleições neste País. Pela quantidade de evidências, proporcionada pelas delações premiadas, de envolvimento de Lula nas mais escabrosas violações de lei, o mais provável é que, num belo dia, de manhãzinha, o homem seja acordado com o toque da campainha de sua cobertura. Ao abrir a porta, tchan-tchan-tchan-tchan!, eis que ele depara com o Japonês da Federal! Os presentinhos da PF para Lula: dois braceletes, um para cada mão, e uma passagem aérea, apenas de ida, para Curitiba a fim de ter uma conversinha séria com o juiz Sérgio Moro.

Trilha Sonora do Post

A marchinha do Japonês da Federal:

A Assadura da Mandioca da Mulher Sapiens

março 30, 2016

dilma mandioca

A mandioca da Dilma está assando. Com um detalhe: não é apenas a mandioca, esta conquista da civilização humana. É a mandioca comungada com o milho. Tá tudo assando!

É, meus caros, parece que vai haver impeachment mesmo. Não vai ter golpe. É impeachment, esse instrumento constitucional que prevê a saída do presidente quando o distinto comete crime de responsabilidade. Impeachment é um julgamento político feito pelo Congresso Nacional, motivado por um fato jurídico (a caracterização do crime de responsabilidade pela presidência).

O fato jurídico apresentado no processo de impedimento que corre atualmente na Câmara é baseado nas pedaladas fiscais e na promulgação de decretos de aumento de gastos do governo sem autorização do Congresso.

Mas o que são “pedaladas fiscais”?

Dado que o governo federal não tinha dinheiro, as pedaladas foram gastos de dezenas de bilhões de reais, financiados por vários meses pelos bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa, principalmente) para pagamento de benefícios. Por exemplo, os benefícios do Bolsa Família são pagos pela Caixa com recursos repassados pelo governo federal. Mas, no ano eleitoral de 2014, não havia mais recurso para ser repassado, dado que a gastança do governo foi exagerada. Aí Dilma, preocupada em  fazer um ciclo político de negócios e ganhar as eleições, mandou a Caixa pagar o Bolsa-Família com o dinheiro da própria Caixa e com a promessa de que, em algum momento no futuro, pagaria de volta.

Trata-se de uma forma disfarçada de financiamento dos gastos do governo por parte de um banco público. E isso é expressamente proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Dilma violou essa Lei, caracterizando um crime de responsabilidade, suficiente para se pedir o seu impeachment.

Aprecie só a ironia da situação. Para a Dilma que dissera, certa feita, que “gasto público é vida”, este mesmo gasto, em doses exageradas, vai acabar sendo o motivo de sua morte política…

Ironias à parte, um impeachment com base em fatos fiscais e orçamentários pode representar, no futuro próximo, um compromisso suficientemente forte por parte dos governantes com a busca do princípio do orçamento equilibrado (equivalência entre gastos e receitas), sem espaço para seguidos déficits nominais e o excessivo endividamento público.

O princípio do orçamento equilibrado não significa que, eventualmente, o governo não possa produzir déficit em um ano, especialmente se o momento for recessivo, como um instrumento para estabilizar a economia, atuando para compensar a flutuação cíclica da economia.

O que não dá para se ter é o que se tem no Brasil há décadas: a geração de seguidos déficits nominais e crescimento da dívida pública em relação ao PIB. Vale aqui a lição da equivalência ricardiana: mais dívida hoje representa mais consumo e bem-estar para a geração atual, mas, em contrapartida, menos consumo e bem-estar para as gerações futuras, que terão que pagar a dívida e arcar com o seu ônus.

Evidentemente que o impeachment por si só não produzirá esse compromisso fiscal. Ele precisará estar consubstanciado em leis e regras (tal como a Lei de Responsabilidade Fiscal, que precisa ser ampliada e melhorada), aprovadas pelo Congresso. Creio que, depois de um impeachment baseado neste fato jurídico, será menos difícil que o Congresso aceite votar mais restrições à prática de irresponsabilidades fiscais pelos governos. Mas mesmo que não chegue tão logo essas novas regras, os próximos governantes vão se preocupar mais em não provocar um descontrole fiscal e da dívida, pois já existirá um perigoso precedente de impeachment com base em fatos fiscais e orçamentários.

Imagine um economista heterodoxo dando conselhos para um presidente no sentido de que, “para o país crescer”, é preciso gastar mais dinheiro público e dar crédito do BNDES, obtido com dinheiro de dívida, a algumas empresas escolhidas por critérios escusos. Imagine, ainda, que se o governante retrucar que não possui mais dinheiro no cofre público, o economista heterodoxo insistir que não tem problema: “basta fazer contabilidade criativa, dar umas pedaladinhas fiscais ou usar as reservas internacionais para se gastar mais”. Muito provavelmente o chefe do Executivo, cioso de seu mandato, mandará o indivíduo heterodoxo embora  do gabinete a socos e pontapés.

Esse talvez seja o maior benefício deste impeachment, isto é, o equilíbrio fiscal-orçamentário será levado a sério pelos governantes a partir de agora.

Antes que me perguntem, formulei o título e o primeiro parágrafo do post inspirado no pensamento da “presidenta”. Alguém pode reclamar que eles não fazem sentido algum. Mas e o governo da Dilma, meus caros? Faz algum sentido?

De qualquer forma, vou tentar melhorar hortifrutigranjeiramente o início do post: a Rainha da mandioca comungada com o milho vai ser “empessegada” completamente!

Melhor do que um impeachment com base na falta de equilíbrio fiscal seria apenas um impeachment embasado na falta de lógica e na confusão mental presidencial. Todo governante confuso mentalmente, que não diz coisa com coisa, deveria ser impichado. Simples assim.

Tchau, Querida!

Trilha Sonora do Post

Não podia deixar de ser a rapper, momentaneamente ocupando o cargo de “presidenta” do Brasil (mas muito momentaneamente, viu…), MC Mosquita, saudando a mandioca:

Economia do Plim-Plim

julho 2, 2015

plim plim
A publicidade é um tópico polêmico entre os economistas. Alguns a criticam argumentando que ela tem a função de criar necessidades que realmente não existem entre os consumidores. Outros críticos ainda afirmam que a publicidade é um instrumento das empresas para reduzir a competição no mercado.

Eu me enquadro entre os economistas que defendem a publicidade como uma forma de melhorar o mercado, aumentando sua eficiência. São três as razões para isso.

Em primeiro lugar, a publicidade emite uma sinalização num ambiente de informação assimétrica. Sinalização refere-se a uma ação tomada por uma parte informada para revelar informação privada a uma parte desinformada. Cabe notar que a sinalização precisa ser essencialmente custosa a fim de que nem todo mundo possa fazer o sinal, mas apenas aqueles que têm condições ou a habilidade de sinalizar. Todo mundo sabe que cachorro que late para qualquer coisa não é um bom guardião do lar.

A fim de sinalizar que seus produtos têm qualidade, uma empresa gasta muito dinheiro fazendo a propaganda destes produtos. Afinal, se os produtos não tivessem qualidade, os consumidores não comprariam mais e falariam mal deles para outras pessoas. E todo o dinheiro gasto em propaganda, que é um tipo de custo irrecuperável (sunk cost), seria jogado fora. A propaganda, que é custosa, sinaliza que o produto é de qualidade.

Em segundo lugar, publicidade promove concorrência ao anunciar as características do produto, os locais onde se pode comprá-lo, o preço etc. Além disso, publicidade é uma espécie de uma vara para a empresa potencialmente entrante a fim de superar a barreira de mercado imposta pelas empresas incumbentes e poder efetivamente entrar no mercado. Um contraexemplo disso ocorreu no Brasil com o mercado de cigarros. Nos últimos anos, a legislação brasileira impôs uma série de restrições à propaganda de cigarro nos diversos veículos de comunicação (televisão, rádio, internet, jornais, revistas, outdoors etc).

Praticamente não se vê mais publicidade de cigarro por aí. Num primeiro momento, pensou-se que isso prejudicaria a principal empresa de cigarro no mercado brasileiro, a Souza Cruz. Porém, num segundo momento, percebeu-se que a restrição na publicidade eliminou a possibilidade de entrada de uma outra grande empresa tabagista em condições de competir com a Souza Cruz, que teve sua posição de mercado reforçada e seus lucros aumentados nos últimos anos. Sem publicidade, não há chance nenhuma de uma empresa poder contestar o mercado da Souza Cruz.

Em terceiro lugar, a publicidade permite a provisão de alguns bens públicos. Bem público é um bem do qual não se pode excluir o seu consumo, cobrando um preço, e que não seja rival. Rivalidade é uma propriedade dos bens que faz com que o consumo deles acarreta um maior custo para os outros consumidores. Um exemplo de bem público (na verdade, um serviço público) é a televisão aberta. Por ser aberta, não é possível cobrar uma mensalidade dos telespectadores. Televisão aberta não é um serviço rival, pois o jogo do Palmeiras contra o São Paulo, a qual um torcedor assistiu na telinha, não fez com que sobrasse menos jogo para os outros torcedores de poltrona. No Brasil, a televisão aberta é provida pelo mercado por intermédio de empresas privadas, como Globo, SBT, Record, Band etc. Isso graças à publicidade que financia a programação desses canais de televisão. É uma espécie de efeito plim plim sobre a eficiência do mercado de televisão.

Para quem ainda não se ligou, abaixo vai o histórico dos vários plim-plins criados pela Globo.
https://www.youtube.com/watch?v=X9eYzDKgFas

Trilha Sonora do Post
“Wild, wild life” dos Talking Heads:

Seleção de Trouxas

junho 24, 2015

A-vantagem-de-ser-trouxa

Certamente você já deve ter recebido algum e-mail de uma pessoa pedindo ajuda para retirar de um país africano alguns milhões de dólares, presos por conta de algum enrosco burocrático ou político. Evidentemente, essa pessoa promete uma gorda comissão pela ajuda. O golpista espera o trouxa, interessado na comissão, responder ao e-mail para informá-lo que há a necessidade de um adiantamento de um dinheiro para destravar a burocracia.

Esse é um dos golpes mais antigos que existem e tem até nome: golpe nigeriano. Há registros de que tenha começado a ser aplicado desde 1920 (é claro, não por e-mail, mas por carta).

Muitas pessoas acham esses golpes muito toscos. Por que esses golpistas não elaboram melhor o enredo do golpe, tornando-o mais verossímil, para chamar a atenção de mais pessoas?

Não é interessante para o golpista. Para entender isso, é preciso conhecer a prática de seleção em mercados de informação imperfeita. Na presença de informação assimétrica, seleção ocorre quando uma ação tomada pelos agentes econômicos do lado desinformado do mercado induz os agentes do lado informado a revelarem suas informações particulares.

Um exemplo de seleção pelo mercado é o questionário que a companhia de seguro de carros pede que o segurado preencha. Lá tem informações sobre o estado marital, idade, se o cara pretende usar o carro para trabalhar ou apenas ir ao trabalho, se tem garagem ou não etc. Enfim, a seguradora (o lado desinformado) está tentando induzir o segurado (o lado informado) a lhe fornecer informações sobre várias características ocultas, que serão úteis para que a empresa descubra se o indivíduo é um motorista arriscado ou não. Depois que a seguradora descobrir essa informação, ela poderá cobrar um prêmio maior de seguro para os motoristas mais propensos a se envolver em acidentes (os motoristas “abacaxis”) e um prêmio menor para os motoristas mais cuidadosos (os motoristas “uvas”). A seleção é um forma que mercado encontrou em tentar consertar a falha que o próprio mercado criou.

No exemplo do mercado de golpes pela internet, o golpista não sabe onde encontrar os trouxas para aplicar o golpe. O golpista é a parte desinformada no sentido de que ele não conhece quem tem a característica oculta da imbecilidade. Para induzir que a pessoa revele-se como trouxa, o e-mail equivale ao questionário da seguradora. Basta uma pessoa responder ao e-mail, dizendo que está disposta a ajudar, para o golpista descobrir que está tratando com um senhor trouxa e que, por isso, vale a pena investir tempo para arrancar dinheiro dele.

Suponha que o golpista tenha elaborado um enredo crível do golpe. Sabe o que aconteceria? Muitas pessoas responderiam, e o golpista ficaria desinformado em saber quem é trouxa ou não. Se ele procurasse investir em cada um que tenha respondido, ele desperdiçaria muito tempo, o que não seria eficiente. Um golpe absurdamente com cara de golpe seleciona os trouxas. Se caiu na rede, é porque é um peixe trouxa.

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Os trouxas dizem que eles não são trouxas, mas pessoas crédulas, que acreditam muito nas outras pessoas. Ah é, né? Então, para celebrar essa credulidade, “I´m a believer” com Smash Mouth:

Caindo no Real

julho 1, 2014

Dia primeiro de julho deste ano comemoramos uma das mais importantes efemérides econômicas: os 20 anos do Plano Real! Vale a pena celebrar sempre o plano econômico que celebrou a racionalidade econômica no país. Como diria um ex-presidente por aí, nunca antes na história deste país (ou deste mundo) um plano de estabilização conseguiu controlar a superinflação (quase 2.500% ao ano nas vésperas do Plano) com tão pouco custo social. Depois do laboratório porque passou este país, com plano cruzado, plano Collor e outras loucuras que experimentaram em cima dos hamsters humanos (nós, o povo brasileiro).

Com o Plano Real, foi diferente: não houve congelamento nem tabelamento; não houve sequestro de ativos monetários; não houve, resumindo, macumba econômica. Todas as medidas foram anunciadas antecipadamente, sem surpresas, sem sobressaltos, sem sustos para a população.

Qual foi o elemento distintivo desse plano em relação a qualquer outro plano? O problema da inflação brasileira era a inércia: quase tudo (salários, aluguéis, aplicações financeiras, etc) era corrigido pela correção monetária, baseada na inflação passada. Ou seja, isso implicava que o principal motivo porque a inflação brasileira era alta este mês era porque havia sido alta no mês passado. Isso impunha uma forte resistência para que as taxas de inflação recuassem, mesmo diante de uma política monetária restritiva. Assim, era extremamente difícil estabilizar uma economia altamente indexada como a brasileira.

A indexação, isto é, a correção monetária instituída na lei, impedia o recuo das taxas de inflação e promovia a dispersão dos preços relativos. Isso ocorria porque se salários e aluguéis aumentavam uma vez por mês (conforme a inflação passada), os preços dos produtos podiam aumentar a qualquer momento e, pelo menos, pela inflação passada, mas poderia ser por uma taxa maior do que isso, caso houvesse choques de oferta, como uma quebra de safra agrícola ou um aumento do preço do barril do petróleo.

O truque do Plano Real foi transformar o grande problema – a indexação – na grande solução. Realmente, é difícil desindexar uma economia brasileira indexada parcialmente. Contudo, é muito menos difícil desindexar uma economia totalmente indexada. A sacada do Plano Real foi radicalizar a indexação da economia brasileira durante um período (três meses antes do anúncio do plano) com a introdução da unidade de referência de valores (URV). A URV indexava diariamente os salários, aluguéis, aplicações financeiras pela expectativa de inflação do mercado, e a sua cotação (ou seja, quanto valia a URV em termos da moeda inflacionada, o cruzeiro real) era anunciada pelo Banco Central.

Todo o dia o BC anunciava essa cotação. Com isso, as pessoas tinham as suas remunerações (salários, aluguéis, aplicações etc) corrigidas todos os dias em termos de cruzeiro real, mas estavam estabilizadas quando convertidas em URV. Um sujeito que ganhava um salário equivalente a mil URV, via esse salário nominal aumentar todos os dias na moeda com inflação (cruzeiro real), enquanto que o seu salário real continuava valendo mil URVs. A URV funcionava como uma espécie de taxa de câmbio doméstica: quantos cruzeiros reais eram precisos para se trocar uma URV. Além disso, a URV era a unidade de conta da economia, pois era melhor medir os preços em URV, que não se desvalorizava do que em cruzeiros reais. Em que pese isso, a URV não era rigorosamente uma moeda, pois não era meio de troca nem reserva de valor, uma vez que não havia cédulas de URV circulando. Por isso, a URV é chamada de quase-moeda.

Quando praticamente toda a economia estivesse indexada, quando todos os preços estivessem aumentando ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo (indexação perfeita), a URV se transformaria em moeda plena. E realmente se transformou: em 1o de julho de 1994, URV passou a se chamar real, com a seguinte cotação: uma URV equivaleria a um real (a nova moeda), transformando em moeda com todas as suas plenas funções, a saber, meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. O cruzeiro real, a moeda inflacionada, foi extinto.

Simples assim. E brilhante!

A transição do cruzeiro real para o real foi suave e sem sustos. Evidentemente, antes de se fazer essa transição foi necessário fazer um ajuste fiscal para melhorar as contas públicas a fim de se evitar que o déficit orçamentário fosse financiado com a nova moeda (reais) fazendo surgir a inflação novamente. Outro elemento que ajudou a estabilização foi a abertura econômica com a possibilidade de importar produtos para controlar o costume por parte das empresas de aumentar preços a qualquer oportunidade que aparecesse (a âncora cambial). Em resumo, é essa a breve história  do plano de estabilização mais bem sucedido! Um brinde ao Plano Real por mais um aniversário! E que sirva de inspiração para que nunca mais este país volte a ter superinflações no futuro!

 

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Como estamos falando da importância em não esquecer, não nos esqueçamos desta que é uma das mais belas músicas do Pop Rock: “Don´t you (forget about me)” do Simple Minds!

O Economista que Virou Suco

abril 6, 2014

Se você perguntar para um microeconomista, ele afirmará que o consumidor gosta de diversidade. Uma experiência interessante feita pela economia comportamental foi testar isso numa feira de exposição de alimentos. Puseram duas barracas vendendo geleias. Uma delas com uma enorme variedade de tipos e sabores de geleias; a outra com apenas quatro sabores básicos de geleias (morango, pêssego etc).

Será que o leitor descobre qual das barracas foi mais visitada? Acertou quem disse que foi a primeira.

Agora vem a pergunta: qual das duas barracas registrou mais vendas? A segunda com apenas os quatro sabores básicos de geleia. Conclusão: consumidor gosta de diversidade, pero no mucho!

Lembro-me quando morava nos EUA de minhas idas para o supermercado. Lá ia comprar suco de laranja para tomar de manhã. No supermercado, os sucos de laranja ocupavam uma enorme prateleira. Tinha tudo lá: suco de laranja com pouca polpa, polpa média, muita polpa; suco de laranja com cálcio e sem cálcio; suco de laranja misturado com tangerina ou suco de laranja sem tangerina; suco de laranja sugar free ou não, suco de laranja por tipo de laranja.

E o número de opções é obtido por análise combinatória: tinha suco com média polpa, com cálcio, sem tangerina, sugar free, de um determinado tipo de laranja ou suco com pouca polpa, sem cálcio , com tangerina, regular de outro tipo de laranja e assim por diante. E isso tudo para cada marca!

Eu passava um tempão escolhendo o maldito do suco, pois as embalagens eram muito parecidas entre elas, predominando o amarelo, o verde e – não poderia deixar de ser – o laranja! Durante todo o tempo que estive na América, acho que nunca comprei o mesmo suco duas vezes seguidas.

Teve um dia especialmente que botei na cabeça que levaria a combinação de suco que mais me agradara: suco de laranja com pouca polpa, com cálcio, sem tangerina, sugar free da marca Tropicana. Fui à prateleira enorme e comecei a aplicar um método para escolher, eliminando as possibilidades irrelevantes. Gastei mais ou menos meia hora no processo! No dia seguinte no café da manhã tinha percebido que quase tinha acertado na combinação: não tinha escolhido o sugar free…

Depois disso, a escolha do suco passou a ser um martírio. Começava a suar e sentir palpitação no coração só de aproximar da fatídica prateleira e perder meu precioso tempo para escolher um suco que não era exatamente o meu preferido. Era a mesma angústia do goleiro no momento do pênalti. Certa feita, pensei que teria o colapso cardíaco por não conseguir escolher o suco. Outra vez, estava com sintomas de um AVC.

Por que você comprava, então, o suco – deve estar se perguntando você, meu caro e incompreensível leitor?! Comprava porque era danado de gostoso, mesmo quando errava a combinação – ora bolas!

O que me irritava nesse processo de compra era que eu, como consumidor, em toda minha suposta soberania, não conseguia comprar a combinação de suco que maximizava a minha satisfação por causa exatamente da enorme diversidade de opções à minha disposição. Então, dizer que o consumidor quer diversidade ilimitadamente é bobagem. Por favor, me polpa. Quero dizer, me poupe.

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Você não está satisfeito? Satisfaça-se simplesmente! “Just can’t get enough” do Depeche Mode:

Econometria Espacial Aplicada

agosto 26, 2013

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O texto abaixo encontra-se no prefácio do meu livro “Econometria Espacial Aplicada”, publicado em 2012:

“Por que escrever um livro?” É a pergunta que todo autor deveria fazer antes de ligar o computador. Evidentemente, a resposta não é “ora, para ganhar dinheiro”, como dissera Paulo Francis quando indagado sobre o assunto… Por que escrever este livro-texto, em particular? É a pergunta que tentei responder para mim mesmo durante todo o tempo consumido na sua elaboração.

Acho que tinha boas razões para fazê-lo. Não existe nenhum livro-texto sobre o assunto no Brasil. Mesmo no mundo os livros sobre econometria espacial podem ser chamados de tudo, menos de serem livros-textos com as qualidades didáticas que um livro dessa natureza precisa possuir. Outra razão nobre é dizer que este manual procura difundir a econometria espacial no País num assunto que interessa professores, pesquisadores, estudantes de graduação e de pós-graduação de diversos cursos e profissionais de várias áreas de atuação.

Em que pese sejam motivos verdadeiros, talvez a principal razão ainda tenha sido a necessidade de organizar este conhecimento para a disciplina do Curso de Pós-Graduação em Economia Aplicada da Universidade Federal de Juiz de Fora, que eu teria de começar a ministrar havia alguns anos atrás. Ou seja, eu necessitava de um material na forma de uma apostila para apresentar aos alunos, e que eles pudessem acompanhar, tendo em mãos um conteúdo organizado, com uma notação padronizada e escrito de uma forma didática, evitando que eles tivessem de assimilar tal conhecimento a partir da leitura direta de mais de uma centena de artigos e textos, na maioria dos casos com uma linguagem hermética, espalhada numa selva de referências e com notações as mais diversas. Indubitavelmente, na ausência de alunos, não haveria este livro.

Esta semana tive a alegria de ter visto meu livro considerado como um dos melhores livros de Economia escritos no ano passado pelo Conselho Federal de Economia. Neste link aqui você encontra todos os laureados com o XIX Prêmio Brasil de Economia, a ser concedido no Congresso Brasileiro de Economistas, em Manaus, no começo do próximo mês. Como agradecimento, reproduzo a dedicatória do livro:

Dedico este livro aos meus antigos, atuais e futuros alunos.

Simples assim.

A página do livro na editora encontra-se aqui.

 

Trilha Sonora do Post

No final de um extenso trabalho, a gente se sente um vencedor. Foi assim com este livro. Ele começou a ser concebido quando estudava isso nos EUA faz muito tempo. Quando terminei o livro, ouvi na minha mente os primeiros acordes de “we are the champions” do Queen…

Manifesto da Econometria Política

agosto 22, 2013

MEP

Era uma vez, muito, muito tempo atrás, na selva paulistana. Uns quatro ou cinco mestrandos de Economia da USP com tendências bem heterodoxas, admiradores de Marx, Lênin, Rosa Luxemburgo e de Prebisch, resolveram sair para beber. Tinham tido mais uma aula de Econometria I na Pós, lá no final dos anos oitenta. Eles sentiam o cheiro do sangue fresco no ar. E era deles, meu irmão. O bicho ia pegar na disciplina de Econometria. Na verdade, o bicho já tinha pegado. A primeira prova já tinha sido feita e… nabo! A segunda prova tinha acabado de ser feita na semana anterior e… nabo! A coisa estava ficando periclitante. Foram para o lendário bar “Rei das Batidas”, logo na saída do portão da USP, para beber a fim de poder esquecer que estavam fazendo aquela maldita disciplina e aproveitar talvez os últimos momentos vividos na Pós. Se não passassem na disciplina de Econometria I, game over, brother! Fim do dinheiro da bolsa. Fim do sonho do diploma de Pós. Um já lamentava que teria que descalçar as sandálias e arranjar emprego de verdade, pô!

Cerveja vem, cerveja vai, cachaça vem, cachaça vai, e os heterodoxos alcoolizados começaram a rir de sua própria desgraça. “A chapa está esquentando sob nossos pés!” “Rarará!” Riam insana e delirantemente, os pobres coitados, já totalmente tomados pelos efeitos etílicos da “marvada”. “Vamos pedir transferência para a Unicamp! Ainda dá tempo!”, sugeria um deles, apoiado entusiasticamente pelos outros, que urravam freneticamente, enquanto sacudiam suas canecas com o precioso líquido dourado ou prateado. “Ou podemos fazer um manifesto de protesto contra tudo isso que aí está  na econometria neoclássica, que foi inventada para humilhar os estudantes trabalhadores deste país!”, gritou outro deles, engolindo a sua n-ésima pinga.

Todos apoiaram e resolveram escrever um libelo contra os métodos quantitativos da classe dominante e em favor de algo mais holístico, mais humano, mais cristão, mais econometricamente correto, em favor dos povos do Planeta. Um teve uma sugestão, complementada por outro cara. Pegaram os guardanapos e começaram a “escrevinhar” torto e nervosamente. E assim foram, vararam a noite entre goles, risos, propostas. Foram os últimos a sair do boteco, expulsos pelos garçons, ávidos em se ver livres daquelas criaturas inconvenientes. Saíram cambaleantes, alegres, falando alto, de alma lavada. Carregavam orgulhosos de baixo do braço um documento, que achavam que mudaria a face da Econometria no mundo. Convictos que tinham acabado de aplicar um mata-leão nos econometristas neoliberais, sem coração, desprovidos da capacidade de manifestar qualquer gesto de compaixão com seu semelhante. Esse grupo de desajustados tinha produzido o “Manifesto de Econometria Política”.

É assim que acho que esse Manifesto foi concebido. A estorinha acima é inventada, mas bem que poderia ser verdadeira.

Conheci pessoalmente três desses caras. São grandes sujeitos para conversar e beber. Todos sobreviveram. Na bacia das almas, passaram em Econometria I. São doutores em Economia e grandes professores universitários hoje em dia.

Um deles me passou o histórico documento do bom humor econômico, que orgulhosamente reproduzo aqui abaixo. Trata-se de uma singela homenagem aos 25 anos deste importante documento! É a coisa mais hilária que já vi em Economia! Eis o MANIFESTO DA ECONOMETRIA POLÍTICA!

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MANIFESTO DA ECONOMETRIA POLÍTICA

Cesse tudo o que a antiga musa canta

Que um valor mais alto se alevanta

Nós, os econometristas políticos, em nome da honra de nossa profissão (seja lá o que isto for), vimos por meio deste manifesto demonstrar nosso repúdio aos métodos quantitativos burgueses, neoclássicos, ortodoxos, tradicionais, estáticos e reacionários (vide M. POÇÇAS, 1988, pág. 24) e resgatar os valores político-sociais-morais-ideológicos-dialéticos-culturais-dinâmicos-e-acumulativos-de-capital: o caso brasileiro (vide M.C. TAVARICH, 1988, pág. 24) que hoje se põem como a única alternativa viável à feudalização da Econometria Brasileira (vide L.C.  BELEZZA, Anais do XXIV Congresso do PE do B, 1988, pág. 24). Propomos uma nova formulação crítica da Econometria Política fundamentada nos princípios que se seguem:

  1. Por que, de maneira autoritária, se impõe E(u) = 0? Isto é uma forma afintosa de camuflar a apropriação do excedente da clafe trabalhadora. Por que não 12% ao ano? (a este respeito vide F. GASPARIAN, O FANTASMINHA AMIGO, 1988, Paz & Terra, pág. 24);
  2. Por que o erro é denotado por “u” e não “e”? Isto é mais um artífifio para confundir a clafe trabalhadora (vide W. BALELLI, 1988, pág. 24);
  3. Quem, afinal, define porque o estimador é justo? A justeza do estimador só pode ser definida após uma ampla discussão democrática com a clafe trabalhadora (vide P. A. SAMPAIÃO JR., 1988, pág. 24);
  4. A lógica totalitária da Econometria Neoclássica impõe que os coeficientes sejam ou positivos ou negativos. Por que não coeficientes dialéticos, positivos e negativos ao mesmo tempo? (vide J. C. Praga, 1988, pág. 24);
  5. Por que utilizar variáveis quantitativas quando as relações essenciais de produção são qualitativas? Sem embargo (vide C. FURTADO E ARROMBADO, 1988, pág. 24), propomos a utilização apenas de variáveis dummy (vide LESSA DE QUEIROZ, 1988, pág. 24);
  6. Por que utilizar séries de tempo lógico (não veja G. SCHWARTZ, VULGO POUCA VOGAL, 1988, pág. 24), quando o correto é utilizar séries de tempo histórico (agora sim, vide G. SCHWARTZ, VULGO POUCA VOGAL, 1988, pág. 24)

Dadas as inconsistências não-contraditórias, imorais, totalitárias e estáticas, entre a realidade dinâmica e a Econometria Neoclássica, propomos aqui o programa de pesquisa da Econometria Política:

  1. Aceitar e questionar a existência do Erro Tipo III: admitir que está errado quando não está certo. (vide, p. ex., Don João Manuel, In: O Capitalismo Retardado, passim.);
  2. Consertar a curva de demanda quebrada, que a Econometria Neoclássica permitiu, por mais de cinquenta anos, que permanecesse no mais hediondo abandono, apesar dos esforços do companheiro Sweezy (vide OLIVEIRA DE CHICO, 1988, pág, 24);
  3. Mudar a sede das simulações de Monte Carlo para Cubatão (SP) (conf. proposta de RUHYM AFFONSO, In: Por que eu sou marxista-quercista-leninista?);
  4. Substituir as equações de diferença por equações de igualdade, de forma a não reproduzir a estrutura social injusta do capitalismo monopolista-maduro-caindo-aos-pedaços-e-retardado (vide P.T.P.L.S. – porque é de menor – no seu famoso compêndio Isto é uma mierrrrda; ou Lo que Cuércia realmente quiso decir, Edições BADESP, 1988, pág. 24);
  5. Substituir os métodos de regressão linear, de cunho claramente monetarista e recessivo (vide Wilson TUBOS & CONEXõES, 1988, pág. 24), pela progressão não linear em retrocesso (vide F. Masuqqelli, A esculhambação em processo, 1988, pág. 24);
  6. Trocar os nomes de heterocedasticidade, homocedasticidade, homossexualidade (SMITH, KEYNES & quiçá RICARDO, 1988, pág. 24) e multicolinearidade por nomes mais simples, como joão, manuel, cardoso, dimello (vide D. MUNOZ, Pobremas da infração brasileiras e brasileiros, 1988, pág. 24);
  7. Substituir os índices de Laspeyres e Paasche pelo índice do DIEESE (vide P. BAU’TAR, 1988, pág. 24);
  8. Criar, como pólo de debate nacional, a REVISTA DE ECONOMETRIA POLÍTICA, destarte (vide FURTADO E ARROMBADO, 1988, pág. 24), a ser editada pela Ed. Motta & Conexão Brasiliense (ligada à futura Universidade Federal tecnológica de Tocantins – UFETOCAN – a 88 mil quilômetros e 24 metros de São Paulo, a partir da Sé), cujo Conselho Editorial será formado por Brecha Pereira, Brecha Pereira, Brecha Pereira, Brecha Pereira, Brecha Pereira, Brecha Pereira, Nukano e Brecha Pereira

TODO PODER EMANA DO POVO, DE JOÃO, DE MANUEL, DE CARDOSO E DE MELLO

Campinas, primavera florida de 1988