Archive for the ‘Risco moral’ Category

Os Caras mais Espertinhos da Sala

novembro 4, 2011

Pode-se enganar todo mundo durante algum tempo. Também é possível conseguir enganar alguém durante todo o tempo. O que não se consegue é enganar todo mundo durante todo o tempo. Mas a empresa americana Enron quase conseguiu essa proeza! A Enron produziu no começo deste século um dos maiores escândalos corporativos nos EUA, que abalou a confiança de diversos acionistas na lisura e transparência da bolsa de valores americanas. Questões, como governança corporativa, que hoje está em alta, começaram a ganhar força depois desse escândalo. A Enron foi uma das pioneiras na chamada contabilidade criativa, ou seja, por meio de operações contábeis escusas transformar prejuízo real em lucro fictício, aumentando espuriamente os preços de suas ações e aumentando os dividendos distribuídos aos acionistas.

Mas, afinal, o que consistia essa fraude? Para responder, vou me apoiar no excelente artigo publicado à época por Paul Krugman no NY Times, usando uma prosaica sorveteria como exemplo: “você assina contratos para fornecer aos clientes um sorvete por dia pelos próximos 30 anos. Você subestima deliberadamente o custo de cada sorvete; então, lança os lucros projetados das vendas futuras de sorvete como parte dos resultados do ano corrente. De uma hora para outra, sua empresa parece altamente lucrativa e você consegue vender ações da sorveteria a preços inflados“. Eles conseguiram fazer isso durante mais de dez anos seguidos sem ninguém perceber. Enganaram um monte de pessoas, que perderam todas as suas economias  e tiveram sua vidas destruídas.

Existe um filme-documentário sobre os donos da Enron, chamado “The Smartest Guys in the Room”. É uma das coisas mais impressionantes que eu já vi no cinema. Você sai da sala muito mais desconfiado com o que tentam te “vender”, desde ações até idéias políticas. Ah, você sai também mais descrente da natureza humana. Tentem pegar esse filme na locadora. Vale a pena. Aumenta muito o senso crítico com relação a tudo e a todos. O link do site do filme está aqui: www.enronmovie.com. O vídeo abaixo apresenta o trailer do filme.   Ah! Ia esquecendo: como se diz, a justiça de Deus tarda, mas não falha. Kenneth Lay, o CEO da Enron, e um dos caras mais espertinhos da sala, já morreu. Ei, Kenny, que tal fazer negócios com o Capeta?

Trilha Sonora do Post

“Sympathy for the Devil” dos Rolling Stones:

 

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Perigo Moral! Perigo Moral!

março 24, 2011


Tenho um amigo que está louco para se livrar de seu carro. Ele já tentou se livrar legalmente do carro, indo a uma concessionária e colocando o carro como parte do negócio de um carro novo. O carro dele vale 25 mil pela tabela Fipe. O avaliador da concessionária botou 17 mil. Ele tentou outras lojas que vendem carros usados. O preço não melhorou. Pior, abaixou ainda mais: 16 mil foi o máximo que conseguiu.

Meu amigo se revoltou. “Como fazem isso comigo?! Assim não dá!” Aí ele radicalizou total. Começou a torcer para roubarem o carro dele. O seguro dele paga tabela Fipe. Eles fez as contas. Os seus olhinhos brilharam com o presumido lucro.

Passou a não usar mais estacionamento pago. Punha na rua mesmo. Quando flanelinha pedia uma caixinha para olhar o carro ele respondia: “E quanto tu quer para roubar?”

Depois, começou a escolher as ruas com maior incidência de roubo de carro. Nada de roubarem o carro. Cada vez que ele se aproximava do local em que ele tinha deixado o carro, o coração do pobre coitado começa a palpitar. “Será que roubaram?” “Será que vou receber o valor da tabela Fipe?” Nada. Tava lá o carrinho intacto. O meu amigo praguejava: “onde estão os ladrões quando se precisa deles, pô?!”

Insistente, passou a colocar uma placa com os sugestivos dizeres “Rouba-se”, afixada no vidro traseiro. E começou a deixar o carro em ruas cada vez mais perigosas, aberto, com a chave na ignição e um prato com brigadeiros no banco do motorista para ver se estimulava algum gatuno a subtrair o auto. Nada.

Na última vez que conversei com ele, desanimado, meu amigo já estava defendendo pena de morte para bandido! Para bandido que não rouba o carro dele!

Disse a ele que o que estava acontecendo era um caso típico de perigo moral (moral hazard, em inglês, que é traduzido para o português também como risco moral ou dano moral). Ao que ele redarguiu, berrando: “perigo moral uma ova! Tô querendo é levar vantagem na situação, pô!” Pois é, mas trata-se de perigo moral mesmo.

Em economia, perigo moral emerge na relação agente-principal. No contrato de seguro, o agente é o segurado e o principal é a seguradora. Quando a ação do agente não pode ser perfeitamente monitorada, abre-se a possibilidade de haver um comportamento perigoso moralmente. Isso significa que o agente muda o seu comportamento em relação a seu empenho em cuidar do carro porque tem o seguro. Se não tivesse, ele tomaria muito mais cuidado com o carro. O contrato de seguro pressupõe que o segurado não relaxará o seu cuidado com o objeto alvo de seguro.

Tal situação enquadra-se na falha de mercado chamada de “assimetria de informações”. O mercado tenta resolver essa falha colocando incentivos ao indivíduo a fim de que ele não mude o seu comportamento. Por exemplo, a Seguradora pode dar desconto no prêmio se o carro tiver alarme, manutenção de bônus caso não haja sinistro, etc.

No caso, o segurado, meu amigo, tem mais informações sobre o seu efetivo comportamento de risco do que o outro lado do mercado, onde se situa a seguradora. Enquanto isso, desesperado, meu amigo cogita em contratar um bandido para roubar o carro. Ele diz que quando vir o carro roubado, depois de fazer o BO na delegacia, ele estoura um garrafa de champanhe francês durante o trajeto do táxi para casa em comemoração.

Trilha Sonora do Post

“Danger” do AC/DC: